O Arpégio dos Peixes Estranhos

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Seus pés não tocavam o chão há pelo menos dois quarteirões.

Conseguia sentir a força no dorso do pé, toda a vez que realizava a fase de impulsão da marcha, ao mesmo tempo em que o balanço de seus ilíacos colocava suas pernas em propulsão atômica. Todo o peso de seu corpo dividido nas fibras solares, fazendo cada passada erguer uma pequena hérnia. Fibras musculares em febre, a contração de sua perna deixava visível toda a linha que separava os ventres musculares. Tendão pulsava em cada retomada de velocidade, artérias cheias, audível pulso há quilômetros de distância. Uma marcha fúnebre tocada em “drum n' bass”. Respiração urgente a fazia borrar o rosto com uma cor avermelhada e ofegante. Sua capacidade em realizar contrações excêntricas poderosas lhe dava mais poder proprioceptivo, assim voava pelas ruas em um transe de maratona. Os olhos não olhavam nem mais as pessoas solitárias. O cérebro perguntava para onde as pernas estavam indo, ou se elas pertenciam a algo. Ela apenas voava. Mãos escorregavam pelo suor descendente em sua testa. Sentia cada articulação da costela arder carne viva e os meniscos abrandavam cada toque fêmorotibial. Repetitivos e dolorosos. Conseguia sentir toda a contração de seu tendão patelar segurando a revolta poderosa em seu quadríceps. Ofegante não podia parar. Pulmões esfacelando-se a cada expiração sem o menor resquício de pressão negativa. Não mais espaço para dilatação ventricular. Era como se fosse explodir, deixando pedaços de seus poros pelo chão. Marcha ensandecida contínua, ela era supernova consciente de sua destruição. O padrão de aterrissagem em cima de seu osso púbico transverso ao inferno. O corpo latejava, porém ela não podia parar. Não agora nem nunca, não existia espera, apenas a urgência de correr e correr e correr, era uma obrigação de alma ser mais veloz, antes que seu corpo fosse inteiramente coberto pelo desamor. Antes que todo o inferno fosse solto diante de seus olhos.

Entretanto, o corpo fora dos códigos binários da salvação na tela clama por compaixão fisiológica. Uma pausa em arabescos pacíficos. Chora entre cada passada de desespero. Espera uma canção para que se mantenha aquecido, afinal a fuga é gelada, tem eu ser gelada, longe de todo o que aprendera com o mundo. Obriga-a contorcer seu peito e desatrelar suas mãos de seus braços. Busca nadar por entre o ar em forma de uma parede de titânio. Os pés ardem, olhos já sentem a lava correr por entre as artérias oculares, e ela então derrama um líquido escuro pelas narinas, que ao chegar ao solo sedimenta-se em formas estelares. Ela quer sair de seu próprio corpo. Soltar de seus ossos uma ecdise em pele, marcando sua fuga, um solavanco em seus perseguidores, porém sua pele não rasga, uma oração urra para que pedaços de suas células simplesmente caiam, desapareçam sublimadas pelo ar quente da avenida, na cidade do patriarcado, no lugar onde todas suas feridas foram abertas. Um silêncio rompe a rua por onde ela passa em carreira desabalada, ouve ao longe os cães do Inferno soltarem-se das amarras, sabe bem no fundo de seu ventrículo esquerdo que é preciso continuar respirando, ouvindo os acordes de seus dedos tocando o asfalto, risadas sem coluna espinhal em velocidade terminal sussurram xingamentos dentro e seu ouvido. Os urros que ecoam por entre décadas dentro desse mundo, a pressão dentro de sua casa para que se ajustasse ao papel secundário da mulher de família, o reservatório de esperma paternalista, apenas um peão dentro do jogo de homens mais velhos, intelectuais amigos ou até generais catedráticos. Ela precisava escapar, jamais poderia ser como suas semi semelhantes, doces compassivas que aceitavam sem questionar a personagem costurada em seus corpos pela sociedade, que apenas esperava uma obediência cega aos mandatários e seus egos inflamados e paus à mostra assim que necessário. Os predadores oficiais e suas meretrizes regurgitadoras de conceitos pseudo libertários.

Ela respira mais uma vez.

