O efeito de LSD em Nobat

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A primeira audição de “LSD” provoca muito instantaneamente em suas texturas e arranjos o que Nobat vai propor em suas palavras cantadas com uma desesperança já consentida. Não há ansiedade pela espera, mas apenas o desejo de que o futuro não seja mais um muro de onde não sabemos como descer, após subirmos com tanta rapidez, o limite de nossas ações impedindo que possamos atravessar para outro lado além dos dias secos da rotina. Teria a arte chegado a um labirinto em que o peso de sua própria representação nos fez temer dar passos espontâneos? Já vestimos tantas peles que não podemos mais reconhecer a nossa própria nudez interior? Talvez tenhamos aprendido tantas linguagens que perdemos a capacidade de soletrar a palavra silêncio em pura contemplação?

Nobat é um artista mineiro, lançou apenas um disco antes de embarcar nesse novo projeto de vida. Assisti seu show de pré-produção do álbum novo que vai se chamar O Novato, utilizando apenas um notebook e uma guitarra ou violão, revelou de maneira intensa para infelizmente poucos presentes o que esperar de um trabalho que se mostra grandioso, não em ambições mas sim em suas escolhas. Suas canções apresentam temas pertinentes aos dias atuais, possuem andamentos e tempos incomuns em relação as outras composições nacionais que alcançam status na rede e parecem montar um mosaico bem coeso para o registro a ser lançado em breve. Nobat deixa a impressão de que é um dos poucos artistas que absorveu trabalhos como In Rainbows, um clássico moderno do Radiohead ainda muito falado mas pouco digerido pelos artistas da sua geração.

Aproveitando o momento, fiz quatro perguntas para o Nobat sobre suas últimas descobertas musicais e o que ele pretende com suas novas composições. Leia a conversa abaixo.


A música LSD foi e é o início de uma nova forma de compor no seu trabalho? Como veio pra você essa ruptura de seu primeiro disco para essas novas canções que mostram também um cuidado maior com texturas e letras mais ambíguas, com mais sugestões do que afirmações que eram mais típicas do primeiro trabalho?

Sem dúvidas. “LSD” foi um importantíssimo laboratório de mudança e transformação de imaginário que já se fazia necessário tanto em minhas experiências artísticas quanto existenciais e sociais. Talvez ela seja, ou tenha se transformado, na música mais importante que já compus na vida porque me encorajou diversas mudanças internas, pautou uma série de coisas que se fizeram fundamentais pra sequência da minha vida. Naturalmente, ela permitiu que se revelassem aspectos da minha personalidade artística até então meio tímidos, reservados, outras influências e possibilidades que já existiam, mas que não tinham vez nem voz dentro do meu projeto.

Além das poucas canções que você liberou desse novo trabalho no Bandcamp, você vê um conceito para o disco novo? As canções possuem um fio de ligação de temas em comum?

Há sim um conceito muito forte que dá ao disco uma possibilidade de unidade – ainda que seja a única ou, no mínimo, uma das poucas. O nome do álbum, O Novato, já denuncia toda a questão: uma coisa de ser um novo “eu” pra quem já me conhece, mas especialmente de me ver num novo “eu” pra mim mesmo, essa maluquice toda. E nisso, como disse antes, entram e colaboram diretamente curvas artísticas, estéticas e existenciais muito influentes. As letras também acompanham esse processo que é inflado de muita ausência, muita falta de intimidade com todas as novas coisas que pautam meu olhar, com toda essa nova sensibilidade que se revelou e tomou as rédeas de todos os muitos e milimétricos tópicos que me compõem. Existem músicas sobre a inexistência de Deus, sobre a morte, sobre o suicídio, sobre São Paulo, tudo isso ancorado paradoxalmente meio que numa vontade muito novata mesmo de experimentar o mais intensamente possível todas as possibilidades que a vida permite, uma vontade nova de viver. Talvez seja esse o fio que desfila por todo esse novo imaginário e, por assim dizer, pelo disco.

No show da sua turnê de pré-produção, as execuções se resumem a guitarra, voz e um notebook com as bases, você pensou em gravar o disco dessa maneira ou a ideia era de gravar com uma banda em um processo mais orgânico?

Olha, terminei a maior parte da pré-produção do disco no meu quarto, mais ou menos como me apresentei em Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro mesmo, com guitarra, programações no notebook e minha voz. No entanto o próprio processo me sugeriu diversas outras possibilidades pelas quais desfilei sem medo, já que tudo era de certo modo uma novidade importante. Me encanta muito a ideia de trazer essa força da peculiaridade e da amplitude do eletrônico, mas acredito que tendo mais a tentar traduzir isso tudo pelo meio orgânico, apesar de que considero muito também a chance de misturar tudo – o que, por questões de produção, vai terminar sendo mais provável.

Você consegue me dizer três coisas que te inspiraram nos últimos dias ou meses? Pode ser livro, disco, filmes, pessoas...

Li há alguns meses o livro O Mito de Sísifo, do francês Albert Camus de quem já li quase tudo. Esse livro talvez seja corresponsável de toda essa minha loucura e nova fase ao lado de “LSD”, minha música. Sempre gostei muito de ler, sempre leio muito e desde que li esse livro não consegui ler mais nada. Deve haver outras coisas no meio disso, mas quero grifar aqui o impacto que rolou depois que terminei a última página. Outra coisa que descobri recentemente e que tá me fritando por completo é o Book Of Angels, uma série composta por mais de 20 discos, cada um feito por grupos e artistas de toda parte do mundo e é uma maluquice esquizofrênica de trincar. Tem o Secret 3, John Zorn, Azazel e umas viagens sinistras, tudo instrumental e bem bonito. Também me entorpece muito o trabalho do fotógrafo e artista plástico, Frederico Amoz; o violão do músico Terenzi e o sorriso da Luísa Gontijo que me faz sobreviver a tudo isso ileso – para terminar de um jeito bem cafona.

Texto por Marcos Nasc

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