Fui pra rua contra o aumento

por - 12:08

1º Grande Ato Contra a Tarifa em São Paulo - 2015

No final do ano passado, o governador e o prefeito de São Paulo anunciaram que a tarifa de ônibus, metrô e trem iam subir. A ideia era que como eles avisaram em período de férias, evitassem com que existissem manifestações como as que aconteceram em junho de 2013. O que obviamente não rolou.

No mesmo dia do anúncio oficial o MPL convocou o pessoal às ruas da cidade, afinal, em 2013 o movimento e a população conseguiram barrar o aumento, apesar de ter gente, como o próprio prefeito, que nega a informação. De qualquer maneira, o ato tinha sido marcado para o dia 9 de janeiro, às 17h, em frente ao Teatro Municipal e pra lá nós fomos.

Estava temoroso quanto o que ia acontecer neste protesto por um motivo: a página do movimento foi tomado por um bando de gente estranha querendo avacalhar a pauta alheia e dizer o que eles deveriam fazer. “Isso não é uma causa. Vamos pra rua contra a corrupção. Tem tanta coisa mais importante. Vocês traíram o Brasil”, e por aí vai. Cheguei a pensar que poderíamos ver cenas lamentáveis como as que aconteceram no sétimo ato do ano retrasado, com direita e esquerda saindo na mão, literalmente. Por sorte, eu estava errado.

O Teatro Municipal estava cheio quando cheguei, por volta das 17h50. Policias militares acampavam no Largo do Paisandu, Praça da República e em todo o em torno do Shopping Light e da Praça Ramos. Era o que eles chamam de envelopamento. O MPL disse que o ato contou com 30 mil pessoas, a polícia militar, 2 mil. Fico com a minha ideia de que colaram entre 5, 6 mil.

Depois de definir o trajeto e começar a andar, a manifestação foi totalmente tranquila. Teatro Municipal, aquela ruela que o busão passa pra sair na São João, entramos na Ipiranga e fomos subindo a Consolação tranquilamente. Eu e o amigo que estava comigo fomos rindo, trocando ideia e vendo o pessoal pixar. “3,50, nem tenta”. Atentamos para um fato esquisito quando estavamos próximos a Praça Roosevelt. Em um poste, ao lado de uma agência bancária, tinham uns pedaços de paus encostados nele. Seria uma conspiração de alguém para que o ato desse merda? Enfim, continuamos no clima ‘esquerda festiva’, se divertindo com o protesto, tranquilo, observando as pichações, curtindo o cheiro do colorgin dos moleques. Vale lembrar que existiu um momento curioso. Próximo ao cemitério da Consolação, um grupo passou a gritar para a PM palavras de ordem que a corporação deveria acabar, polícia fascista e etc. Os caras podiam fazer o que? Isso mesmo, só cara feia.



[caption id="attachment_26197" align="aligncenter" width="720"]3,50 Nem Tenta Charge por Vitor T[/caption]
Depois do pessoal tirar uma onda com os agentes da lei, continuamos subindo a Consolação debaixo de um sol forte pra caralho. Em frente a Igreja Universal, mais diversão. “Sexo anal, contra a Universal”, berravam os manifestantes. “Não vai ter dízimo”, depois. Cerca de seis pessoas da instituição que estavam lá em cima filmando com seus celulares fizeram uma cara tão de bosta, que deu dó. Uma mulher, fazia o sinal de positivo ao contrário. Uma menina ao meu lado gritava tanto na parte do dízimo que eu achei que ela ia desmaiar. Depois de brincar com a igreja do Edir Macedo, o ato parou.

Fomos desviando o caminho pela calçada e tentando sacar o que aconteceu. A informação era de que rolava uma negociação com a polícia para que pudéssemos chegar até a Avenida Paulista, que estava a menos de 500m de distância. De acordo com os manifestantes, quem estivesse atrás da faixa, estaria de boa. Esperando a negociação, ali perto do Sujinho, ouvímos o barulho da primeira bomba. Esse é aquele momento em que você faz apenas uma coisa: olha para o rosto das pessoas que estão com você. A expressão era uma só: fodeu. Todo mundo passou a correr para trás ou na direção da rua Maceió (o meu caso). Chegando na Angélica, tava tudo tranquilo.

Sentei naquela praça do lado do Riviera e fiquei esperando com meu truta o que ia acontecer. Vi umas duas ou três prisões naquele momento, uns repórteres com cara de “e agora?” e um isolamento de praticamente toda a via feito pela polícia. Na Consolação, nada passava, na Paulista, eu via giroflex pra caralho. Continuamos ali, até surgir uma senhora explicando que ela tomou bomba, nunca tinha visto isso pessoalmente só pela televisão, que era solteira e chegava em casa a hora que quisesse. Conversamos um pouco com ela e quando o primeiro Brasilândia passou, ela foi embora.



[caption id="attachment_26198" align="aligncenter" width="795"]1º Grande Ato Contra a Tarifa em São Paulo 2015 Me dá ibagens. Foto por Mauricio Thomé[/caption]
Alguns manifestantes tentam reaguprar a manifestação. Bem na entrada da Paulista, um grupo começou a gritar “vem, vem pra rua vem contra o aumento”. Aos poucos, um pequeno apunhado de gente foi se juntando. Eles iam caminhando pela pista sentido bairro (do lado do MASP). Levantei e chamei meu camarada para vermos o que ia acontecer ali na Paulista. Fomos pelo lado oposto ao MASP e assim que chegamos em frente a Bela Cintra, umas duas bombas foram disparadas. Corremos de novo sentido Alameda Santos, onde inclusive ajudamos duas meninas que estavam se perguntando porque o pessoal tava correndo. “Mas eu não estou na manifestação”, “Não tem essa não, filha”, disse meu camarada. Fizemos o contorno e voltamos para perto do isolamento da polícia, que fechava a Avenida Rebouças. Ali, quando olhamos para a Paulista, vimos a fumaça e bombas que estavam chegando bem próximas a Consolação. Percebemos que essa era a hora de partir.

Fomos embora pela Dr. Arnaldo e começamos a encontrar um monte de gente que tinha participado do ato. Voltei para casa com uma dúvida: se a polícia militar não tem preparo para lidar com alguns adolescentes que estão ali para provocá-los, como eles conseguem ser pais? Imagina o filho de um deles fazendo birra no supermercado e eles jogando spray de pimenta. É tudo o que penso.

De qualquer maneira, a manifestação foi tranquila até a PM ficar maluca, de novo. O MPL disse em seu Facebook que “os manifestantes, porém, foram violentamente reprimidos pela Polícia Militar, que lançou bombas de gás, bombas de estilhaço mutilante e atirou com balas de borracha para impedir que a marcha chegasse à Av. Paulista. 51 manifestantes foram presos arbitrariamente e torturados, e pelo menos 5 foram feridos e levados ao Hospital das Clínicas”. O movimento, inclusive, já marcou um novo ato. Dia 16 de janeiro, às 17h, na Praça do Ciclista.

Foto do abre por Mauricio Thomé.

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