Faixa a faixa: Hierofante Púrpura - "A Sutil Arte de Esculhambar MúsicaAlheia"

por - 12:10

HierofantePurpura-foto-carol-ribeiro


No primeiro dia de 2014 a banda interiorana de psicodelia rural Hierofante Purpura lançou um disco que pode ter passado despercebido, mesmo com o belo título de A Sútil Arte de Esculhambar a Música Alheia (clara referência ao nome da compilação A Sútil Arte de Fazer Inimigos, do Againe). No registro, algumas músicas desconhecidas da banda, versões e homenagens que eles fizeram a bandas gringas com o Yo La Tengo e nacionais como o La Carne. Foi o primeiro disco que escutei com afinco durante um tempo neste ano (baixe ai).

A cada audição tive vontade de falar sobre as canções do disco com os parceiros da banda, então começamos um faixa a faixa que se estendeu até agora. Foi sem dúvida alguma o mais longo da história do Altnewspaper, mas não tínhamos a menor pressa. Por sinal, consideramos isso (a falta de pressa) uma característica da Hierofante, por isso vemos diversos loops de guitarras em suas longas canções, um groove bacana que se repete e te faz viajar por entre a melodia.

Este papo foi interessante para conhecer um pouco mais as influências do grupo, assim como para saber do modus operandi do processo de gravação e composição das canções, entre outras coisas. Resolvemos colocar as músicas originais junto com as versões da Hierofante pra você ver o que mudou.


01. "Vida e Morte de Ira Kaplan"

Este instrumental foi feito no estúdio, naquele esquema jam session ou vocês já foram para a gravação coma ideia definida? Qual a importância do Ira Kaplan pra vocês?

Essa música começa com um groove descompromissado de baixo ao final de mais um ensaio gravado em 4track ele inteiro com dois mics captando toda a essência-ambientacional das paredes tortas do nosso sótão. Aquele som dos acréscimos, sabe? Uma conversa aqui uma levada ali e eu já decidi dar o play rec de novo... e ela foi assim surgindo. Lembro-me de que logo no momento em que ouvi aquela Jam gravada a imagem do Ira Kaplan me veio à cabeça, imaginei com inocência se algumas músicas do Yo la Tengo pudessem também surgir daquela maneira, num descompromissado groove de final de ensaio e marquei com a caneta na K7 "instrumental Yola" só pra me lembrar do tema que me remeteu muito aos mantras-noisera daquele power-trio de Hoboken, enfim, maneira de até mesmo prestar homenagem a essa banda que tanto pautou e pauta até hoje a sonoridade do Hierofante.




02. "Tears Are in Your Eyes" (Yo la Tengo)

Como foi a escolha da música para entrar no disco? Por que escolher esta? A ideia era fazer um cover ou uma versão?

Na verdade escutar a carreira da banda é uma coisa meio que natural e faz parte do nosso dia, Yo La Tengo sem dúvida alguma foi o melhor show que vi na vida, isso foi em 2009 em Dublin, Irlanda, tive o privilégio de estar na cara da banda vendo Ira fritar a guitarra de uma maneira hipnotizante. Assistindo um vídeo deles tocando essa música em uma espécie de biblioteca ou algo do tipo, a banda desplugada. Aquilo foi o estopim pra que eu decidisse gravar uma versão sem muita frescura, violão desplugado e voz, simples assim.

Um disco indispensável pra gente é o I'm Not Afraid Of You And I Will Beat Your Ass (ouça)


03. "Transcedentalizei"

O Sergio Ugeda tá tocando craviola, é isso mesmo? Eu gosto desta melodia, a letra é massa também. Como funciona esses loops da letra e o instrumental na composição do Hierofante?

Pois é, Sergio Ugeda me recebeu certo dia numa fazenda em Itupeva com a premissa de (naquela época) construir um estúdio de gravação por lá. Um cenário deveras pitoresco, inspirador eu diria. Um casarão daqueles coloniais dos tempos das ricas plantações de café, cheio de grandes e velhos cômodos, com pé direito enorme, sabe? Cheguei por lá humildemente com meu kurzweil debaixo do braço, um arranjo de umas quatro notas e uma letra esboçada sobre o tal do "resetar as idéias". De resto foi tudo mesmo uma jogada em parceria de produção com o Ugeda, que contribuiu efetivamente para a criação e desenvolvimento de todas aquelas camadas sonoras, um dos principais deles, o dedilhado na Craviola.




