House of the Rising Sun #5: Espírito Alado

por - 12:06

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- Você está sozinha?
- Não, tem um monte de amigos por aí...
- Mas você veio sozinha?
- Aham. Acabei de chegar, tô encontrando as pessoas...
- Nossa, que raro... Alguém vir sozinha assim pro rolê.

Cumprimentei mais alguns conhecidos e fui comprar uma cerveja no ambulante. O bom de ir só é poder estar com todos.

Estávamos ali para ver Jason Pierce. E, por mais que o que realmente desejássemos fosse experimentar in loco distorções e riffs nos rasgando (o “Guitar Army” escrito nas costas dele não nos deixava esquecer disso!), a ansiedade para ouvir as canções do Spiritualized, ao vivo finalmente, brilhava nos olhos de todos que encontrei naquela noite para assistir ao projeto Acoustic Mainlines.

O formato é intimista: Pierce, na voz e violão, acompanhado pelo tecladista Tony "Doggen" Foster, por um quarteto de cordas e quatro cantoras (todas músicas brasileiras), responsáveis por um dos momentos mais bonitos do show, traduzindo a segunda voz de “I Thing I’m In Love”:

https://www.youtube.com/watch?v=Q-943NeA2us
A comoção era suave: plateia mais devota do que histérica, ainda que as palmas fossem acompanhadas por gritos isolados pedindo alguma música. Vinte e cinco anos de carreira, sete álbuns: tantas canções que já nos consolaram em fases escuras e turbulentas e queremos ouvir.

A figura delgada de Pierce conduziu a celebração nos lembrando, canção após canção, de que a rota de fuga para tormentas (de cada um; de todos) se dá pelo amor e pela música. O silêncio é a única reverência possível diante de um cara como ele: mestre na arte de sobreviver, extrair beleza do sofrimento e confortar. O silêncio e suspiros.

Entre mais uma cerveja e um cigarro largado após dois tragos e o som de uns acordes distantes, abracei amigos e fui me esquivando de conversas até chegar quase aos pés de mister J. Spaceman. Eu, que não dispenso uma boa prosa, só queria ouvir e sentir... uma redenção delicada, que, inevitavelmente, desaguou quando abri os olhos depois da minha favorita: “Soul On Fire”.

http://www.youtube.com/watch?v=yuEOqzs76sE
Somos todos frágeis aqui e sabemos disso. Pierce melhor do que ninguém: viu a morte de perto – e não falo só dos flertes com o abismo boêmio que tão bem conhecemos: em 2005, lutando contra uma pneumonia bem séria seu coração parou. Duas vezes. Ele, que travou tantas batalhas com deus e a morte em seus versos, e se desfez na prece suicida "Lord Can You Hear Me?" lá no fim dos anos 80, ainda no Spacemen 3.

É dessa fragilidade (do corpo, da voz, da alma...) que emana à força de Pierce. É uma percepção sensível da nossa finitude, e de que, no fim das contas, quando estamos sozinhos e na merda precisamos, sim, de ajuda, que verte suas canções na comunhão que fomos buscar naquela noite do fim de agosto.

Um estar só e se sentir bem, por saber que há outros, como nós, por aí.

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