Enfim suas mãos rompem a camada grossa de ar que a segura. Pelo canto dos olhos, um homem e seu boné cantarolam Touch Me I'm Sick, ela então sente seus ligamentos rompendo-se fibra por fibra, rasgando a pele que sustenta os ossos. Tendões começam a florescer de sua epiderme encharcada por suor. Fios e mais fios saem de todas as articulações de seu corpo, formando um mosaico de formas e cores em vermelho. Seus braços e pernas agora parecem os de um boneco. Capitaneados por algum artista a suspender sua marionete pelo ar e a faz dançar tropegamente pelo palco sem luz. Ela observa seus tendões estirados, admira a beleza da decomposição de seu antigo corpo, enfim está fugindo de maneira real de tudo o que a cerca. Os poros abertos por onde correm as fibras de colágeno agora expelem uma substância oleosa eu lubrifica os tendões e não os deixam desgastarem-se. Ela observa que, enquanto sobem aos céus, seus músculos ganham mais força, tornam-se concreto e ferro, ela então contorce o ar ao seu redor como se suas mãos fossem dois remos feitos de endoderme e sangue, não existe titereiro até então, seu corpo torna-se outra coisa, tendões são impulsionados pelas nuvens que formam trilhos acima de sua cabeça, ela estará em breve livre, sua nova forma esmagará qualquer resquício de educação, que até aquele momento havia deixado em seu corpo apenas o sórdido paternalismo eterno de uma cidade amoral do interior. De cada vértebra mais duas aberturas laterais formam-se, por elas transpassam mais fibras de colágeno na direção do cinza céu, elas entrelaçam-se desde o final de sua coluna até sua nuca, uma amarração látex fisiológico. Dois fios principais são suspensos, que agora, juntamente com os quatro pares de cada braço e os três em cada perna formavam oito pares tendinosos que a suspendiam por entre o lixo daquela cidade. O infinito representado em seu corpo por fibras oleosamente vermelhas de revolução mecânica. As regras da genética cuspidas como veneno, uma aberração religiosa exorcizando um deus vazio, e que até então, era apenas mais um maldito filho de uma puta misógino. Como todos daquela cidade, sempre achando-se deuses de alguma coisa, da esquerda, da direita, da moral e bons costumes. Mas ela iria transgredir o corpo, era ali, sangrando seu endométrio sagrado, que escaparia dos lobos, suspensa em sagrado bondage.

E naquele segundo apenas ela se perde, é quando vê o homem de boné às gargalhadas.

Começa a correr novamente, a pele em suas costas estraçalhada pelos ligamentos da coluna. Suspensos a colocavam acima do nível da rua. Como em um pesadelo, agora parecia correr parada, seus tendões violentamente levam-na correr cada vez mais rápido, sente o ligamento em sua nuca expandir seu crânio. Pensava que se ao menos pudesse parar a inércia de voar em gravidade zero poderia ser mais rápida. Sua única hipótese era escapar daquilo, pois passar por tudo mais uma vez não era uma opção.

Seu corpo agora formara bíceps alados com pontas afiadas de cera. Pulsando em cada sopro de ar fervente, os pés ardiam, mãos já geladas pela chuva torrencial de sua testa começavam a latejar. Não havia mais miosina suficiente em seu corpo. Fáscia passeando pelo travamento, e mesmo assim, a suspensão dos seus tendões ficava cada vez mais forte. Ela deixava para trás um rastro de ódio, água e flores.

Por minutos incontáveis ela permaneceu nesse estado de latência deambulatória, não se importando com nada ao seu redor. Correndo, sentindo o pulsar do sangue como labareda seminal de uma menarca. Esfacelando-se até o abismo do fim da rua embaixo daquela ponte, próxima à praça da cidade. Exatamente lá onde sentiu os tendões arrancados de suas costas pelo adestrador de marionetes. Expondo toda a musculatura paravertebral. As asa aladas em seus braços derretem-se, os ligamentos nas suas pernas e braços secam, despencam ao chão lavando-o com uma coloração arroxeada, são hematomas que ao tocarem o concreto tornam-se escaras, o cimento faz do sangue uma necrose eterna e suas ressonâncias ajudam a deixar ferias abertas no corpo dela. Então ela se vê imóvel, sangrando e tremendo. Pavorosamente calada, esperando a tormenta que a seguia passar. Rezando muito baixo para que nenhum dos cenobitas a encontrassem. Olhava em seu corpo e sentia todas as marcas dos tendões recolhidos e enrolados ao redor de sua boca, para que não chorasse. Silêncio em hipnose de salvação.