04. "I Don't Know Why" (Mr. Airplane Man)

Eu não conhecia esta banda, mas gostei desta música. É uma boa maneira de conhecer a banda? Qual o melhor disco deles? Qual a importância da Mr. Airplane Man para o Hierofante?

Pois é, Mr. Airplane Man é um duo de garotas do blues selvagem e obscuro diretamente de Boston. A dupla já encerrou as atividades, mas sempre se manteve em audição constante entre nós, principalmente "I don't know why" com sua estrutura simples e repetitiva, um verdadeiro mantrinha-quase-bobo, engajado e gostoso de se ouvir. Tanto que desenvolvemos uma versão estendida pra ela, é um riff que não dá vontade de parar nunca de tocar, quase hipnótico (ou totalmente). Escolhemos ela pra ser nosso anti-single, só pra não perder a mão da esculhambação geral que foi esse disco, até clipe inspirado no primeiro filme do brujo Jodorowsky (Fando y Lis) a gente produziu, é nossa obra máxima até então. Se for pra citar um disco, dos poucos que elas lançaram, eu fico com o Moanin' (uma cacetada cremosa no ouvido).


05. "Natureza Cruzada"

Piano bacana, como está sendo tocar esse disco ao vivo? Essa música triste está sendo tocada ao vivo? E tá saindo uma esculhambação bonita né?

A gente entrou naquela onda de gravar um disco com músicas que não são tocadas ao vivo, e "Natureza Curada" é mais uma que ainda não tivemos o prazer de apresentar para o público no show do HP. Queremos muito! O título é baseado num anagrama para um lindo nome que se transformou em "Healed Nature", homenagem minha a uma pessoa amada. Carrega esse clima triste pois foi escrita numa madrugada solitária em SP, passávamos eu e Helena por um momento de transição deveras complicado, até mesmo dolorido, daí tal harmonia, tal melancolia. Às vezes eu puxo a música entre um som e outro enquanto o Gabriel está afinando a telecaster dele, me realizo muito, ela carrega uma profundidade única, sinto que posso interpreta-la como num dramático ato de teatro.



06. "Granada" (La Carne)

Para mim, uma das músicas mais legais da banda La Carne, e a versão ficou boa também. Mas por que homenagear o La Carne? Algum lance especial?

Eu penso que o La Carne sintetizou em uma frase, o sentimento que pautou (e pauta) todo um cenário de rock alternativo/autoral que eu já vivi e ainda irei viver, que é a seguinte: "Desconhece o rumo, mas se vai..." algo assim totalmente libertário, anarquia pura mesmo, mas no melhor e mais desenvolvido significado da palavra. Aquela desordem, aquela confusão, uma tal falta de direção (quase magnética) mas que é exatamente o que nos move. Por isso eles já mereciam toda e qualquer homenagem. Costumo chamá-los carinhosamente de mestres. Já escuto a banda há um bom tempo, estivemos por diversas vezes com eles pelas estradas do Brasil e os shows que presenciei sempre foram surpreendentes, daqueles que não param de reverberar na sua mente durantes dias e dias, só quem já viu sabe e é capaz de compreender o que estou dizendo. Não tenho motivo pra puxa-saquismo barato. La Carne é coisa séria, real, as letras do Linari podem mudar a vida de uma pessoa, pro bem ou para o mal... e isso é mágico. Criar uma versão pra "Granada" foi um desafio e tanto, pois não queríamos apenas reproduzir a canção original, ai pegamos pesado no "fator esculhambação" e criamos aquilo. Os caras aprovaram e isso é o que importa.


07. "Jazigo Meu ou Venha Ver o Sol Derreter"

Eu queria saber se essas músicas são novas? Foram feitas para este disco? Por que vocês falaram em gravar músicas que não são tocadas ao vivo. Por que está ai funciona bem na vibe do Hierofante show.

No caso eu diria que, por enquanto, elas ainda não estão sendo executadas ao vivo. A música em si ("Jazigo Meu") é uma dessas que a gente tem uma vontade imensa de tocar, inclusive já faz parte de um setlist imaginário que criamos, para um show que ainda não tem data para acontecer. A gente inverte os instrumentos nela, a Helena vai pra guitarra/escaleta e o Gabriel vai pro baixo e realmente funciona muito bem na gig, pois foi gravado ao vivo no nosso estúdio. Esse disco é mais sobre uma compilação de composições obscuras do Hierofante. Elas não foram feitas com a intenção e planejamento para um disco e mesmo assim resolvemos batiza-lo como tal, um devaneio torto a la Beatles fase 1967 em diante. A gente está numa piração de ficar só gravando, confesso que a estrada está gritando na nossa orelha já e em breve sai um novo disco cheio baseado no atual repertório que a banda vem apresentado nos últimos shows.



