Faixa a faixa: Dellani Lima, TucA e o "Psiconauta"

por - 11:08

Tuca

 

Dellani Lima talvez seja uma das pessoas mais proativas do cenário independente artístico Belo Horizontino e mineiro. Tem diversos projetos musicais, com nuances e caminhos distintos, mas que parte do esquema faça você mesmo. Além disso, é cineasta, poeta e interage com alguns dos nomes mais interessantes de Minas Gerais. Em seu último trabalho lançado “Psiconauta” do TucA, temos um pouco mais do universo imagético musical do Dellani, com participação do pessoal do Madame Rrose Sélavy, Porquinho da UDR, entre outros.


Resolvemos bater um papo com Dellani, entender um pouco mais o que ele quer dizer com tantos projeto e com o TucA em especial, como é a vida dele em Minas Gerais, quem são suas influências, entre outras coisas.




01. "Círculos no Escuro"

Eu queria entender o que vem primeiro no TucA, a letra ou a melodia?

Escrevo poesias há um tempo. Tenho rascunhos e coisas prontas. Penso num conceito, ou uma ideia geral do que eu quero falar, vejo nesse meu inventário poético o que já existe, daí reinvento tudo em outros versos, mais musicados.

 02. "O Muro"


Gostei bastante desta letra e do instrumental (principalmente o que parece ser um instrumento de sopro, que lembra até algumas bandas daqui). Eu acho que você já viu o filme Muro. Tem alguma relação? Explica a ideia.


Essa canção eu compus durante as manifestações de junho de 2013. Estava angustiado, o clima tenso no país, Belo Horizonte inflamava. Ao mesmo tempo eu vivia um momento de experiências ritualísticas com plantas enteógenas, especificamente ayahuasca e teonanácatl. Nesse momento tive insights sobre a falta de comunicação, de relações mais tolerantes e de vivências afetivas entre as pessoas, mesmo em um momento onde todos podem se conectar de forma mais acessível e independente das distâncias. Me fiz a pergunta: por que tantos muros, grades e barreiras entre as pessoas?


Não associei a letra ao filme, mas assisti o Muro de meu amigo Tião sim, por sinal um filme do caralho (conheça aqui), realmente de uma poética impressionante. A letra tem algumas imagens do filme, mas não diretamente, inconsciente talvez. Os metais tem muita influência da música pernambucana, mas trago também de algumas bandas que experimentaram o uso do sopro no punk e no rock. Deixei por último as guitarras, porque queria muito que o Porquinho (UDR, Grupo Porco, Fadarobocoptubarão, Fodastic Brenfers) fizesse o resto da canção comigo, um grande parceiro, acho incríveis os projetos dele.



 03. "Jardim das Delícias"


Você usa tags como experimental, punk e pop. Eu queria saber onde você coloca o Tuca no contexto da música mineira e nacional. O que você pretendia com o projeto TucA?


Tenho uma forte influência no que eu chamo de escola brasileira do pop experimental, de artistas como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Mutantes, Karnak, Os Mulheres Negras, Black Future, Pato Fu, Akira S e As Garotas Que Erraram, Patife Band, Sexo Explicito, Divergência Socialista, O Último Número, entre outros. É claro que outras referências permeiam todo o projeto, principalmente o punk e a música eletrônica. Sou um artista híbrido por natureza, tanto nas áreas que atuo (cinema, música, artes visuais, teatro, literatura, ...), quanto nos gêneros e formatos. Gosto muito de experimentar as linguagens, suas interseções, estilos e possibilidades.



 04. "A Grande Onda"


Essa tem a base toda no eletrônico. Eu queria saber de onde veio a ideia de duas vozes pra várias músicas do projeto, porque que ficou bem legal com a voz feminina.


Tudo começou em 2008, quando Ana Mo participou de uma intervenção no Em Dias de Surto, grupo musical de improviso que tínhamos na década passada e que praticamente virou a Madame Rrose Sélavy em 2009, depois da participação dela. Existe uma tradição enorme na música desse jogo com os vocais masculino e feminino. Há tempos queríamos experimentar também, mas só não tínhamos encontrado a cantora. Depois disso, Ana fez os vocais em todos os outros projetos (Antitrusts, Felix Canidae, Escama de Peixe e TucA), que de certa forma mantiveram algumas experiências musicais similares.




05. "Eu Sempre Serei Aquele Cara"

Já que você falou de outros projetos. Queria saber se você se considera ocioso? E por que tanto projetos? No que esse se difere do Felix Canidae, por exemplo?