Por um momento ela sentiu-se só, nada além de seu corpo cansado debatia-se contra o vento. Nada mais havia de ruídos na rua, era apenas ela e todas as cores que exalavam de seu corpo destruído pela fuga. Olha por segundos um horizonte inexistente, sente o bafo quente deles por perto, quer correr de novo, mas seu corpo não obedece. São segundos inimagináveis, sabe que precisa sair de lá, porém, está presa por um estado de inércia estática. Os ligamentos sem lugar certo, uma marionete sem função, e mesmo assim resolve sair.

La Planèt Sauvage, 1973

Abre os olhos. Acorda do sonho corredor pela pancada forte de um cabo de vassoura que estilhaça suas costas.

- Onde você pensa que vai? A voz ecoa pelos ouvidos atordoados, sente apenas as mãos puxarem a manga de sua camiseta dos Intruders. Presa, sente seu braço torcido por uma força coletiva. Uma sensação de alívio nervoso chega por entre seus olhos. Não porque tudo estava desabando, mas porque enfim não sentiria mais as dores causadas pelo seu pai. Currada em espírito pelo aglomerado de meninas e meninos que lhe machucariam, qualquer coisa era melhor do que sentir as dores causadas por ele. A fila vestia-se quase como um uníssono. Jeans e camisetas refletindo as escolhas de vida de cada um. Bonecas, bailarinas e pequenos cachorros televisivos ilustravam suas camisetas. As calças minuciosamente surradas por precisões da moda de época mostravam que assistiam todos os seriados de televisão modais. Não existia diferença de cor e raça quando o assunto era assombrar. Apenas uma força destruidora de almas que escondidas jamais poderiam lutar contra a força.

- Como é que você corre assim? Replica novamente um de seus carrascos. Ela não sabe o que responder. Está estática. Sente apenas a elevação de seus tendões, mas dessa vez a suspensão não lhe salvaria.

- Você corre melhor do que eu, mas também é de se imaginar.

- Não é verdade?

O interrogatório continua. Palavrões ecoam por entre os montes de areia que escondiam ferramentas, nas construções da rua. Árvores olhavam pelos retrovisores de folhas toda a cena que nascia por entre as agressões verbais. Letras formadoras de insultos jamais imaginados habitantes em boca cercadas por cremes dentais caros. Apenas a luz em piscadela intermitente acompanhava as palavras, cada vez mais ferozes.

Entretanto as hienas queriam mais. Precisavam descontar toda a raiva da fuga em sua pele. Alguns meninos acotovelavam-se nas sacadas para assistir à crucificação pública que aconteceria em breve. Pedaços de madeira das construções eram feitos pregos, cravando repressão pelas coxas da quase menina. Por instantes ela percebe que sua vida pode acabar ali mesmo e não se revolta. Apenas aceita com devoção sua derrota sobre a vida. Um soco queima o chão e atravessa suas narinas fazendo com que engula as primeiras hemácias rodeando as bordas. O estalido dos ossos é invisível e repleto de ódio. Não há fuga, apenas um enorme puxão de suas tranças, seguido de mais um ou dois socos desavisados.

- Me responde uma coisa, sua coisa...

- Como você se sente sendo esse monstro que você é?

A pergunta ecoa mais um cabo de vassoura que explode nas costas dela. Ela não cai, aceita a pancada, sofre com cada nervo explodindo por entre a dor nos músculos posteriores.

- Me responde?

- Me responde seu aborto mal acabado.
- Me responde como é possível seu pai ter gozado dentro da sua mãe e como resultado essa merda ter saído dela.

A cada pergunta, uma nova agressão assolava suas costas. Ela quase se ajoelha, mas resiste. Não pode desistir agora. Onde estará o homem de boné?

- Você não vai me dizer nada?

- Então você vai apanhar mais sua vaca, ou eu devo dizer seu monstro? Explode a repressão machista da família no peito de seu agressor que lhe desfere outro soco. Cuspindo em sua cara, a vassoura ressoa por entre as orações das carolas que dentro de suas casas escondem-se para não ouvir o terror na voz dela.

