O mundo é um lugar maravilhoso

por - 12:06

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4.


Mais uma vez no hospital, com Rosário Fantini. Dessa vez uma infecção. Pouca água no corpo. Saímos de manhã. Oito horas estávamos no hospital. Aí foi feito todo o procedimento básico inicial. A doutora chamou. Eu estava lendo Jung quando tudo isso aconteceu. No final do livro. Os sonhos de Henry-Henry. Aí começou a demorar tudo. Perguntei ao segurança onde poderia encontra-la aí ele apontou para as salas médicas. Em cada porta uma surpresa. A primeira não tinha ninguém. A segunda eu vi dois joelhos. A terceira tinha uma médica mexendo no celular, sem fazer nada, só mexendo no celular. Na última uma médica atendia uma pessoa. Aí eu perguntei se ela sabia onde estava Rosário Fantini. Ela disse que não.

Fui no segurança e perguntei se havia outro lugar que as pessoas poderiam ir nesse hospital para que se sentissem melhor. O segurança disse que tinha a sala de medicação.

Cheguei nessa sala e vi uma cadeira com a bolsa de Rosário Fantini. Ela deve ter ido ao banheiro, foi isso que eu pensei. Fiquei lá parado. Demorou. Aí eu fui numa enfermeira e perguntei se ela tinha visto Rosário Fantini. Uma voz, por trás de uma cortina disse: “estou aqui, Esposito”. Era a voz de Rosário. Fui até a cortina e a vi deitada. Meu deus, deve ser algo bem sério, foi isso que eu pensei. Perguntei se ela estava muito doente. Ela disse que não. Depois eu perguntei por que então a colocaram num leito. Ela disse que não sabia. Depois ela disse que já esteve pior e nem a colocaram numa cadeira.

Tinha um papel com coisas escritas lá. Era o prontuário. Acho que é assim que chamam. No prontuário dizia que ela tinha que tomar soro de um medicamento. A mão de Rosário estava furada, mas não tinha soro. A enfermeira não conseguiu acertar minha veia, foi isso que Rosário disse. No prontuário também dizia que tinha que rolar um exame de urina. Você fez o exame? Foi isso que eu perguntei. Ela me disse que sim. Eu queria sair dali. Um hospital não é um bom lugar pra se ficar. Em alguns dias seria o grande ano novo, cheio de amor, paz, alegria e alguns deslizes da vida.

De repente apareceu uma enfermeira. Mulher, tu num bebe água não? Foi isso que a enfermeira perguntou. Devemos beber água, por causa de nossas veias. Aí a enfermeira trocou de mão e conseguiu acertar na veia. O soro começou a pingar. Não era um grande soro.

De repente uma pequena fome tomou conta de mim. Eu só tinha três reais e cinquenta no bolso. Aí eu tinha que comer algo humilde. Rosário, vou comer uma pipoca lá fora, foi isso que eu disse. Ela disse sim e sorriu. Não comi pipoca nenhuma. Comprei um real de café e um cigarro unidade. Bebi, traguei e voltei ao hospital. Toda aquela catinga ficou em mim, aquela catinga de cigarro. No hospital eu corri logo pro banheiro. A bacia parecia que alguém tinha colocado uma banana de dinamite num tolete. Tudo espalhado. Lavei meu rosto, meus braços e saí de lá.

Quando voltei Rosário estava dormindo. E aí eu me lembrei. Tinha uma senhora. Uma senhora bastante antiga. Ela tava dormindo. A boca e os olhos abertos. Ela estava dormindo, mesmo com os olhos abertos. Aí tinha as netas dela. Eram charmosas. Tinha uma de óculos que era a mais bonita. A outra não tinha óculos. Eram mulheres bonitas. A vovó deve ter sido bonita um dia. Aí elas estavam lá com a vovó. A vovó não estava bem, mas todos diziam que a vovó estava forte. A vovó acordou. Aí ela estendia os braços para o grande vazio. Aí as pessoas davam a mão para a vovó e a vovó apertava com toda a força. A netinha de óculos ia e vinha. Ela olhava para a vovó. Talvez estivesse pensando no ano novo em casa com a vovó. Um hospital não é um bom lugar pra se ficar. Pareciam ser uma família bem sucedida. Quem sabe num iate com a vovó? Depois eu vi que a mãe das netinhas também estava lá. A vovó não era a mãe dela. Aí era isso. A vovó esticava os braços para o infinito vinha alguém e segurava a mão da vovó.

