Os melhores discos de 2014 por João Carvalho

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Os Melhores Discos de 2014 por João Carvalho - Altnewspaper

Escrever sobre fim de ano, e fazer listas, é uma tarefa inevitavelmente cansativa e eternamente clichê. E chega um ponto na sua vida em que até mesmo reclamar das coisas que são clichês se torna... chato. Então pra construir uma lista que nos salve dos momentos constrangedores de discussão política em cima do peru de natal, das odiadas piadas de tios espertinhos e daquela gostosa sensação decadente de festas de família completamente embreagadas, meus melhores álbuns desse ano são os trabalhos mais diferentes que eu ouvi dentro das suas respectivas áreas.

Listar os maiores acontecimentos musicais de um ano é também apontar os maiores acontecimentos de um povo, as piores tretas enfrentadas e todos os outros motivos que fazem com que essas pessoas façam música. Um bom observador perceberá que a maioria dos discos que escolhi vêm de Minas Gerais e eu vou argumentar com todas as minhas forças que não se trata de bairrismo, mas sim de um levante cultural cada vez mais forte, de uma cidade que tá ocupando as ruas, mesmo com a prefeitura fazendo de tudo para manter os cidadãos de bem em casa.

Victor Magalhães - Trago o Seu Amor

5-) Victor Magalhães - Trago o Seu Amor


Victor Magalhães já era conhecido como trompetista da brasileiríssima banda instrumental ICONILI, um som dançante, catártico e fellakutiano de Belo Horizonte, mas esse ano, o jovem assumiu o papel de cantor e guitarrista, ao lado de alguns colegas do grupo e outros nomes pesados de BH como Léo Marques para dar vida ao seu trabalho solo. O disco carrega uma tropicalidade ensolarada, ritmos mais dançantes como o carimbó, ao lado de letras que são ótimas pra cantar junto e que trazem um conteúdo bem bacana, também relacionado com a vivência em Belo Horizonte.

Douglas Din - Causa Mor

4-) Douglas Din - Causa Mor


Douglas Din é fruto, e vencedor, do Duelo de MC’s, inciativa que passou por um ano complicadíssimo em Belo Horizonte. Depois de rasteiras da Prefeitura, mobilização e um truncado e emocionante processo de crowdfunding, a galera tá aí, firme e forte. Queria colocar o Causa Mor aqui em nome do Família de Rua e de toda a galera do hip-hop. É um exemplo de primeira de como as letras do hip-hop mineiro ainda são insuperáveis, seja na crítica política jogada na cara ou na poética esperta que eu vejo tanto no Din. Destaque para a faixa "Político 2"!

Hierofante Púrpura - A Sútil Arte de Esculhambar a Música Alheia
3-) Hierofante Púrpura - A Sútil Arte de Esculhambar a Música Alheia


Hierofante Púrpura é uma banda de São Paulo com um nome muito foda. É o tipo de coisa que me dá a impressão de ter vindo de uma viagem tóxica muito complexa e o som dessa galera também pode ser entendido assim. Eles fazem um lo-Fi bem psicodélico com uma sensação bacana de som improvisado que te deixa sem saber o que é que te acertou na cabeça. Além de canções originais, A Sútil Arte de Esculhambar a Música Alheia traz uma série de covers bem ecléticos, que vão do Pena Branca e Xavantinho ao Againe.

Cloud Whale - Sleeplessummer

2-) Cloud Whale - Sleeplessummer


Cloud Whale é um projeto eletrônico do beatmaker Felipe Filgueiras (que inclusive já apareceu aqui no Altnewspaper). O som, que tem uma deliciosa onda experimental, é parte de um coletivo audiovisual que surgiu em Belo Horizonte chamado COSMOLEVE, o qual faço parte. Sleeplessummer é um rolê de samples, teclados etéreos, algumas das melhores e mais variáveis batidas que eu já ouvi na música eletrônica, além de uma promissora sensação de espiritualidade cibernética que te faz pensar. É um trampo conciso e viajante, com uma identidade bem singular, coisa cada vez mais rara no mundo da musica eletrônica.


Lupe de Lupe - Quarup
1-) Lupe de Lupe - Quarup


Esse talvez seja, na minha opinião, o álbum do ano, ou melhor, os discos. Com 21 músicas, Quarup (no Wikipédia, a palavra é um ritual de homenagem aos mortos ilustres celebrado por povos indígenas) é dividido entre um lado mais calmo e outro bem pesado, segundo o próprio pessoal da banda, e parece mostrar a Lupe de Lupe chegando ao ápice das suas características que sempre conquistaram a gente, seja com o jeito louco do Vitor de cantar, com as batidas quebradas e barulhentas ou mesmo com as melodias inesperadamente melancólicas e delicadas. É um orgulho pra todo ser mineiro que vive os perrengues que são a “cena” musical de Minas Gerais e um alívio de encontrar um representante (entre tantos outros) que explique a merda e a delícia que é viver nos dias de hoje.


Gringo


Julian Casablancas + The Voidz – Tyranny


Julian Casablancas + The Voidz – Tiranny


O Strokes foi um dos grupos inspiradores para boa parte das melhores e das piores bandas que surgiram desde os anos 2000. Depois de um histórico de ressurgimentos meio sem razão de ser, com álbuns que dificilmente se comparavam com os primeiros, Julian Casablancas, uma das cabeças por trás do Strokes parece ter ressurgido para compensar os anos jogados fora. Tiranny é provavelmente o álbum mainstream, se é que podemos chama-lo assim, mais sujo e estranho do ano. Com tempos quebrados, afinações inesperadas e uma estética que vai do metal ao eletrônico passando pelo pop e até mesmo por umas levadas tropicais, o disco é um exemplo muito interessante de reinvenção e coragem.

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