Faixa a faixa: Negative Mantras e seu EP de estréia

por - 14:09

Negative Mantras por Renan Alcantara
Quando duas pessoas se unem e conseguem soar com uma banda completa, tentando minimizar suas ações e sonoras temáticas, temos aplaudir. Mesmo sendo apenas uma dupla, o Negative Mantras, criado por Julito (The Vain/Sin Ayuda) e Taian (Cabana Café) merece toda a atenção, principalmente depois de colocarem nas ruas um EP homônimo, lançado em 2014.

Com cinco músicas interessantes, que permeiam o experimentalismo do Dub, com presença de sintetizadores e demais instrumentos orgânicos e que desenvolve em suas letras e títulos o “discordialismo”, o EP chamou a minha atenção e resolvi fazer um faixa a faixa com os dois membros do Negative Mantras.


 01. "Pineal"

"Pineal, empresta o nome da pequena glândula localizada no cérebro, também conhecida como o terceiro olho, ou chacra coronário de acordo com os hindus, que a consideram um centro energético importante do corpo." Vocês explicam as camadas, citando o hindu. Queria entender no que esse lado espiritual influência na música?

Nossa ideia com o Negative Mantras é criar um clima que induza os ouvintes a uma viagem para o centro da mente (Pineal), partindo do minimalismo dos beats com repetições como em um mantra, além disso o EP foi baseado nos textos sagrados do Principia Discórdia onde a Pineal é tido como o lugar onde repousa a nossa alma.


02. "Maça Dourada"

O Princípio Discórdia também explica a sonoridade diferente deste projeto para os outros projetos de vocês? 

"é preciso ter caos em si mesmo para dar a luz a uma estrela dançante”. A gente buscou na Principia Discórdia o conceito que a criação é um processo caótico em sua essência e que as coisas podem ter significados diversos conforme a maneira como você veja ou ouça, no nosso caso. Então ela reflete na sonoridade difusa, na busca de elementos sonoros sem limites pré estabelecidos. Do tipo enquanto não existe, então tudo é possível.

O Principia Discórdia está mais relacionado com as letras, vídeos, arte do ep e o lance de repetição e viagem astral. A sonoridade que nós chegamos vem de referências como Clutchy Hopkins, Augustus Pablo, De Facto e bandas do Krautrock que eram especialistas em repetição como o Can e o NEU!,ou seja, referências que não se encaixavam no Sin Ayuda e no The Vain que eram bandas de rock e que não experimentavam tanto, no Negative Mantras a ideia é deixar a música livre, então podemos abusar de camadas, texturas, vocalizações e acrescentar instrumentos como cavaquinho e escaleta sem nos preocuparmos.

Naturalmente, por estar ultimamente imerso nesse universo, isso acaba refletindo nos projetos paralelos.Para o Cabana Café eu diria que não conscientemente, por ser um outro formato de projeto,mas para projetos como o Yobaba Chapan e alguns outros(se formando), sim, levo referencias dos opostos,caos, misturando com a idéia de "musica X ruído", desconstruir, descontextualizar um áudio, um sampler, um timbre, um instrumento, uma senóide. No Negative Mantras temos uma liberdade bem massa de explorar esses e outros universos.


 03. "Gayo Seco"

Essa parece ser a música mais orgânica da parada, eu queria saber com o Negative Mantras funciona ao vivo? Já que o EP tem muito efeito, provavelmente mão do Matschulat.

Sim, Gayo Seco é a música mais orgânica do EP, é uma das primeira composições do Negative Mantras quando ainda estávamos tomando forma. Resolvemos inseri-la no disco justamente pra mostrar de onde surgiram as ideias e mostrar o lance dos opostos nas composições das músicas.

Ao vivo nós nos revezamos entre cavaco, escaleta, sintetizadores e vozes. Já os beats e baixos (no EP os baixos são orgânicos) são programados dentro do Ableton Live, e com controladores montamos a performance ao vivo. Alem disso temos um mixer onde controlamos todos os instrumentos e inserts de efeitos, com isso, temos a mixagem em nossas mãos durante o show.

Os efeitos e pilotagens foram feitas por nós na produção e gravação do EP e na mixagem que ficou por conta do Taian no estúdio Mono Mono em São Paulo, com Kaosspad, máquinas de efeito, tape delay e o que mais surgisse no dia.

O Matschulat masterizou o disco em Berlin e fez um ótimo trabalho dando a famosa "cola" e peso no EP.


04. "Éris"

A deusa da discórdia da mitologia grega, o nome do duo "Mantras Negativos", vem do princípio também, né? Eu queria entender a disparidade do conceito para a sonoridade (o dub vai na onda positive vibrations).

Vem do Principia sim, a palavra "mantra" é por natureza algo positivo, assim como a sonoridade do Dub e acrescentamos o Negative pra criar essa ilusão binária. Partindo do Discordianismo pra mostrar que os opostos não existem, beleza X destruição, nascimento X morte, flores X feras não são opostos, são na verdade manifestações diferentes da mesma realidade. Nós que supomos essa negação sem dissolver o conceito do ser e do objeto, nós que temos a mania de rotular, dar nomes e números pra tudo sem perceber. O Negative quer ser livre e nunca opor uma face a outra.


05. "Claridão"

A música que fecha o primeiro EP do projeto já tem até um video. Eu queria saber como vocês estão trabalhando essas plataformas musicais? O EP saiu fisicamente? A ideia é ter video para todas as faixas (já que tem pra duas)? E quais os próximos passos da banda?

Fizemos o lançamento virtual e disponibilizamos pra download via SoundCloud e também em plataformas como Rdio, Spotify, Bandcamp. Ele saíra fisicamente em K7 que serão vendidas nos nossos shows ou entrando em contato com o selo Bigorna Discos e em breve será lançado por um netlabel japonês chamado Bump Foot.

Também relançaremos o EP todo remixado por músicos e produtores como o Indemia (SP), Kurc (SP), Yobaba Chapan (SP), Matschulat (Berlin) e o Brenno Balbino (Sky Between Leaves - Londres).

Quanto aos vídeos a ideia é ter um pra cada música sim, o terceiro já está em produção e pretendemos lançar ainda em outubro.

Os shows começam na segunda metade de outubro e estamos na pegada de tocar o máximo possível pra divulgar o EP e continuar trabalhando no nosso laboratório musical.

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1 comentários

  1. Eu fico emocionado por como uma banda pode abordar tantos conceitos que me completam de forma tão bem trabalhada. O Discordianismo foi um marco para mim justamente por conseguir apreender o absurdo total e o particular. Ótimo som!

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