Queria eu ser ocioso (risos). Penso muito nisso, daí eu teria muito mais projetos. Mas na verdade não tenho vida social desde que inventei de aquietar minha inquietação. Não faço nada equilibrado hoje em dia. Vou aos extremos. Às vezes fico sem dormir, sem comer, sem viajar ou passear, entre outras mazelas. Mas no final me sinto realizado. Acaba que minha produção artística é minha diversão e trabalho também. Faço muito esforço pra tudo. Porque ainda tenho que pagar as contas no fim do mês. E não recebi nenhuma herança (quem dera fosse)... Mas é isso, muito suor e resistência. Sou operário da arte! Acho que o projeto TucA tem muito haver com o Felix Canidae, diferenças básicas nas composições, que ficaram mais complexas.


Tenho muitos projetos, porque às vezes as ideias que tenho não se encaixam nos projetos existentes, daí vou inventando outros. Isso em todas as minhas atuações. Mas estou mais velho, cansando aos poucos. Ficarei em breve com poucos projetos e experiências. Vou reduzir muito por exemplo a partir do ano que vem: 40 anos! (risos). Tenho que centrar mais nos principais projetos.


O Felix Canidae foi um projeto especial, experimentamos outras possibilidades de escrita e composição, diferentes da Madame Rrose Sélavy. Infelizmente não deu para manter o projeto, como outros também. Na verdade a mme. e o TucA serão projetos mais duradouros.


Eu nunca te disse antes, eu acho, mas o nome da banda tinha muita referência ao blogue "Hominis Canidae", mesmo que inconsciente na hora do insight. Porque é uma referência em nossas pesquisas do que está rolando de música no país. Sempre baixamos os discos que gostamos disponíveis no blog. Pensamos o nome do projeto em algo universal e etimológico como o latim, que no passado foi língua estudada em escolas. Daí a outra origem.



06. "Sonhos Lúcidos"


Já que você falou da carga de trabalho artística, elas se misturam? A musica influência a poesia ou o cinema/ audio-visual? E o contrário?


Hoje sobrevivo da arte como técnico de audiovisual: sou roteirista, montador, produtor, curador e desde 2008 sou ator em uma dezena de filmes, incluindo longas-metragens. Além de outras funções. Recentemente ganhei com amigos alguns editais, daí produzimos alguns filmes e discos com mais tranquilidade, com todos recebendo seus salários. Nada de ostentação (risos). Dá pra fazer vários projetos que a gente gosta e pagar as contas do mês. Atualmente você tem que fazer muitas funções para poder viver da arte. Foram anos de ralação e ainda os são, porque tudo ainda é feito na risca. Produzimos com pouco ou nada de recursos desde então. Mas é isso, gosto muito do que faço, eu amo, e não sei fazer outra coisa.


Na verdade tudo se origina de certa forma na poesia. Acho que transcrevo sempre minhas poesias, principalmente experimentais, tanto para a música como para o cinema. Tive bandas de garagem na adolescência, comecei cedo a tocar violão e depois guitarra. Mas comecei artisticamente e profissionalmente na dramaturgia. Escrevi peças para teatro e roteiros para televisão e publicidade, quando morei no Ceará. Em meados dos anos 90 surgiu o digital, tive pouco contato, mas já conhecia, eu trabalhava em uma produtora de vídeos, mas ainda só escrevia e dirigia programas televisivos e institucionais. Quando eu pude ter o contato com suas possibilidades, comecei a produzir vídeos autorais, a partir dos anos 2000, quando fui morar em Minas Gerais. Depois tive o contato com muitos softwares de áudio e iniciei as experiências musicais com meus amigos desde esse época, Alex Pix e o Lacerda Jr. Ambos, junto com Ana Mo, são meus parceiros em praticamente todos os projetos musicais que inventei ou faço parte. Tenho muita influência de todas as experiências artísticas que vivencio, todas elas se misturam. Como disse antes, a poesia é onde converge todo meu trabalho artístico.



07. "Começo da Primavera"


Essa música parece ser bem simples, bateria eletrônica, uma guitarrinha em loop e uma flauta em alguns momentos. Além do vocal duplo, queria saber como funciona o TucA ao vivo?


Tínhamos feito ensaios do álbum anterior com a banda Electrophone, estava bem legal, os músicos são amigos e tocam muito. Infelizmente demos um tempo devido aos projetos pessoais de todos. Hoje não parei para pensar no ao vivo de novo. Mas se pintar algum convite, acionaremos o Electrophone, ou mesmo a Madame Rrose Sélavy, que na formação atual executará o som de maneira belíssima. Penso ainda em aprofundar mais a ideia a partir do terceiro álbum. Porque daí a diante ficarei na fissura de tocar a mistura do repertório dos três discos. Será um belo e emocionante show.




