Um papo sobre arte: João Cassiano "Cobra" Silva

por - 12:05

João Cassiano Silva
João Cassiano Silva, o CassiCobra, é um músico e artista visual nascido e criado em João Pessoa. Ele sempre esteve em contato com a gente, pra divulgar seus trabalhos de pesquisa na música instrumental com as compilações Nomade Riddim, os shows e eventos de João Pessoa ou convidar para as apresentações das bandas que faz parte. Na esfera musical, podemos dizer que Cassiano é uma espécie de curinga da música paraibana, fazendo parte de grupos distintos e de enorme qualidade, isso,  desde os tempos de Silvias, passando pela Eletronic Band do Chico Correa e atualmente tomando conta das percussões no Ubella Preta.

Em setembro de 2013 o camarada fez a capa da nossa coleta mensal #40, uma das mais coloridas e cheias de detalhes até hoje, num tipo de arte que ele diz ser "Vagal". Ele mesmo fala sobre a poluição visual na explicação da obra “a arte parte das minhas principais referências visuais, como o graffiti (principalmente aquela estética mais anos 80, e o wild style), os comix brasileiros e americanos, desenhos animados e videogames. "mídias" baseadas nas cores fortes, e na poluição visual". Querendo saber um pouco mais sobre o estilo e as ideias do camarada, entramos em contato com ele e aqui você confere toda entrevista em mais um papo sobre arte.

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Me explica este conceito de "arte vagal" que você usa. Eu não sei se você vê assim, mas ele pode soar de forma negativa também (pelo vagal).
Então meu velho, a história da arte vagabunda (ou arte vagal pra abreviar) começou tem um bom tempo. Estava ouvindo o primeiro disco do Mamelo Soundsystem (esse aqui, mas não lembro qual é a faixa) e em uma música os caras falam disso, mas usando o termo pra falar de uma arte feita sem muitos recursos, mas muita inventividade. Tomei emprestado pra mim, e acabei associando outras influências minhas nesse caldeirão. Tipo, toda a propaganda, arte pop em geral é considerada lixo pelos "pensadores" da arte né? Letreiros, pixos, desenho animado, videogame. Sempre foram consideradas expressões menores, vulgares. E é ai que estão as minhas primeiras referências. Algumas pessoas entendem de "forma negativa". Mas acho legal também. Pra produzir arte é necessário uma grau de vagabundice também!!

Faz mais de um ano que você fez uma arte pra uma coleta nossa, dizendo que tinha como referência exatamente essas artes que você falou agora que são um pouco menosprezadas. Você não se preocupa com que as suas artes também sejam vistas dessa maneira?

Não tenho essa preocupação. A intenção é causar esse tipo de confusão mesmo. Que as pessoas vejam um trampo inspirado em desenho animado e vejam referências a outros tipos de manifestação artística. Ou que vejam algo inspirado em, por exemplo, Basquiat, e encontrem referências de mangá.


Ou seja, citando o Tom Zé "Eu tô te confundindo Pra te esclarecer". O que da sua música você acha que influencia em sua arte e vice versa?

Essa ligação com a arte primitiva acho que permeia tanto a música quanto as artes visuais. Sou percussionista e sempre tô ligado nesse lado mais "roots" de tambores e tal. O que aparece nas minhas pinturas e desenhos, com figuras que lembram máscaras africanas, pinturas rupestres e arte indígena brasileira. Essa ligação com o "moderno" o eletrônico também aparece nas duas vertentes, já que curto samplers e gosto de brincar com ideias ancestrais e futuristas.

Para viver de arte, você acha que é preciso mudar o Brasil ou mudar do Brasil?

Nós temos essa ideia romântica do que é viver de arte. Acredito sim que no Brasil é mais difícil que em outros locais que tem um "mercado mais aberto", mas consegue se viver de arte produzindo, comercializando, lecionando. O Shiko é um exemplo disso aqui em terras paraibanas: produz telas, quadrinhos, trampos pra publicidade, grafite. Atua em várias áreas com o que ele sabe fazer, que é ilustração!

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"No passado, a formação (estudo) era importante para o valor, atualmente a criatividade e estilo tornaram-se o mote para o preço." Tirado daqui. Eu queria saber se você estudou e se o processo de aprendizagem pra você pode limitar a criatividade.

Cara nunca estudei arte, formalmente falando. Mas sempre pesquiso por artistas nas mais diversas vertentes, e estou sempre tentando ficar atualizado sobre o que as pessoas estão produzindo, o que está "pegando" no momento. Pra mim aprender coisas novas, estudar coisas novas sempre me auxilia no lado criativo, além de tornar mais fácil o processo de criação, mas sei que alguns artistas acabam limitados por uma técnica excessiva, uma virtuose que morre nela mesma.

Você falou em tipos de arte que são referências pra você, eu queria saber que artistas são referência? E também queria saber como foi a sua infância?

Tenho como referência desde sempre os artistas plásticos Basquiat e Keith Haring, os quadrinistas e artistas plásticos Jaca, MZK e Kim Deitch e o multi-artista Arthur Bispo do Rosário. Nos últimos tempos tenho visto e absorvido muita influência da arte urbana, principalmente do H101, Okuda, REMED, Sophie Roach... pra citar alguns. Cara tive uma infância legal de garoto nerd dos anos 80, com muitos gibis, animações, videogame, RPG... paralelo a isso tive bastante contato com artistas paraibanos nos anos 80, então desde cedo via os trabalhos de Pedro Osmar, Paulo Ró e Jaguaribe Carne, Milton Dornellas e toda uma turma "underground" que circulava nos bairros de Jaguaribe e Torre nessa época.

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Vamos falar do esquema de estêncil e adesivos que você faz por aí. Eu não entendo bem se é um lance de protesto ou simples disseminação da arte em espaço urbano. Você quer marcar território, mostrar sua arte para vende-la? Um adendo: Adesivo é arte?

A arte de rua antes de virar grife (o street art pós-banksy) servia de protesto, e pra marcar o território de gangues, pros grafiteiros mostrarem quem escrevia mais pela cidade. A minha arte mistura tudo isso: das máscaras primitivas marcando território, dos adesivos reconfigurando cartazes, placas, sinais, da brincadeira bem-humorada os cartazes de shows e adesivos políticos...protesto? Disseminação? Marcar território? Acho que um pouco de cada.

E adesivo é arte sim. A maioria dos trampos que faço são únicos, feitos a mão, alguns são reproduções de obras minhas já existentes. Mas até onde sei, a pop arte se baseia na reprodução também.

Pra fechar, existe alguma coisa que eu não perguntei, mas deveria ter perguntado? Se sim, manda a pergunta e a resposta. Se não, espaço aberto para falar o que quiser sobre qualquer coisa.

Ih man, mais aberto impossível né? Rapaz acho que fechou nessas perguntas que você fez mesmo. E pode falar qualquer coisa? Pois acho bem interessante essa leva de pessoas que trampam com artes visuais mas com um pé nessa mesma arte pop que citei como referência, nos quadrinhos, nas tattoos, videogames, graffiti. Se distanciando mais desses modelos "clássicos" de arte, mas usando suas ferramentas para produzir sua arte.

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Se você curtiu as artes do João Cassiano, alguns dos trabalhos dele estão à venda aqui!

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1 comentários

  1. Que maravilha , o sempre surpreendente João , o Cacá da gente ,pensando, e fazendo pensar, revolucionando , questionando, adorei filho , parabéns.

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