O Barulho feio do Romulo Fróes

por - 13:08

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“Não há, mas derruba”. Com esta frase o compositor paulistano inicia seu novo trabalho, intitulado Barulho Feio. Antes da fala, você pode ouvir o sax de Thiago França, parceiro de Romulo Fróes e um dos convidados no álbum, que por sinal,  é um disco em que a palavra é mais importante que todo o resto. A crueza dos versos de Romulo soam com uma crueldade angustiante. Tais angustias talvez tenham se iniciado em Barulho Feio, música que dá nome ao registro e foi feita em tom de desabafo pelas polêmicas que surgiram na bienal de 2010 por conta do trabalho Bandeira Branca de Nuno Ramos, parceiro de longa data do músico.

Algumas verdades precisam serem ditas e estas podem soar de maneira cruéis, ainda mais quando a fala é mais importante que toda instrumentação. Afinal, quem já teve um bem querer, um dia perde a paz. Mesmo que nascemos e morremos só.  Sonoridades ambientadas na grande megalópole que é São Paulo permeiam todo o trabalho, dando um tom ainda mais confessional, mesmo soando totalmente global. Barulho Feio é um disco que privilegia a palavra falada, em momentos até sussurrada, mas que também externa duvidas corriqueiras da vida.

Ao longo do último mês (e meio), tive uma troca de e-mails frenéticas com o Romulo Fróes, falando não apenas deste novo trabalho, mas de toda sua carreira. Falas ditas em momentos anteriores e projetando-se no futuro, influências do presente, do passado e provavelmente do futuro de um dos compositores mais ricos desta tal nova música brasileira.

 "Quando se fala de Romulo Fróes tenha ciência: é desconstrução, ruptura com o tradicional, sorvendo-o com novas ideias dentro desse novo panorama artístico e cultural." (Namiradogroove). Eu queria saber de onde vem essa sua necessidade de se reinventar, tal da desconstrução. Você sempre pensa nesses propósitos quando está construindo um novo trabalho?

 Vem da minha necessidade de estar vivo, inteiro no que eu faço, que é ser um compositor de canções. Antes de qualquer coisa eu faço canções e o que você chama de reinvenção, desconstrução, nada mais é do que eu encontrando novas maneiras de exercer meu ofício de compositor, tentando, sempre, não me repetir.

Você é sempre muito atrelado a TAG/Termo MPB, porém eu sempre te acho um cara numa verve mais experimental. Queria saber como você se vê dentro deste contexto de Música Popular Brasileira, mesmo não sendo super popular ou até com elementos de fora do país.

Primeiramente quero dizer que tudo aquilo que identificam de influência da música estrangeira em meu trabalho, não parte de mim. Quero crer que minha música seja influenciada única e exclusivamente pela música brasileira, em sua totalidade. Os rótulos, movimentos, estilos, tudo que organizou a música popular no século XX, perdeu força após o advento da internet. É impossível catalogar a música que é feita hoje. O apego ao temo MPB, que ainda persiste para satisfazer aos nostálgicos de plantão, não é mais capaz de abrigar toda a música feita hoje no Brasil. Como eu me vejo? Me vejo como um compositor influenciado pela fantástica história da música popular brasileira que tenta, ao seu modo, construir um novo olhar sobre essa história. Conseguindo ou não, é essa vontade que me move!

Sempre que eu ouço seus discos solos, eu tenho a impressão de que o silêncio é muito importante. Me arrisco a falar que é parte da sua composição. É por ai? Você vai na onda do John Cage? 

Acho que o que você está identificando como silêncio é o mesmo que eu identifico como um protagonismo da letra em relação a melodia. Nesse sentido, Barulho Feio é o mais radical dos meus discos. As canções estão mais despidas do que nunca, quase que somente amparadas por meu violão, as vezes nem isso. Os outros poucos instrumentos do disco funcionam de um modo muito mais climático que propriamente melódico. Essa premissa, associada ao procedimento realizado por mim que foi inserir ao longo do disco uma gravação captada no centro de São Paulo, ao mesmo tempo que instaura um certo caos ao disco, lança um foco pro texto. Prestamos mais atenção ao que é dito do que o modo como está sendo dito. A conversa dos passantes se fundem ao meu canto, misturando letra de canção e a fala das ruas. Penso que o silêncio que você identifica no Barulho Feio seja antes, uma predominância do texto em relação a melodia.