08. "Navegador da Alma"


Você falou do processo de composição do TucA, eu queria saber como funciona a gravação do projeto.


Depois que tenho um inventário de versos, vislumbro o conceito do álbum. Daí penso o rumo que o instrumental traçará. Na sequência eu começo a montar bases instrumentais e ambientes, ainda sem guitarras, baixos, vocais e alguns teclados. No início das primeiras bandas não cuidávamos disso, na verdade de nada, o negócio era fazer e muito. Produções muitas vezes bem minimalistas pra desabafar a inquietação mesmo. Hoje pesquisamos muitos timbres, ainda mais com tantos softwares e simuladores de instrumentos. Com o tempo, aprendemos muitas coisas legais e formas de se fazer música de boa qualidade técnica a partir de poucos recursos, praticamente alguns instrumentos de corda, teclados, uma mesa de som simples de quatro canais e um gravador digital. Muita gente no mundo produz assim. Quando as bases e alguns arranjos estão prontos eu convido os amigos para gravarem o resto, no caso desse álbum, guitarras, baixos, teclados e vocais. A mixagem e a masterização a gente faz em softwares diversos. Tudo muito amador, mas tentando extrair o melhor do material.



 09. "Esboços de uma Vida"


Mantenha seu cuidado com a humanidade. Várias músicas suas falam sobre os problemas da raça humana, você não tem mais esperança?


Tenho esperança ainda, mas não me iludo. É como reviver suas dores, perdas, decisões, inseguranças, traumas e encará-los de frente. Ajuda a cicatrizar mais rápido tudo. Se permitir errar. Não adianta fugir, autossabotagem, devastação, isolamento. Piora ainda mais a situação. Recentemente muita coisa mudou em minha vida, estou limpo de um tanto de coisas há um bom tempo, tive experiências maravilhosas com plantas enteógenas, pude entender, conviver, lidar um pouco mais com o vazio, com a luta entre pulsação de vida e de morte. É preciso ter fé, está difícil para todos. Como diria Caetano, "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é..."



 10. "Atrás da Estação"


Tem uma música sobre a primavera, essa sobre estações. Você realmente acompanha isso? Você acha que as pessoas ainda prestam atenção nessas coisas hoje em dia?


Penso sobre as estações. A maioria das pessoas talvez não deem atenção. Mas algumas pessoas sim. E existem outras estações, como as da vida: infância, juventude, velhice e morte. Mas no caso dessa canção, eu me refiro a uma estação de ônibus, metrô ou trem. Um lugar de deslocamentos, de partidas e voltas, de encontros e reencontros, de esperas e mudanças.


Principalmente o título, porque a canção fala de uma personagem que se rende ao sistema e perde o melhor de sua natureza humana: o amor. É uma provocação às pessoas que se renderam totalmente à lógica do capital e esqueceram o que realmente é importante na vida.



11. "Ruína das Ervas Daninhas"


Essa aí parece um recado para alguém danoso. Pode ser até um (ou vários políticos). Você enquanto multiartista se considera um ser politico? Porque quem consome pode ser influenciado, por exemplo.


Considero toda minha produção e meu processo de realizá-la um ato político. Não só pelas temáticas ou conceitos, mas também pelas formas de experimentar e viver a realização artística. Quando você assume seus atos e seus riscos, priorizando a ética, a estética e a afetividade, provocando o sistema capital, rejeitando valores individualistas e mesquinhos, acaba que você influencia muitos que ainda estavam em seus armários, oprimidos ou não. As pessoas não se sentem mais inseguras ou sozinhas, possibilitando a continuidade de suas lutas e resistências.



 12. "Comedor de Lótus"


No disco temos Jardins, Primavera, Estação, Erva Daninha e agora Lótus. A capa do disco traz uma espécie de planta também. Explica pra gente o conceito gráfico ou está fixação.


Na verdade todos os gráficos são de plantas enteógenas e de suas composições químicas. Recentemente tive contatos com estas em rituais xamânicos pelo Brasil. Tive experiências incríveis de autoconhecimento com estas plantas (ayahuasca, teonanácatl, jurema preta, wachuma, …). Por consequência as letras e o conceito do álbum foram influenciados pelo tema. Por mais que as letras não falem diretamente das plantas, a essência das experiências estão nelas.



13. "Tempestade de Inverno"


Acho teu vocal meio parecido com o do Arnaldo Antunes. O que você tem a dizer sobre isso?


