As duas faces de Noema

por - 15:09

Noema Noema

2faces

Independente

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Um fato. Alguns álbuns carregam certezas tão fortes que somadas a arte de criar com o coração, se tornam obras-primas. Estas certezas são diversas, seja ela a tristeza cinza encontrada no disco No Devolución da banda americana Thursday,a delicadeza sem palavras em Roro da japonesa Boat, ou até mesmo a crueza em Strap it On do rock alternativo simples, mas cheio de ódio do Helmet. Estes são só alguns exemplos para nos dar um norte de onde devemos chegar para falarmos do último EP da banda 2faces.

Convicção. Essa é a palavra que acompanha toda a obra Noema. É pesado e convicto, é triste e convicto, é bonito e convicto, é complexo e convicto, é simples e convicto. É uma certeza do caminho que trilham que dá até arrepios! Confiam uns nos outros de olhos vendados, pois estão ligados além, no espectro do som para ser mais preciso. Algo que só o tempo pode trazer para criar esta destruição sonora, que vale a pena ser ouvida do começo ao fim, como uma história, ou melhor, como um bom romance escrito sem apegos a obviedade.

Cheio de texturas, principalmente no baixo e nos teclados; somados ao delay e peso preciso de apenas um guitarrista (que e vale mais do que três indivíduos); a qualidade de todas as peças da bateria, em especial a caixa, que apresenta um som cheio, mas totalmente orgânico, em que há espaço para todos se expressarem, fazendo com que a música respire de maneira impar, são pontos mais do que favoráveis do EP.

Noema começa com a épica "Eternalism". É um abrir dos olhos, que deixa a luz entrar, devagar, pequena, mas que cresce até estourar em pleno branco. A escuridão é tomada por peso e beleza, por graves do baixo, enquanto a guitarra te leva pra fora de órbita. O mais interessante nesta faixa, é que a emoção não seria completa, e só é completa na verdade, por causa da bateria, simples em algumas partes, mas cheia de emoções em sua composição, como num filme todo gravado na "Hora Mágica", terminando com um crescendo de tirar o fôlego, que te leva para fora deste planeta e te deixa sem gravidade, boiando no espaço, até seu lindo final.

"Hero With a Thousand Faces" é um retrato de como o peso pode ser trabalhado em riffs em um post-rock, e não só ambiências. Os graves, os tempos da bateria, a guitarra com seu timbre e delays/feedbacks, levam o espectador até um momento triste, que não demora a cair em mais uma sessão de peso, só que agora com uma melodia simples e inexplicavelmente perfeita que se dilacera junto ao baixo até terminar... e que me lembra, citando mais ou vez o Boat ou agora o Natsumen, as criações do AxSxE.

"Dream Walker", por Deus! As frequências do baixo no início são quase táteis! É uma música mais lenta, como se o tempo nos sonhos corresse mais devagar do que na vida real, como se fosse possível dizer em qual oceano negro podemos mergulhar e sair ileso do outro lado da vida.

O poder da dissonância em "Just Kick me and Say: I Believe" que já vem seguida de uma levada mais rápida/torta na bateria com riffs médios e dinâmicos te surpreende na sequência com mais uma passagem limpa, cheia de delays. A palhetada cheia de ecos, que se transforma em uma paisagem sonora, te prova que três pessoas em uma banda, podem destruir um individuo de dentro pra fora em comoções concisas.

"Paleocontact" traz sentimentos logo de cara nos sintetizadores, não há pra onde fugir, a não ser aceitar a maré espacial que a música te leva. Trazendo assim a prova de que somos pequenos, apenas pontos minúsculos no meio da imensidão deste universo banhado de estrelas e planetas. A gravidade da vida te esmaga perto do seu final, te trazendo de volta a atmosfera e deixando você no chão, somente escutando aquilo que lhe foi deixado, um ruído que representa a morte, até o último suspiro.

Escute esse disco com o coração, deixe esta arte ser o ar que entra em seus pulmões, ao menos uma vez em sua vida, e garanto que não irá se arrepender, respirará uma nova vida, com começo, meio e fim.

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