08. "O Cio da Terra" (Pena Branca e Xavantinho)

Esta passa o lado cancioneiro interiorano da Hierofante? Eu queria saber porquê escolher Pena Branca e Xavantinho entre tantos outros nomes da música canção do interior paulistano.

Escuto muitos amigos dizendo que a educação musical deles começou dentro de casa, com os pais lhes aplicando na infância discos dos Stones, Beatles, Floyd, Sabbath e afins... na vitrola de casa o que rolava era mesmo um sertanejo, no máximo uma bolacha da jovem guarda ou Rauzito. Ouvir hoje em dia Pena Branca e Xavantinho sempre me mareja os olhos, eu chego a chorar mesmo, tamanha beleza dos arranjos e composições, fora que me sinto instantaneamente conectado ao meu pai, ele que já cumpriu sua missão aqui na Terra e agora descansa em paz. É a segunda versão deles que o Hierofante realiza (a primeira foi Cuitelinho) e mais uma vez carrega tons de homenagem, pois meu pai nunca me apoiou muito quando o assunto era tocar numa banda de rock, não compreendia, não aceitava. Foi um cara criado no campo (daquele tipo durão) daí a maneira que consegui (ainda em vida) que ele ouvisse o que eu tocava, e sim, ele adorou.


09. "A Camisa Vermelha Sou Eu"

Nessa música vocês usam o violão caipira, instrumento que não é característico do Hierofante. Isso entra naquele lance de experimentar em músicas que não serão tocadas ao vivo?

Primeiramente a gente não é PT nem porcaria de partido algum (risos), a história da camisa vermelha voltar nessa letra foi uma ideia do Gabriel recordar "Não Conte a Ninguém ou Mato Você" "mas cadê aquele cara de camisa vermelha, eu vi eu senti sua presença"...mais ou menos isso, só mais uma brincadeira da banda como brincamos com letras do Arnaldo Baptista "eu sou velho mas gosto de viajar por ai" enfim, essa é uma característica que faz parte do nosso modo de compor.

Essa participação na viola caipira do grande musico Victor Santos do Trio José, banda de São José dos Campos que brilhantemente resgata pérolas da música caipira e também produz belas músicas foi bem por acaso. No dia da gravação ele estava conosco e pedimos pra ele improvisar sem qualquer roteiro ou direção, e deu no que deu, adoramos o resultado e ficou totalmente original. A gente ainda não tocou ela ao vivo mas pretendemos sim realizar alguma coisa nesse sentido. Sobre a viola caipira, ela é até certo ponto uma característica nossa, o Danilo costuma compor com ela, saímos na coletânea Brasileiros em 2013 com uma versão de "Cuitelinho" do Pena Branca e Xavantinho, no próprio A Sutil Arte a gente fez outra versão do Pena Branca da música "O Cio da Terra" e a viola caipira traduz essa nossa relação com esse instrumento maravilhoso e que faz parte das nossas raízes do interior, com muito orgulho ela não poderia ficar de fora da tal psicodelia rural.



10. "Castigando" (Againe)

O passado condena os integrantes da Hierofante ao hardcore, é isso? Caiam na roda e tudo? Por que Againe?

É aquela brisa do Mogwai, né... o Hardcore nunca vai morrer, mas você vai! Na real eu não escuto mais esse gênero. Parei de ouvir em 2003 porque estava me influenciando negativamente. É um ritmo muito empolgante e a gente se apega a todo aquele tupatupatupatupatupa, mas enquanto não o renegasse de vez eu não conseguiria fazer outro tipo de música, ai eu me libertei. Outros (hoje distantes) amigos nunca pararam de tocar o HC, e eu acho isso um saco, é uma "filosofia de vida" e um estilo que não se renova, um tanto positivista. O Againe começa a chamar minha atenção quando eu adquiro o disco Sem Açúcar, baita bolachinha 7 polegadas bacana, arranjos e composições incríveis, um outro momento da banda, o último momento. O nome que batizamos o álbum do HP é totalmente inspirado naquela antologia deles A Sútil Arte de Fazer Inimigos, inclusive "Castigando" está lá, e convenhamos que é um som desgraçado de bom, bate pesado aquela melodia, aquela métrica. Achamos necessário prestar essa homenagem a eles, o Carlos Dias curtiu que a gente já começou pela parte final da música, falou que aquilo era realmente "muito Againe". Tá feito.