Arnaldo Antunes é uma grande referência como artista para mim, quando o vi pela primeira vez, ainda no Titãs, foi no Cassino do Chacrinha nos anos 80, se não me engano dentro de uma grade e cantando Aa Uu. Fiquei doido, entrei no banheiro de casa, peguei o barbeador de meu pai e fiz meu primeiro moicano. Meu pai me fez usar boné até o cabelo crescer de novo, (risos). Mas há também cantores que influenciaram bastante meus vocais como Jim Morrison, Nelson Cavaquinho, Tom Waits, Cadão Volpato, Nick Cave, Waldick Soriano, Iggy Pop, Johnny Cash, entre outros que usaram timbres mais graves, até mesmo o próprio Raul Seixas, que gostava muito de gravar bem cedo, pela manhã, quando a voz fica bem mais grave.



14. "Dançarina"


E esse som meio funkeado? Foi feito pra dançar? Tu pensa na reação do público quando vai fazer a música?


Sim, tenho sempre em mente uma frase do Iggy Pop sobre sua música: um rock sujo e dançante. Além de influências que busco sempre na black music: soul, blues, disco, electro, funk, rap, reggae, entre outras referências.



15. "Sonâmbulos"


E esse reggae torto? Tu é muito multifacetado Dellani, tem que escolher pra onde quer ir. Ou não?


Pois é. Penso nisso também. Mas, na maiorias das vezes, as composições pedem um certo caminho, mesmo quando você queira outro. Daí não tem jeito, a letra pede a música, que invoca os timbres, que influenciam os vocais, que exigem uma determinada finalização na mixagem. Tenho muitas influências musicais também, que me acompanharam em muitos momentos da minha vida. Talvez eu tenha essa vontade grande de resgatar estes instantes através da produção musical. Cada canção te lembra uma fase.



16. "Redução de Danos - Ministério da Saúde"


Tu precisa de ajuda pra ser criativo? Usando o tema da música, alguma coisa para ajudar na criação ou você acha que isso é mito?


Existem certas barreiras que impedem as pessoas de se expressarem. Colocar a cara a tapa é muito difícil. Expressar-se é isso: empatias e desafios constantes de você com os outros e principalmente com você mesmo. É comum as pessoas procurarem chaves para suas questões, os segredos escondidos no inconsciente e também fugas de suas dores, dos vazios e dos entraves em substâncias alteradoras da consciência, acionados por determinados rituais ou mesmo por uso recreativo. Isso é milenar, da própria humanidade. Isso não é regra, claro. Muitas vezes não funcionam com certas pessoas. Conheço muitos que não produzem sob o uso absolutamente de nada. Eu mesmo tive insights, ideias de projetos, rascunhos de conceitos em muitas experiências, mas na hora de executar não uso nada. Acho que dispersa muito. Nessas horas o importante é encontrar alguns caminhos. Mas na hora de acontecer é melhor estar sóbrio para você não se perder. No meu caso é assim.



17. "Alegoria Do Triunfo de Vênus"


Pra fechar, em que lugar você espera chegar com a sua música? Quais os seus objetivos com seus projetos?


Faço arte em minha vida por inquietação. Não sei bem se tenho objetivos claros nos meus projetos. Experimento muito. Talvez viver todo o processo de criação seja um vício também. Se isso é bom ou ruim, não me interessa. Mas sei que me sinto vivo quando invento. Estou numa transição muito importante em minha vida e no álbum Psiconauta eu tentei externalizar tudo. Tirar os fantasmas da cabeça. Compus todas as canções sobre esse momento, exceto “Eu Sempre Serie Aquele Cara” do Jonnata Doll e “Redução de Danos – Ministério da Saúde” do Grilowsky e do Paulo do Amparo. Escolhi estas duas canções para regravar porque admiro por demais seus compositores e têm muito a ver com minha vida agora. Além de tudo, minha arte é minha resistência. Meu ato político e subversivo no mundo.


Capa_TucA - Psiconauta (2014)

Você também pode gostar

2 comentários

  1. Q música tri! Uma melodia pegajosa. Combina som e imagem na mesma amplitude e isso é algo raro de ver hoje em dia.
    Sem contar aquele "Batman dos pobres". Linda matéria. Parabéns!

    ResponderExcluir
  2. Q música tri! Uma melodia pegajosa. Combina som e imagem na mesma amplitude e isso é algo raro de ver hoje em dia.
    Sem contar aquele "Batman dos pobres". Linda matéria. Parabéns!

    ResponderExcluir