Seguindo a linha teórica, você disse aí que a música brasileira é sua influência exclusiva. Eu queria saber se o pop também seria influência.

De novo, o que influencia minha música é a música brasileira e se nela existe alguma influência pop, terá vindo da canção popular do Brasil, de Carmem Miranda a Gal Costa, de Noel Rosa a Jorge Ben e muito, muito, muito mais!

E ao vivo, o silêncio ou a voz/ letra é respeitado como no Barulho Feio?

 Sim! No show permanece a dinâmica entre o silêncio(canção) e o caos(rua).

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E por que Barulho Feio, já que o disco é mais calmo?

Primeiramente, não acho Barulho Feio meu disco mais calmo. Não é pelo motivo de ser um disco com menos instrumentos ou por ter um andamento mais lento que faça dele um trabalho menos tenso, muito pelo contrário, há nele uma tensão constante que no mínimo, causa um incômodo inicial a quem o ouve. O título Barulho Feio veio da canção de mesmo nome presente no disco, canção que funciona como um desabafo por conta da polêmica criada em torno do trabalho Bandeira Branca do meu parceiro Nuno Ramos criado para a Bienal de São Paulo em 2010. Trabalho que eu ajudei a produzir e que estampa a capa do disco. Um fato curioso é que é a primeira vez em toda a minha carreira, em que o título do disco surgiu antes de sua gravação e este título, Barulho Feio, funcionou como um norte para a sua criação.

E no que sonoramente o trabalho do Bandeira Branca influenciou no disco? Você trouxe o que você fez com ele pro disco?

 A situação desagradável gerada pelo trabalho inspirou a canção Barulho Feio que acabou nomeando o disco. É só essa a influência de Bandeira Branca no disco.

Eu queria saber o que você fazia antes da música. Eu sei que você teve uma banda chamada Losango Cáqui nos anos 90. Por sinal, tem algum som da banda por aí? Nunca ouvi.

Eu tenho uma formação acadêmica em artes plásticas e desenhava desde minha infância. Meu desejo era primeiro ser desenhista e depois artista plástico, o que me levou a conhecer o Nuno e me tornar seu assistente e trabalhar com ele durante 16 anos. A música sempre esteve presente de modo mais amador desde a adolescência, época em que formei o Losango Cáqui, que felizmente teve sua carreira antes do advento da internet e por isso você jamais saberá qual música nós fazíamos (risos). O fato é que com o tempo percebi que mesmo com minha vocação e habilidade voltadas para o desenho, quando eu compunha percebia uma autoria mais forte, muito mais que nas minhas pinturas, por exemplo. Mesmo as canções ruins, que não eram poucas naquela época, continham algo de inusitado, estranho, o que reputo a minha total inabilidade técnica, um dos motivos pelos quais talvez elas adquirissem um caráter mais original. Foi natural exercer minha vocação para as artes plásticas trabalhando para o Nuno, produzindo suas obras, enquanto desenvolvia paralelamente minha carreira como músico. Carreira que se misturou com a do Nuno, já que ele se tornou meu parceiro e passou a compor junto comigo.

Como é teu processo de composição! Você pensa primeiro na letra, na melodia?

 Não tem muito regra, mas a grande maioria das vezes eu faço uma melodia e mando pra algum dos meus parceiros letrarem.

Neste disco novo, “Barulho Feio” deu nome ao disco e veio por conta do Bandeira Branca, mas essa música veio antes das outras (ou) as outras vieram depois dessa? A pergunta na realidade é: você tenta contar uma história nos seus trabalhos? 

