Faixa a faixa: Thiago Pethit - "Rock'N'Roll Sugar Darling"

por - 12:10

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Thiago Pethit é uma figura estranha na música brasileira. Não consigo dizer que é da nova MPB, por mais que transite bem nesse mundão pop com tags, mas sem amarras. Recentemente o cantor lançou seu terceiro disco, Rock'N'Roll Sugar Darling, que segundo ele, não chega a ser um álbum temático, mas passeia por nuances do rock mais clássico, dos anos setenta. O registro tem produção de Adriano Cintra e Kassin, figuras bastante conhecidas da música brasileira.

Após ouvir Rock'N'Roll Sugar Darling e ler o release recheado de referências distintas e consideradas até diferentes do universo musical apresentado pelo Thiago em seus dois primeiros discos, resolvi bater um papo com o camarada sobre as faixas do trabalho, o meio em que ele se encontra na música brasileira, essas mudanças de direções, entre outras coisas mais.


01. "Intro"

Esta introdução traz Joe Dallesandro chamando você para o rock, eu queria saber se você é fã do Joe, se ele te influência artisticamente. Também queria que você falasse da escolha dele e desse contato (chegou a conhece-lo) para participar abrindo o disco.

Joe e toda a cena de artistas da Factory (o atelier de criação do Andy Warhol) e sua cena protopunk em NY foram inspirações do meu disco anterior Estrela Decadente, em que eu começava a flertar com o rock. E acho que ele é a grande metáfora sobre o que aconteceu artisticamente comigo: há dois anos, ele e o rock eram uma inspiração. Passados esses dois anos, ele está no disco e o disco se chama Rock’n’Roll Sugar Darling. Embora ele fosse um modelo, ator e muso, e não um músico, ele esteve presente em grande parte dos acontecimentos do rock: é personagem da letra de "Walk On The Wild Side" do Lou, estampa a capa de Sticky Fingers dos Stones e do primeiro álbum dos Smiths... Eu literalmente me apropriei dessa linguagem e do ícone que é o Joe. Ele representa pra mim tudo aquilo que eu acredito no discurso do rock: transgressão e libido.
Nos conhecemos virtualmente com o lançamento do videoclipe de "MOON" que também é inspirado por um filme do Warhol estrelado por ele, chamado Flesh de 1968. Temos um amigo em comum que apresentou o vídeo para ele e por isso começamos a nos falar diariamente. Em julho deste ano, nos encontramos diversas vezes em Los Angeles, cidade que está morando agora com a esposa. Gravamos, fizemos fotos, passamos várias tardes conversando e vendo fotos que ele fez com o Avedon.


02. "Rock'N'Roll Sugar Darling"

Música que dá nome ao disco, nós podemos dizer que trata-se de um álbum temático? Eu queria saber da importância do Adriano Cintra e do Kassin nessa pegada mais suja do tal do Rock'N'Roll. O conceito foi anterior as escolhas para produção ou posterior?

Temático, não sei. Acho que eu não diria que é temático. Eu não estou falando apenas sobre uma coisa ao longo do disco todo. São diversos assuntos, embora todos passem por essa vertente estética do rock clássico.

O conceito do disco já estava claro pra mim quando eu procurei pelos produtores. Eu queria justamente o que eu considero melhor da expertise de cada um: o imaginário estético mais retrô do Kassin e a onda pop, eletrônica e a veia roqueira do Adriano. Enquanto o Kassin estava ali para lapidar a parte bela e limpa do disco, mais poética, o Adriano completava com a sujeira. Queria um disco que pudesse soar contemporâneo. Que o retrô fosse um elemento e não um foco para o disco.

Thiago, o disco chegou aqui em casa com um release que eu achei meio assustador por conta do número de referências citadas com cada uma das músicas e ao mesmo tempo eu senti falta de referências que parecem ser claras a sonoridade do trabalho. As citações referenciais do release foram suas? Se sim, explica um pouco dos nomes citados, alguns mais populares e outros menos.

