Paola Rodrigues - Perdida

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Perdida Perdida

Paola Rodrigues

Geração Perdida (2014)

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Spoken Word: gesto de declamar textos com conteúdo social, político, performático, literário ou como Paola Rodrigues fez em seu disco Perdida, tudo isso ao mesmo tempo. Se artistas como Gil Scott-Heron, talvez o grande representante dessa tradição em discos dos anos 70, ou The Last Poets, influência de nove a cada dez grupos de hip hop das décadas seguintes, argumentavam sobre quando a revolução viria ou se ela seria televisionada ou não aos olhos de todos, em Paola a revolução já começou e só ela pode ver, até o momento em que começa seu canto falado, nesse momento as pedras voam em direção aos vidros da realidade, que não são as vitrines das lojas ou dos espaços bancários mas atravessam o vidro dos espelhos que guardam faces que já não queremos vestir no próximo jantar de família.


Por isso quando adentramos sua casa logo na primeira faixa, somos apresentados a sua escuridão: “minha casa sou eu; é quando sinto as rachaduras que eu sei onde eu tô”, e se não lhe fizeram nenhuma ilusão já não precisamos fingir que isso não é real. Em “Vida Lúcida”, a metáfora exata dos amigos como vidros que cortam e quebram. A existência de semelhantes que nos fazem ver o avesso de nós, “sou feito vidro sujo com você”.


No processo de raspagem de ossos, o exercício é doloroso mas também pode ser regozijante, ao abrir mão do sofrimento pode-se tirar os espinhos calmamente, acariciá-los como quem perdoa a si mesmo e reconhecer-se vulnerável é parte fundamental do que revigora a identidade em estado constante de quebra e reconstrução.


Nas canções que vão passando, o olhar é modificado pelo caminho. A casa agora é um escombro gigantesco que se acumula nos ombros, nos corpos há o concreto e o caminhar fica pesaroso ao carregar cidades, edifícios, automóveis, tudo está em proliferação enquanto o espirito busca ascender de uma superfície que não vemos como nosso lugar.


Na busca por saída flertamos diariamente com doses de morte, copos de café, goles de cachaça, sim os suicidas não vão pro céu (eles merecem lugares melhores), a voz de João Gilberto surge e logo é distorcida e engolida pela máquina e as batidas atropelam a sua capacidade de ser o que você deseja, “qual era a parte que lhe ensinaram a ser e qual era a parte genuína”. Você já se esqueceu?


As camadas de atmosfera e a cama para a prosa são feitas pelo produtor do disco, Vitor Brauer, que além de integrar a banda Lupe de Lupe, lançou dois discos solos de spoken word e ao lado de grupos como Quase Coadjuvante, se denomina pertencente a Geração Perdida, um coletivo de jovens artistas de Minas Gerais, prontos para cruzarem o mar de autocomiserações atuais.


O poema “No Futuro” faz um diálogo com projeções de um tempo em que estaremos “próximos de deus e longe dos nossos”, onipotentes mas talvez ainda lutando contra inimigos pessoais ou casos amorosos que se confundem com carência e o peso de egos que jamais compreenderão o amor e só os pequenos artistas e os poetas poderão vislumbrar esse insistente jogo de máscaras e memórias. “Porque passou como tudo que passa e se perde, tudo, tudo e absolutamente tudo”.


Em “O Espelho” mais uma vez Paola recorre a metáfora do vidro como ação de compaixão e entendimento do mundo interior através do outro: uma declaração zen budista por merecimento: “porque você é o meu espelho e eu te reflito”, quando finalmente enxergamos no outro a extensão de nossos atos, consequentemente chegamos ao fio condutor que muitos deixam escapar ao buscarem a si próprios.
“Nossos amigos são nossa casa/... a confusão só existe diante de nossos olhos” são versos que passeiam numa praia que sempre estará lá, mas e nós?


“Noites Doces” é um passaporte pelas ruas de Belo Horizonte, as andanças em bando apenas para matar o tempo, “todas as músicas são boas mas algumas, desconfortáveis”. Não há quem discorde. Tudo termina em nostalgia, ou seria pressentimento? A canção de Caymmi entra feito chuva que leva coisas para a beira do mar tentando lhes dar uma nova chance de serem encontradas por outras pessoas em outras épocas mais distantes da qual chegaremos; “Bahia Perdida” pois o lugar do qual sentimos falta só passa a ser possível em nossa lembrança, mesmo que voltemos já não há.


Paola Rodrigues faz aquilo que cada indivíduo altamente comprometido com sua consciência e os erros e prazeres da humanidade deveria fazer, dar sua voz para que outros possam ecoar e essa voz torna-se um tapete para que pessoas se juntem numa jornada que não deve ser pequena já que não existem tapetes mágicos mas necessita ser vital para que possa nos aproximar da redenção e lá chegando não duvidaremos de uma vida lúcida pois estaremos no chão de nossas casas e ela não estará mais as escuras.


Paola deu o primeiro passo para que as luzes se acendam.


Texto por Marcos Nasc

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