Seguidos pontapés. Ela sente seu estômago por entre a faringe. O gosto de sangue é tão fresco quanto névoa da manhã. Ela apenas deixa seu corpo ir. Quer morrer. E quem sabe, não é essa sua hora. A risada do agressor trava o ar ao redor de todos. Um soco forte na altura do olho faz com que ela se curve, encostando seu rosto próximo à pélvis do algoz.

- É exatamente aí que você tem que ficar, sua puta, perto do lugar onde o meu prazer interessa.

Era como deitar a cabeça dentro do leão, mas ela apenas ouvia o silêncio, suas mãos trêmulas não conseguem estancar o sangue, deixa-o ir então. A morte seria alento. Ela sente sua foice acariciar seus cabelos, está pronta. Mesmo não vivido mais do que seus quinze anos. Quer morrer desesperadamente pois o sangue não estanca e a dor não cabe mais em um corpo só. E quando mais um pedaço daquela mão vai em direção ao corpo dela, algo acontece. Uma labareda corre por entre os dentes dela, e os fios formados por seus tendões esticam uma vez mais, colocando-a em pé. Empunha suas mãos como marretas. A menina cria urra de dor. Sente sua pele despregar dos ossos e suas mãos já não são mais suas. São presas, vítimas de uma força maior que ela, maior que qualquer tentativa de ataque inerte e covarde. As mãos alcançam a solta pá da construção ao lado do picadeiro. O ferro incrustado com concreto de outrora forma uma carapaça de tartaruga no instrumento de construção. A simetria dos tendões elevados faz com que fique em posição armada. O zunido do ferro corta o ar e explode no rosto do agressor que cai semi-inconsciente. Os olhos do predador e da presa encontram-se. A pupila dela empala-o e a pá descreve outra linha giratória e quebra as costelas do monstro da moda. Nesse instante, forma-se um clarão de vácuo. Um trovão reside diretamente dentro das quatro órbitas. Um frio ártico percorre a espinha e sua mão lentamente se despe da forma fechada. Um medo corta a violência, ela o fez sentir tudo havia de mais desesperador dentro dela. Estampado em gotas de rancor que eram desferidas sem perdão. O sangue ainda correndo pelo seu rosto mesmo depois da vingança ,abaixa sua calça e esfrega violentamente seus genitais na cara do agressor, agora inerte. A horda de defensores estarrecidos com a reviravolta da cena, não conseguem nada além da verborragia.

- Quem você pensa que é para bater assim em nele, nosso amigo, você permitiu que fôssemos assim com você, no momento em que foi sincera consigo mesma e aceitou tudo o que aconteceu calada.

Ela sangra cinza, amalgamando sua alma de encontro ao asfalto.

Não existe mais dor, apenas o silêncio de um corpo semimorto. Deixado para trás pelo mestre das marionetes, à própria sorte. O choro não está lá, as vozes não estão lá. O homem de boné muito menos. Apenas uma pausa, porque ela já sabia que o martírio apenas começara. Entendia desde sempre o quanto ruim o mundo poderia ser, mas foi essa percepção que a salvou e não apenas essa ponte. O sangue ainda é fresco e com sabor de novo, mesmo passado tanto tempo naquele dia de outubro, onde descobriu que por mais ódio e dor que sentisse jamais quebraria. Quando sentiu pela primeira vez como é ter sua carne cortada pela audácia malvada de alguém. Todos os detalhes permaneceriam vivos dentro dela. A voz esganiçada lhe dizendo todas as palavras pesadas em seus ouvidos. Os gestos que a faziam lembrar que ela não tinha um reflexo, apenas a silhueta de um mamilo em sua boca para alimentá-la. Os toques exageradamente bruscos na direção de seu rosto. O corte por entre suas sobrancelha e pálpebra, fazendo-a derramar aquilo que fazia dela alguma coisa em que se apoiar. O DNA, sua marca espalhando-se por entre seu rosto e pingando no chão, desesperado em ser contido, coagulando toda a insensatez. Deixando que todas as hemácias levassem aquilo que era mais importante embora.