Sim, a maior parte das referências foram minhas. Agora fiquei curioso para saber quais são as que você imaginou pois eu odeio explicitar textualmente o que sinto que construí nas músicas, me parece um jeito de despi-las sem nenhum pudor mas também sem nenhuma sedução. É muito mais sedutor desvendar as referências que você teve ao escutá-lo. Mas já sendo explicito quanto as referências citadas, dá pra dizer por exemplo que Nancy Sinatra está no disco em "Quero Ser Seu Cão" – toda a letra foi pensada como resposta literal para "These Boots Are Made For Walking" em que ela fala um pouco do poder feminino, ou quase feminista de uma relação e eu respondo de forma direta: se essas botas vão andar por cima de mim, eu posso ser seu cão. Bo Diddley também é a referência estética para essa mesma música: os tambores e as guitarras e a melodia das estrofes. Todas as músicas construídas em cima do gênero criado pelo Bo levam a mesma melodia nas estrofes e mudam no refrão, a minha é o mais literal possível com isso. Screaming Jay, é inspiração para Voodoo – ele foi um dos maiores expoentes desse tipo de rock clássico nos anos 60, o Voodoo Rock e não só a temática da música, mas os gritos e guitarras, remetem a versão original dele de "I Put A Spell On You". Elvis é inspiração para grande parte do disco: Story In Blue, Honey Bi, e a ideia de brincar com o rock de forma ingenuamente sexual em muitos momentos. Já o Doors, foram surrupiados pelo órgão farfisa em “1992”, além da batida e da guitarra que sola livre pela música. E embora o nome, a letra e um dos acordes da música, tenham sido inspirados pelo Nirvana, ela é muito mais sessentista do que noventista. Mas pra mim, são imaginários que se casam, e se casam com 2014.


03. "Romeo"

O disco é dançante e bem mais cheio musicalmente que os seus anteriores, porém está música vai mais na linha antiga. Vi que é uma parceria com Helio Flanders (Vanguart), queria saber se você se coloca em alguma cena ou quem você acha que parece mais com você na música brasileira. Por exemplo, se você fosse fazer uma tour pelo Brasil com alguma outra banda ou artista, quem seria?

Cada vez menos tenho uma afinidade tão clara com alguma cena ou com algum outro artista. Existem aqueles que de certa forma me inspiram ou que tem trabalhos que se relacionam com o meu, de alguém jeito menos obvio. Diria que o Helio, a Cida Moreira, o próprio Adriano Cintra e a Mallu, talvez sejam os músicos com quem eu me imagino tocando atualmente. Mas não creio que isso configure uma cena. São artistas diferentes demais entre si e até mesmo gerações diferentes.

A verdade é que eu me sinto cada vez mais um estranho no ninho. E acho que a semelhança entre eu e estes que citei, é que talvez eles também se sintam um pouquinho que seja assim. Mas pode ser só eu que os enxergue desse jeito numa tentativa de me aproximar.


04. "Quero Ser Seu Cão"

Pronto, você falou em Nancy Sinatra e ela está clara ai, os Stooges também. Eu queria saber se você conhece Hedwig and the Angry Inch, filme do John Cameron Mitchell. Não sei porque seu disco me lembra a trilha sonora do filme, inclusive (não com tema), mas como que contando uma história.

Cara, infelizmente eu não conheço. Quer dizer, sei do filme, sei um pouquinho da história e dos personagens, mas infelizmente eu não vi o filme. Pelo que imagino, acho que deve haver alguma semelhança mesmo. E você não foi o primeiro a me dizer isso. Esse filme e Party Monster foram citados por amigos que escutaram o disco também. Infelizmente não vi os dois.


05. "Save The Last Dance"

Olhando os créditos das canções, vejo a presença do Adriano e do Kassin na gravação de instrumentos em quase todas elas. Eu queria saber se eles também irão tocar com você ao vivo (ou isso seria um show especial), quem é a banda e como funcionam as canções e instrumentos ao vivo?

Não. Seria luxo demais tê-los me acompanhando na tour, "but I can´t afford it" (mas eu não posso pagar isto), risos.

Tenho minha banda de apoio, todos participaram do disco e eles vem me acompanhando desde Estrela Decadente: a Camila Lordy no piano, Anderson Ambrifi no baixo e Leonardo Rosa na batera. O Pedro Penna, guitarrista, toca comigo desde antes do Berlim, Texas até. Mas tenho planos de fazer algum show com o Adriano ainda. Quem sabe em breve, no lançamento.