Tem duas músicas neste disco anteriores a “Barulho Feio”: “Como Um Raio” e “Noite Morta”, que é uma de minhas canções mais antigas, ela já estava na lista pra entrar no repertório do meu primeiro disco e isto se repetiu em todos os meus discos até agora, porque tenho muito apreço por esta canção e finalmente ela encontrou em seu lugar. O fato do disco e seu nome terem nascido de uma canção, “Barulho Feio”, fez com que todas as canções do disco partissem dessa inspiração, sejam as novas ou mesmo aquelas que haviam sido compostas anteriormente a ela. Foi a primeira vez em minha carreira que o conceito de um disco meu, nasceu antes dele ter sido formulado.

Em 2011 você falou isso: "Essa é uma geração das mais brilhantes da história da música brasileira". Hoje, três anos depois, queria saber se sua opinião mudou e o que aconteceu de diferente de 2011 pra cá nessa geração?

 A minha opinião é exatamente a mesma! O que mudou nesses três anos pra cá foi que além da confirmação e reafirmação sistemática do talento dos artistas que já estão na estrada há pelo menos uma década e que continuam lançando discos interessantíssimos, apareceram ainda muito mais artistas com trabalhos originais e de altíssimo nível!

Em outra entrevista no mesmo ano (acho que foi com o Marcelo Costa, no SY), ele questiona sobre a falta de ambição. E você fala sobre as dificuldades de se fazer shows no Brasil. Queria saber também se isso melhorou, piorou, continua na mesma?

Melhorou, muito! É claro que ainda é difícil viajar pelo país, mas existem muitos lugares que recebem esses artistas independentes e que travam um diálogo de parceria pra que se viabilize não só o intercâmbio desses artistas, mas a sobrevivência do lugar que se pretende um local de divulgação dessa música. Todos ganhando um pouco menos, ganham muito mais!

Como medir o sucesso nos dias de hoje?

Sucesso para mim é fazer a música que você acredite e encontrar pessoas que entendam, gostem e apoiem seu trabalho, sem que para isso você precise ceder, modificar, negociar com ninguém, a construção de sua carreira. Sucesso para mim é conseguir trilhar o caminho que você escolheu seguir com sua música! Sendo assim, não posso reclamar de absolutamente nada!


 Eu queria que você me falasse o que você escutou durante a criação do Barulho Feio. Algum disco ou artista esteve mais em seus ouvidos?

Sempre estou envolvido com discos que estão sendo produzidos ao redor de mim, seja sendo convidado a escrever releases de apresentação, seja participando da produção, então os discos que mais ouvi enquanto gravava Barulho Feio foram o Malagueta Perus e Bacanaço do Thiago França e Encarnado da Juçara Marçal, discos que escrevi os textos de apresentação e Mergulhar, Mergulhei do Pipo Pegoraro que assino a direção artística, além de todos os novos discos que são lançados quase que diariamente pelos meus contemporâneos. Quanto a algum artista recorrente, que eu escuto quase que diariamente, certamente este artista é o Milton Nascimento.

"Aprendi a abaixar as expectativas para vencer o ressentimento". Essa frase é sua em uma das entrevistas já citadas anteriormente. Eu queria que você falasse sobre suas decepções musicais. 

Decepções musicais? Nenhuma!!! Essa frase, dita há alguns anos atrás, se referia ao fato de viver de música e não de produzir música. Quanto a criação, não tenho a menor frustração, ressentimento, ou qualquer outro sentimento negativo, sempre fiz o que queria fazer! E quanto a viver da minha música essa frase já datou, pois há quatro anos é somente o que eu faço!

Se você pudesse escolher qualquer artista para trabalhar junto (vivo ou morto), qual seria? Na realidade, devido ao enorme número de parcerias, existe algum que não rolou? E uma música que você gostaria de ter composto?