O discurso de defesa da horda transforma-se em linchamento, o mesmo que ela inadvertidamente em defesa própria fez com seu algoz, desse modo a vingança seria mais forte ainda, e foi paga da maneira mais violenta possível, com socos e um estilete comprado na livraria da cidade, desfigurando sua face e perfurando seu sexo. Ela não gritou, não lutou. Não havia porque lutar, muito menos ninguém que ajudasse. Apenas uma ponte, testemunha ocular de uma vida que se esvaziava por entre a saliva grossa da horda em seu rosto e o vermelho que teimava em não parar. Não havia alarmes e não havia surpresas. As pancadas eram as mesmas, as pessoas eram as mesmas. Tudo era tão parecido em sua vida, que ela sabia - aquele líquido a escorrer jamais deixaria de cair. Entretanto não podia correr, apenas poderia tentar sobreviver mais um dia. Assim era desde seu nascimento, não poderia ser diferente agora. Ela se lembra de ver todos os seguidores indo embora cuspindo pelo chão. Em especial um último que ao sair fez com que sua saliva se misturasse ao seu sangue no chão, deixando claro que apenas a mistura do escarro a faria igual. Deixada aos urubus e hienas, assim cheia de cortes, tudo tornava-se mais claro. Sangue e catarro trouxeram um entendimento maior do que a morte. Ela então se abaixa por debaixo dos restos de sua alma, suas mãos tornam-se pequenas pás. Começa recolher a mistura de saliva, escárnio e sangue pelo chão. A poça disforme começa a tornar-se um médio quadrilátero, algo levemente disforme, sobra de uma tela estampada pelo concreto, suas mãos já não mais são pás, tornam-se pincéis, o amontoado de secreções move-se aleatoriamente, pseudópodes revoltos dançam por entre as arestas gastas do calçamento, olham ao redor e certificam-se de que não existe mais ninguém, apenas ela e seus restos espalhados. Uma tela exata nasce então. Através do ar posiciona a canvas próxima de suas pernas, ela então começa a desenhar traços e mais traços vermelhos e brancos, seus dedos exalam as cores e as moldam, lentamente formas iniciam um ritual que poderá durar por toda sua vida, mas apenas naquele momento elas serão sua salvação. As feridas em seu rosto e corpo desenvolvem pequenos orifícios parecidos com bocas, línguas mínimas aparecem estancando o massivo sangrar e apenas deixam pequenos rastros de secreção saírem. Em cada gota um grito seco estala, no chão seco as cores tornam-se vivas ao mesmo tempo que fagocitam cada pedaço de sujeira a atrapalhar o desenho feito pelas mãos pincéis. Leves movimentos levam as cores para onde elas devem estar, deixando os tons mais nítidos, as gravuras de uma rupestre alma perdida dentro da evolução macho misógina onde fora criada. Tudo é uma coisa só. Suas mãos, o sangue e o desenho, nada mais importa.

Apertando cada vez mais os cortes, as dores sentidas eram impossíveis, cada vez maiores, ainda assim inicia uma dança com as mãos. Todo o sangramento que vinha dela lhe dava vida. Olhando para a poça ainda disforme, procura um melhor ângulo, uma melhor sombra e o melhor traço. Assim se fez. O quadro era exatamente o que queria ser, sua projeção libertária. Todas as rosas que ela podia imaginar cobrindo seu corpo machucado, as nuvens em que ela se deitaria depois de sentir todo seu líquido esvair. Os sorrisos sentidos secretamente embaixo da ponte, o amor que sempre sonhou, porém em toda sua vida estripado pelo destino fora. Tudo desenhado pelos líquidos que saiam de dentro dela. Sabia que essa era a única maneira de escapar. Sentia toda a aflição de sangrar, mas estancaria todas as feridas com os desenhos que ela fez no chão. Peixes estranhos em arpégio de cores derivadas em vermelho. Eles se movimentavam e lhe sorriam, em traços infindáveis. Tudo na mais perfeita ordem. Ela desenhou o mundo, seu mundo. Mesmo com um quase desfalecer sabia que era preciso fazer daquele corte vida. Lembrou quando lhe disseram que tudo daria certo se continuasse a acreditar, se mantivesse sua fé inabalável, o mesmo estupro mental consensual de sempre, mas dessa vez não. As mentes que mentiam em castas jamais saberiam de seu desenho, jamais entenderiam os tendões. Assim, ela percebeu algo que lhe escapou por quase toda uma vida, a solidão que se vive só é a mais dolorida, porém também é a mais linda.

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