As Pessoas de Bem

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[caption id="attachment_25685" align="aligncenter" width="591"]tirinha1462 Tirinha por @malvados[/caption]
As Pessoas de Bem gostam de limpeza. As Pessoas de Bem se reúnem em seus apartamentos e contam às suas crianças histórias de dormir. As Pessoas de Bem dizem morar em cidades limpas, ter seus carros e as calçadas das suas casas periodicamente lavados. Porque a limpeza é algo bom. A ideia de limpeza é algo bom, porque ela faz com que as Pessoas de Bem se sintam menos animais. É por conta dela que as pessoas de bem dizem gostar que seja limpa a merda dos seus cães e outros animais domésticos.

As crianças das pessoas de bem, um dia, quando inocentemente brincam nas áreas privativas de seus apartamentos, começam a se questionar sobre a limpeza. Elas percebem, e continuam a perceber durante sua infância, a sujeira. Quando chegam em casa sujas das ruas – pois algumas das ruas das Cidades de Bem ainda são, por algum motivo, sujas – elas apanham. Elas aprendem que as Pessoas que sujam as ruas são criaturas de uma outra história, de um mundo muito diferente daquele que seus pais contavam no berço, antes de dormir. Aos poucos, deixam de ir as ruas e se declaram limpos.

As Pessoas de Bem se organizam periodicamente para acabar com a sujeira daquelas poucas ruas que sujavam o horizonte da Cidade das Pessoas de Bem. Elas se unem em grandes grupos nas ruas e dançam a dança sagrada das Pessoas de Bem, pedindo pela limpeza das ruas sujas aos céus. Não importava o quanto tentassem as Pessoas de Bem, as ruas continuavam cada vez mais sujas. As crianças das Pessoas de Bem aprenderam, com o passar do tempo, que as Pessoas Sujas eram as responsáveis pela derrota da Organização de Limpeza das Pessoas de Bem.

Pois as Pessoas Sujas vinham daquelas ruas inexplicavelmente sujas das quais as Pessoas de Bem retiravam suas crianças. Se a Merda não se limpava, era porque aqueles seres vindos das ruas representavam a Merda; e as Pessoas de Bem, a limpeza.

As novas Pessoas de Bem, crescidas das histórias de seus pais, levam em frente a milenar tradição das Pessoas de Bem: gritar aos quatro ventos, com energia religiosa, a urgente ordem de que as coisas se façam limpas. Elas pedem todos os dias pela limpeza vinda dos céus, e se a Merda não houvesse sido limpa no dia seguinte, culpavam as Pessoas Sujas, como faziam seus pais.

atitudes de um cidadão de bem

Pois as Pessoas Sujas vinham daquelas ruas inexplicavelmente sujas das quais as Pessoas de Bem retiravam suas crianças. Se a Merda não se limpava, era porque aqueles seres vindos das ruas representavam a Merda; e as Pessoas de Bem, a limpeza.

Um dia, uma Pessoa Suja adentrou a Organização de Limpeza das Pessoas de Bem e fez uma revelação chocante: as ruas de Bem da Cidade das Pessoas de Bem também estavam sujas.
Eu era uma Criança de Bem quando aconteceu. A Pessoa Suja sugeria que todas as ruas precisavam ser limpas – e inclusive, que algumas ruas das Pessoas de Bem eram mais sujas que as das Pessoas Sujas – e se dirigiu às ruas das Pessoas de Bem para limpá-las.

Eu brincava na porta da minha casa naquele dia, curiosamente na mesma rua de Bem que aquela triste Pessoa Suja havia decidido limpar. Foi a primeira vez que olhei uma Pessoa Suja nos olhos. Me senti amedrontado, primeiramente; mas aquela Pessoa Suja tirou um pano das mãos e começou a esfrega-lo no chão à minha frente. Pela primeira vez, vi a água desmontar as partículas de terra sob o chão, que começou a brilhar. A Pessoa Suja sorriu um sorriso sujo para mim e desapareceu; nunca mais a vi.

No dia seguinte, o noticiário das Pessoas de Bem anunciou que a Pessoa Suja que eu encontrara na rua havia sido presa. Seu plano cruel de sujar o mundo das Pessoas de Bem foi desvendado. As Pessoas de Bem voltaram ao comando da Organização de Limpeza, e esperava-se que finalmente a Sujeira acabasse. Mas os anos se passaram e o cheiro da Merda continuava a incomodar as minhas narinas. Um dia, à mesa para o almoço com toda a família, olhei minhas mãos e percebi que elas – e as de todos ao meu redor – estavam cobertas de Merda. Aos poucos comecei a perceber que meus pais não tiravam a Merda dos animais domésticos de casa. Eles não limpavam seus carros e nem as suas ruas. Quando sugeri que as Pessoas de Bem estavam sujas, eles fizeram que sim com a cabeça, e disseram que era culpa das Pessoas Sujas.

Pois as Pessoas Sujas vinham daquelas ruas inexplicavelmente sujas das quais meus pais me retiraram. Se a Merda não se limpava, era porque aqueles seres vindos das ruas representavam a Merda; e as Pessoas de Bem, a limpeza.

Não é que as Pessoas Sujas fossem limpas, é que nada realmente o era. Ao menos até aquele momento em que uma Pessoa Suja, na rua das Pessoas de Bem que também eram Sujas, pegou um pano e começou a limpar o chão. Mas ela não teve tempo de se limpar ou de limpar mais nada; a Merda das Pessoas de Bem logo apagou aqueles centímetros de limpeza que existiram por alguns momentos na minha rua.

Porque, me explicavam as Pessoas de Bem, as Pessoas de Bem não podem ser sujas. Pois as Pessoas Sujas vinham daquelas ruas inexplicavelmente sujas das quais meus pais me retiraram. Se a Merda não se limpava, era porque aqueles seres vindos das ruas representavam a Merda, e as Pessoas de Bem, a limpeza. Elas pedem todos os dias religiosamente pela limpeza vinda dos céus, e se a Merda não houver sido limpa no dia seguinte, culparão as Pessoas Sujas, como faziam seus pais, como fazem eles, e como farão seus filhos. Para sempre.

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