06. "De Trago em Trago"

A música ou vinheta é bem clara, então eu queria falar da vinheta. Isso era uma coisa tão usada nos anos noventa por aqui e no começo desse século, mas agora parece estar um pouco esquecido. Pra você, pra que serve esses sons mais curtos entre as faixas? Por que, por mais musicado que seja, passa bem rapidamente.

Eu gosto da ideia de vinheta. Gosto porque embora seja rápida e não configure uma canção, as vinhetas são uma espécie de cereja no bolo. Neste caso específico," De Trago Em Trago" surge como referência para "De Cigarro Em Cigarro", um samba-fossa-canção cantado por Nora Ney nos anos 50 e que surgia me servia de abertura para os shows da turnê do Estrela Decadente. Em apenas 1 minuto de música é possível adicionar fossa e um sessentismo meio James Bond ao disco. Ela não era necessária para o disco, mas sem isso, sinto que o quadro ficaria incompleto.


07. "1992"

Pra mim é uma das, se não a melhor música do disco. Os outros vocais ajudam a fazer a música mais legal ainda. Eu queria que você falasse dessa mudança de postura do Berlin, Texas pra este trabalho. Usando um jargão, por que mexer em time que está(va) ganhando?

Certamente para continuar ganhando por um lado, o lado que sempre ganhou, e perdendo por outro, que sempre perdeu. Minha carreira é existente apenas por um sucesso público, mas não comercial ou de mercado.

Se analisarmos minha trajetória, o próprio Berlim, Texas não foi um disco exatamente de sucesso: ele foi bem recebido por boa parte da crítica, especialmente e mais ainda por boa parte do público. Mas ele também foi entendido em 2010 (o ano em que foi lançado) como um produto comercialmente inviável. Existiam pouquíssimos ‘cantores’ no mercado e um som assim tão pouco festivo, vazio e contemplativo era alvo de diversos motivos para não ser apoiado. Em torno de 1 ano depois do lançamento, era o tipo de som mais executado pelas novas bandas que entravam no mercado. De Jeneci a Banda Mais Bonita da Cidade, os sucessos de 2011 eram todos voltados para sons românticos, delicados e contemplativos. E especialmente cheios de vazio.

Enquanto isso, eu estava vivendo uma depressão pessoal que me afastou do final da turnê por 5 meses mas que me rendeu meu disco seguinte. Essa crise tinha absolutamente a ver com minha frustração com o ‘mercado’ da música. Entendi pela primeira vez, que trabalho dentro de um comércio muito restrito de certa forma, mas que é alimentado pelo mercadão que ainda lança sucessos nacionais. E minha vocação era essa: comprometido com o fracasso comercial e com o sucesso público, isso garante a minha existência e liberdade artística. E isso se tornou minha grande meta.

Seguindo nesta pergunta, mesmo não sabendo se tem relação, comente esta frase: "A arte perturba os satisfeitos, e satisfaz os perturbados" (Witold Gombrowicz).

Ai entramos em um território que vale uma conversa bem mais longa e profunda, mas resumindo, minha meta artística é estar sempre dentro do mercado e jogando contra ele, o tempo todo. Isso garante que eu exista. Ainda que seja num lugar absolutamente desconfortável e pouco comercial. Mas é um lugar.

Minha arte certamente não olha para o conforto. Pode olhar para diversão e para as sensação, certamente. Mas não é nunca para o conforto. “1992” é exatamente sobre isso, por sinal. O rock também é sobre isso, no fundo.


08. "Honey Bi"

Mais um rock baladinha, com um vocal meio sujo que por sinal, fica a dúvida, você usará tais efeitos de voz ao vivo? E essa tem uma pitada de blues, confere? Esta letra é mais afeto ou afetação? (Li isso numa resenha sobre o novo disco)

Sim, levarei as vozes com efeito para o show ao vivo. Ela tem algo de blues, tem inspiração naquela onda Elvis Presley, cheio de uma ingenuidade genuinamente maliciosa. Ela é puro afeto e pura afetação. O disco todo é. Uma das críticas que eu mais gostei de receber e recebi muito, pelo Estrela Decadente é: “Ai...o Pethit é afetado demais” – como eu acho que talvez não tenha ficado claro que essa é uma das minhas intenções, eu tenho dito isso over and over again. (risos)


09. "Voodoo"

Essa também tem um pé no blues e no Mississipi, também parece uma das canções mais interpretativas do disco. Queria saber se a interpretação (a parte teatral) é tão importante nesse disco como foram nos anteriores. O Estrela Decadente me parece ter muito de teatro.