Minha experiência com os artistas consagrados da música brasileira, apesar de prazerosas, foram de pouca importância para o meu trabalho. Nunca é uma relação de igualdade, você acaba fazendo o papel que lhe cabe, o de coadjuvante. O que realmente me dá prazer, me movimenta, o que transforma minha música constantemente é a minha parceira com os artistas com quem divido minhas ideias sobre o que é fazer canção. Nomeando cada um deles: Juçara Marçal, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos e Thiago França. Uma canção que eu adoraria ter feito é "Pois é", uma das lindas parcerias de Tom Jobim e Chico Buarque. O modo como a letra do Chico se funde a melodia do Tom é de uma perfeição quase impossível de ser alcançada, a não ser por eles mesmo.

Como aliar a estética e a política na música?

Fazer arte é fazer política. Não é preciso ser literal para que uma obra seja política, pelo contrário, para mim, obras onde o desejo panfletário antecede o pensamento artístico não me dizem nada, nem de política, nem de arte. Mondrian é político. Nelson Cavaquinho é político. Barulho Feio é político. A arte existe para mudar sua vida e não para explicá-la. Não quero que a arte me mostre como a vida é, quero saber como a vida poderia ser!

Romulo, queria saber como você lida com a rotina? Ela é uma vilã ou aliada no processo criativo? 

Sou um escravo da rotina, lido mal com o tempo livre, acho sempre que estou perdendo tempo. Trabalho para mim é o que tenho que fazer para conseguir trabalho. Quando trabalho é quando realmente me divirto!

 Você se considera um típico paulistano? Li que você não fala muito de São Paulo em seu trabalho solo, mesmo se encontrando na cidade cinza, por isso a pergunta.

Eu sou absolutamente paulistano, a começar por minha filiação misturada, filho de um pai baiano e uma mãe mineira. As letras de minhas canções não são de caráter documental, não contam estórias, muito pelo contrário, mas é claro que São Paulo está na minha música e muito! Mas de um outro jeito, não literal. Em Barulho Feio então, a cidade, ela mesma, está dentro das canções, atuando nas composições com a gravação que fiz no centro da cidade e que percorre todo o disco! Não existe a menor possibilidade de você fazer música em São Paulo e não ser influenciado pela cidade e sua personalidade caótica, seja você paulistano ou não.

Você fala que tem influência da música contemporânea brasileira, mas sua principal fonte de expressão parece estar na MPB Clássica. Isso pode ser encarado como uma espécie de anacronismo?

Sempre digo que sou influenciado por toda a história da música popular brasileira, incluindo a contemporânea! Não acho que minha música se aproxime mais de uma MPB clássica, seja lá o que esse rótulo quer dizer, mesmo porque, talvez o comportamento mais caro a mim é justamente não querer parecer com nada. Minha busca é por soar original, inovador, ainda que essa originalidade seja construída a partir da minha influência com a infinita coleção de canções dos meus artistas prediletos, em todas as épocas. Discordo veementemente de quem ache minha música anacrônica, prova disso é que meu primeiro disco, Calado, vai ser relançado em vinil, dez anos após seu lançamento e apesar de ser um disco muito diferente do que eu penso e busco hoje em dia, ainda me reconheço por inteiro nele e sinto que é um disco que ainda pode surpreender e agradar muita gente, em seu desejo por uma atualização do samba.

Pensando no que você já produziu, você já realizou uma autocrítica externada? E projetando o que ainda estar por vir, o que você não fez e ainda quer fazer?

Autocrítica externada? Não há um só dia em que eu não me crítico. Já se tornou um hábito um tanto sádico, eu Nuno e Clima, destruirmos cada disco gravado, logo depois de seu lançamento. Isso não tem nada a ver com autocomiseração, é mais um exercício de se manter vivo, sem achar que já produziu sua obra e que agora pode descansar sobre os louros da glória, ao contrário, "é preciso estar atento e forte" para não se acomodar, nunca!

Pra fechar fechando, existe alguma coisa que eu não te perguntei e deveria ter perguntado? E espaço aberto pra falar o que quiser.

Acho que falamos de tudo e mais um pouco! Mas se posso fazer um pedido final, adoraria que escrevesse sobre Barulho Feio, como nota introdutória de nossa longa entrevista! Valeu pela paciência e atenção, um forte abraço, R.

Romulo

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