11. "Mato Preto e Viva Mujica"

Particularmente uma das minhas prediletas do disco, adoro o baixo. A música é longa e passa sem percebermos isso. Segue um comentário que li no Gambiarra e eu queria saber a opinião de vocês: "Mato Preto e Viva Mujica, um groove em loop, carrega no peso e seus vocais parecem sampleados de uma gravação caseira de um Wilson Simonal alcoolizado nos idos de ’73, gritando sobre os prazeres de fumar o “mato preto” num stoner rock de primeira."

Essa música a gente fez questão de colocar no disco porque realmente o groove ficou pesado, com o Mark Paschoal (ex-batera do Jair Naves) e eu sempre pirei numa métrica de guitarras do Creedence Clearwater, mas esse comentário do Cainã Vidor me chapou a cabeça e assim comecei a repensar no alcance bastante diverso que tem essa chapada cantiga. Procuro pensar em compositores como Ventania e Rauzito quando a tocamos, tem um quê de poesia concreta na letra e até uma homenagem ao (pasmem) Armandinho, não preciso nem dizer o porquê, né..."fuma, fuma, fuma.. folha de bananeira..." e também a "Blunt of Judah" da Nação Zumbi. A composição surgiu da maneira mais descompromissada possível, dois amigos (doidos) num apê na Maria Antônia em sampa (aquele mesmo do nosso vídeo pornô), um violão e a necessidade latente de sentir o tempo passar, de matar o tédio (plim) surgiu "Mato Preto". Ela se sustenta em 12 minutos porque foi o tempo que durou um lado inteiro da k7 (em rotação máxima) tanto que o final é bem no corte seco mesmo, quase-abrupto, jam pura entre eu (Danilo) a Helena e o Mark, sem ensaio, só no olhar e na levada mesmo. Só trocaria o "stoner" pelo "stoned" (risos).


12. "Éter no Amigo"

Essa música pra mim é uma bela síntese do Hierofante (falo em melodia). Queria entender de qual lugar vem esta letra e porquê da escolha desta canção pra fechar este disco.

Interessante que te soa como a síntese, até porque a melodia nasceu na mente do Wallace Costa e ele apareceu aqui em casa dizendo que tinha um arranjo que era muito a nossa cara. Obviamente que na hora ja armei o gravador, porém, antes decidimos engolir um drops psicodélico. O meu infortúnio foi que engoli um drops maior do que meu corpo poderia aguentar naquela tarde de nuvens pesadas. O Wallace até pintou um quadro em minha homenagem inspirado naquele fatídico dia, batizado de "Acid Express", foi algo assim instantâneo e avassalador e tudo foi se desenrolando sem o menor controle dos presentes.

Me recordo que ao término do primeiro play-rec aquele mantrinha-melódico ficou rodando na minha cabeça ao infinito, ouvi umas três vezes na sequência e embarquei numa viagem errada tremenda, tive que me trancar no quarto. A melancolia contida naquele instante me pôs em estado de introspecção profunda, o Gabriel e o Wallace continuaram no sótão gravando e num desengonçado ato comecei a escrever algumas visões: "...uma presença no meio da canela variando, alternando, abrindo e então fechando em círculos e espirais explodindo em fontes coloridas roxo verde e azul fluxos constantes. Vejo sons controlo seu pitch, cada percepção acústica uma percepção ótica, um corpo desprovido de sensações táteis, tudo em contínuo movimento animado, cada partícula da fumaça branca do vapor tudo gira os objetos mais familiares assumem formas grotescas, ameaçadoras e imagens caleidoscópicas fantásticas surgem em mim..." nesse quase-surto, peguei um caderno de composições escritas pelo Diogo (nosso ex-baterista) e abri na sorte em qualquer página, mas geralmente num estado alterado desse, sorte nem sempre é um termo apropriado, o universo costuma confluir mesmo. Aquela poesia saltou (literalmente) aos meus olhos e eu subi de gatinhas (era o único jeito que eu conseguia me movimentar) ao patamar de cima, cantarolando: "meu eterno amigo, nas horas vagas é comprimido..." e aquilo me soou muito como uma música de despedida, de ninar, de um dolorido abandono, por isso fecha o disco.

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