Essa vem inspirada em Screaming Jay Hawkins, compositor de "I Put A Spell On You" – uma das minhas músicas preferidas. O cara tinha uma verve absolutamente cabarezistica nas apresentações. E eu trouxe essa ideia comigo para essa faixa. Embora eu ache que esse disco tenha pouquíssima linguagem interpretativa ou teatral, pelos menos em relação aos meus outros dois discos, esse é o que eu acredito que menos tem, eu vim do teatro antes da música. Então, acho que é inegável que algum carinho por artistas que tenham essa verve, grite mais alto.

Li em uma entrevista que você compõe bem pouco, que vária momentos de inspiração com frases soltas ao longo do tempo. Alguma das músicas desse disco são antigas? Como foi esse processo e composição das letras?

Bem pouco mesmo. Eu componho em fases. E é muito difícil eu ter músicas arquivadas. Em geral, eu começo duas ou três músicas e quando entendo para onde elas estão me levando, é que nascem os discos. Eu praticamente componho pensando diretamente no disco, sempre. Comecei as gravações de Estrela Decadente e desse Rock’n’Roll Sugar com apenas quatro músicas cada. As outras foram surgindo com o processo em estúdio.


10. "Perdedor"

Lenta e melancólica, me parece mais com os seus discos anteriores, é por ai? Esta música reafirma seu trajetória como músico (por lembrar seu passado), mesmo que num disco diferente dos demais. Parece ser isso ou estou viajando?

Essa é uma música que poderia, especialmente pelo arranjo, estar em B, T ou no ED. Acredito que é um pouco isto mesmo. Algo que está vinculado ao que se lembra dos meus trabalhos mas que pode figurar entre essas dez canções.


11. "Story In Blue"

A última música parece uma balada romântica do século passado. Um instrumental trabalhado e uma letra que alterna inglês com português. No texto de apresentação é dita como a música preferida para o seu público, por que você acha que vai ser essa?

Acredito que "Story In Blue" é uma música que resume bem o que eu me tornei e o lugar onde estou mirando minhas referências. Pra mim, é uma canção meio fantasmagórica, uma espécie de Elvis ou Roy Orbison num mundo de almas penadas. É David Lynch e Twin Peaks, também. Mas é a música que contem a justaposição do rock’n’roll do disco novo com a lembrança desse passado que eu apresentei em Perdedor. Ela é o meio do caminho, o elo entre esses discos, e esses Pethits que as pessoas agora conhecem.

As vanguardas levaram a novidade à exaustão. Você acha que ainda há espaço pro novo ou já há muita coisa lançada, mal revisitada e mal trabalhada e que ainda tem muito o que expressar?

Acredito e muito no novo. Se não acreditasse, eu certamente não ia querer trabalhar com artes e estaria em busca de outras áreas mais exatas e menos subjetivas. Mas é isso. O novo é mais e mais subjetivo e menos dilacerante e obvio. O que é difícil hoje em dia não é encontrar ‘o novo’. É encontrar a forma de se utilizar o que já existe, de significá-lo, de respondê-lo ou aceita-lo. Nós, nascidos pós a contra cultura dos anos 70, temos esse desejo de encontrar o tempo todo, não o novo, mas o contra cultural. E isso sim, é praticamente impossível hoje em dia. A contra cultura vira cultura e vira contra cultura e vira cultura, muito rapidamente. O novo que nós queremos ou que nós gostamos, vai aparecer nas lacunas, entre, no meio do caminho, no não exato e no mal compreendido. Duvido muito mais que hajam olhares treinados para reconhecer o novo, do que o novo em si.

PETHIT_RNRSD_CAPA OFICIAL

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1 comentários

  1. Eu sabia que "Voodoo" tinha alguma ligação com "I put a spell on you"

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