Então a porta se abriu e entrou Doctor John. Um belo Jaleco o de Doctor John. Uma prancheta. Parecia um grande ator de um grande seriado da América. Era por ele que todos estavam esperando. Doctor John chegou perto da netinha que usava óculos. Os dois sorriram. Doctor John se aproximou da vovó e começou a falar com ela. Alisou a cabeça da vovó e falou seu nome. Aí ele voltou toda a atenção para a netinha. Era uma frase, um sorriso. A magia do fim de ano causa essa alegria nas pessoas.

Fui até o leito de Rosário e o soro já tinha acabado. Fui procurar algum enfermeiro pra tirar. Veio outra enfermeira, não a mesma que aplicou. Aí a agulha ficou lá na mão de Rosário, sendo que sem o soro. Ela continuou deitada. Encostei minha cabeça nas pernas dela e ficamos calados. Depois ela disse que o remédio doía. Eu disse que doía porque era um grande remédio. Ficamos calados, na mesma posição. Alguns beijos nas pernas, uns alisados e uns sorrisos. Ninguém queria estar ali. Aí eu decidi ficar em pé. Minhas pernas doíam. Minha coluna também. Aí Doctor John ainda estava lá, com seu bom coração, prestativo e sensível. A Netinha ainda sorria alegre como um beija flor. Aí eu ouvi que Doctor John não era o grande médico aguardado por todos. Na verdade era outro médico.

Quando o grande doutor chegou ele não parecia um médico. Eu pensei que alguém deveria investigar isso. As bochecha do doutor era tudo inchada de álcool, e não era de uísque. Ele parecia estar de ressaca. Mas ele era o grande doutor. Fiquei encostado na porta. Vovó, aperte minha mão com força, foi isso que o grande doutor disse. Depois ele disse isso pra outra mão da vovó também. Doctor John ainda estava lá, sempre presente. Aí eu fui andando até o leito de Rosário. Ainda consegui ver o grande doutor dando umas tapinhas de leve na barriga da vovó. Vi Rosário deitada, com muito frio, por causa do ar condicionado. Foi nesse momento que aconteceu aquele grande estrondo. Foi alto e rápido, mas presente. Logo em seguida subiu o fedor de merda, bem forte. Em todas as paredes do leito aquele fedor ficou. Parece que todo o fedor do mundo ganha mais força quando se está com fome. Senti vontade de fumar outro cigarro. Uma enfermeira trouxe um lençol para Rosário. Eu pensei que aqueles lençóis fossem cheios de moléstias. O fedor ainda estava lá. Fiquei pensando quem que trocaria as fraldas da vovó. Não seria Doctor John, nem as netinhas.

Talvez não tenha sido efetivado mesmo o produto final. Talvez tenha sido apenas um grande gás que estava lá dentro da vovó. Mas o fedor não saia. Ele estava lá. Todos eram bastante educados e não comentavam nada. Depois apareceu uma senhora. Rosinha o nome dela. Era Rosinha que cuidava da vovó. Talvez Rosinha fosse passar o ano novo com a Vovó. O fedor ainda estava lá. Mas aí era hora do pirão de peixe da vovó. Rosinha ficou lá, dando o pirão de peixe. Em alguns momentos a vovó levantava os braços. Rosinha segurava a mão dela e dizia que a vovó tinha muita força. O pirão entrando na boca da vovó, o fedor saindo da cama da vovó e Rosinha sendo bastante prestativa. Mastiga vovó! Rosinha dizia isso. Todas as netinhas e a mamãe saíram do leito e começaram a mexer nos celulares. Talvez estivessem dizendo o quanto a vida é dura, talvez estivessem dizendo que o amor pela vovó era eterno. Talvez estivessem dizendo que nunca abandonariam a vovó. Daí eu pensei em três coisas. Eu pensei que aquele fedor tinha algo de simbólico com o novo ano que estava chegando. Talvez se eu lesse outra vez o livro de Jung eu conseguiria encontrar a ligação. Eu também pensei que pelo menos uma pessoa naquele leito de hospital desejou que a vovó morresse, por um bom motivo. E eu também pensei o quanto que o mundo continua sendo um lugar maravilhoso.

Texto por Angelo Souza, o Graxa.

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