O contrassenso é o limite

por - 11:05

Ciclofaixa de Higiénopolis por Luis Fernando Almeida

 

A internet é um antro da perdição e do achado de diversos assuntos e nos últimos dias tenho visto dois temas se repetindo com enorme frequência. O primeiro deles, a eterna luta pela descriminalização/legalização da maconha, que voltou a tona depois de uma campanha lançada pelo político Jean Wyllys. A bancada careta dos políticos rebateu usando como argumento um médico indo operar após fumar maconha. Como na internet tudo se transforma e o que viraliza passa longe de manter qualquer tipo de censo, apareceram diversas piadas envolvendo a mesma frase da campanha contra a marijuana, mas no lugar da erva, várias outras coisas legalizadas e (ir)reais (existe mesmo miojo de doce de leite?).


Outro tópico velho que esta bombando é o uso das bicicletas, Isto porque o prefeito de São Paulo resolveu criar uma ciclofaixa na Paulista. Já tem político mobilizado para impedir tal despautério, afinal, onde Haddad pensa que ele está? Numa cidade de hippie? Acho que não, né? Em tempos de eleições, tudo vira sigla e provavelmente a culpa é da junção de duas ou três letras.


Interessante é perceber que parte do grupo político contra a ciclofaixa é a mesma (coligação) que é contra a legalização da maconha. Nessas horas eu paro pra pensar e reflito: se eles dizem estarem fazendo um bem para a população e para o planeta em evitar o uso da plantinha do demônio, eles também estão agindo errado e evitando uma das possíveis saídas para uma melhora do meio ambiente e inclusive reduzir a poluição em grandes cidades do Brasil.


Os favoráveis a ciclovia dizem que agora finalmente São Paulo pode ser dita uma cidade grande, comparando-se a Europa. Engraçado que eu tenho parentes que moravam por lá e eles dizem que não existe ciclofaixa em todos os cantos das cidades. Minha irmã acabou de voltar do velho continente. Passou por 15 países, viu várias bicicletas e quase nenhuma via exclusiva. Segundo meu primo, que morou na Picadelli Circus, na Inglaterra a lei é dura, cumprida a risca e por lá, o ciclista sempre anda no meio da rua, como parte do trânsito (se você não entendeu, bicicleta também é trânsito) e se um carro toca em você, a culpa é do carro e ele é punido.


Não discordo que o poder punitivo funcione com o ser humano, mesmo porque usamos o cinto de segurança em carros não para nos sentirmos seguros e sim para evitar a multa. Me lembra aqueles experimentos com cobaias, que são punidas caso façam alguma coisa que não deveriam fazer e se isso cola com os seres humanos, percebo que realmente somos todos macacos, né? (não somos, não!)


São Paulo por Thiago Benicchio


Acredito que mais importante que o fator punitivo é o fator educacional. Na Europa o culto ao carro não é mais importante que o culto ao corpo e sua saúde (corpo são, mente sã). Li um texto de um morador de São Paulo que dizia que lá as pessoas gostam de ir andando para os cantos, assim fazem exercícios, se locomovem e ainda apreciam a paisagem. Além disso, saber o que é danoso ou não para sua saúde, para a vida do planeta, para o bom andamento da cidade e de seus cidadãos é mais importante do que cultuar a si próprio e a toneladas (ou quilos, se pensarmos em bicicletas) de aço e seus derivados.


Neste mesmo texto, que foi impulsionado inicialmente por comentários absurdos de quem tem uma mídia a seu bel-prazer, o autor fala em uma sociedade carrocrata, descrevendo não apenas o Brasil, mas inclusive seu espelho de evolução na América do Norte. Não discordo do que foi dito, muito pelo contrário, acredito que o pensamento seja correto. E aqui não estou falando do comodismo de não suar andando por aí, ou correr risco de ser assaltado e perder o iPod que foi comprado nesta semana. Estou falando dos lucros criados por tais falácias com a venda dos carros.


Digo isso porque se o importante fosse poluir, não ouviríamos a frase “descaso com o transporte público”, que é outro meio de transporte movido a motor, que usa petróleo e enriquece os sheiks da Petrobrás. Mesmo porque, não é descaso, afinal, os governantes sabem o que está acontecendo, eles apenas não tem interesse em resolver. Daí quando você tem uma condição melhor, o que você faz? Corre numa concessionária, que diz todo dia na TV que você compra igual ao funcionário da loja, e sai motorizado por aí.


Tanto no caso das ciclovias e o uso das bicicletas como meio de transporte, como na descriminalização da maconha, dois pontos são congruentes. A falta de respeito com o próximo e o que ele considera importante pelos que são contras, além da enorme quantidade de dinheiro movido pela indústria paterna dos carros, pelo tráfico da droga e os grandões (muitos deles políticos, outros aliados para um caixa dois das eleições).


Acredito que o fator congruente que resolveria tais problemas, seria o radicalismo! Se tem droga lícita, todas deveriam ser lícitas. Se você não quer liberar a maconha, proíba o álcool! Se tem transporte de quatro rodas, todos os outros meios de transporte deveriam ter seu espaço. Porém, falta um fator muito importante para chegarmos neste belo modelo anárquico: não existe o discernimento necessário para fazer escolhas. E não estou aqui dizendo que uma coisa é melhor que a outra, cabe as pessoas sãs e que foram educadas decidirem o que querem fazer de suas vidas ou não. Contanto que o que você faça não respingue nos outros, está tudo certo.


medicobaseado


*O autor deste texto não fuma maconha, na real, não fuma nada. Ele também resolveu vender o carrinho velho dele e se locomover usando o transporte público do Recife, bicicleta e andando entre as pontes.


Quase todas as imagens e links retiradas da fanpage do Trabalho Sujo (Valeu Matias)!

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