Pra que tantas bombas?

por - 12:09

[caption id="attachment_26255" align="aligncenter" width="795"]2º Ato Contra o Aumento da Tarifa em SP Foto por Renan Cavalcante[/caption]
Na semana em que o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, comparou o MPL com os extremistas islâmicos que invadiram o Charlie Hebdo, fui ver o que aconteceria no segundo ato contra o aumento das tarifas. Quando colei pro lado da Avenida Paulista vi que tinha muito policial. O choque estava com máscara, uma identificação esquisita, maior que protocolo de operadora de telefonia, já a ROCAN e os PMs estavam com os nomes. Pelo menos uma coisa correta.

Havia um clima estranho que podia se sentir no ar, provavelmente pela repressão que aconteceu no último ato. Trombei dois amigos em frente ao Cine Belas Artes e de lá voltamos para a Paulista. Na Praça do Ciclista, a concentração me acalmou um pouco. A Fanfarra do Mal fazia seu barulho, black blocks se vestiam a caráter e um moleque subia na cabine da PM. Um grupo de ‘mascarados’ pedia para ele parar, outro gritava em pról da atitude do cara. Eu só ria.

Quando a manifestação começou a andar, saquei um monte de P2. Acho engraçado como é meio fácil reconhecer os caras. É só você procurar alguém que não tenha nada a ver com o perfil das pessoas ali, como se fosse o Mr. Bean tentando se disfarçar ou o Marquinhos das pegadinhas do João Kleber. Enquanto a marcha andava, tudo tranquilo. Os policiais faziam o famoso envelopamento e palavras de ordens eram gritadas “vem pra rua vem contra o aumento”, “o cobrador é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo” e por aí vai, os curiosos até dançavam no ritmo da Fanfarra do Mal. Para você ter noção de quão de boa estava, alguém passou gritando “é o melhor goleiro do Brasil, Rogério”.

Descemos tranquilamente até a Consolação com a rua Dona Antônia de Queirós. Lá de cima, eu vi a rua fechada. Comentei com um truta “vai dar merda ali embaixo”. Íamos e observávamos sacos de lixo e pedras, algumas que pareciam até terem sido colocadas ali (veja a foto). Quando cheguei próximo ao local que a PM tinha cercado, a primeira bomba foi lançada. Até agora ninguém entendeu direito o que aconteceu. Uns dizem que um black block foi preso, outros, que jogaram pedra nos agentes da lei. De qualquer maneira, corremos em uma daquelas travessas da consolação e entramos num Mini-Mercado Extra. No final da rua, policiais gritavam para as pessoas voltarem. Não voltei não, tiozão. As portas do supermercado fecharam e fiquei lá dentro, com meus dois amigos. O tempo passou e saímos. Parecia que a passeata tinha acabado, mas fomos descendo a Consolação e percebemos que não.



[caption id="attachment_26256" align="aligncenter" width="795"]2º Ato Contra a Tarifa Foto por Renan Cavalcante[/caption]
O fotógrafo dessa matéria, o Renan Cavalcante, tinha ido pra linha de frente com sua câmera e seu capacete. Liguei pra ele e consegui a informação de que estava tudo tranquilo e o pessoal se concentrava no Theatro Municipal. Fomos pra lá. O tempo da nossa caminhada fez com que a manifestação chegasse até a Prefeitura e usando os conhecimentos do centro de São Paulo, para evitar mais bombas, colamos pra baixo do viaduto. Metrô Anhangabaú fechado na Xavier de Toledo, Terminal Bandeira ok. Subimos aquela escadaria e pronto, Prefeitura. Ali era meio nítido que o protesto já caminhava para o seu fim, tinha até uma galera com instrumentos indo embora. Achei que aquele era o momento de partir, de arrepiar a moringa. Já estava cansado e parecia que era isso, que não ia ter mais nada. Quando caminhava para o Anhangabaú, para saber se o metrô já estava aberto, deu merda. Soltaram rojões em cima de alguns policiais, ninguém sabe se foi um P2, um black block ou qualquer pessoa do mundo, e aí virou zona. Bomba pra caramba, violência, truculência e corre corre. Tentei ir em um bar em frente à estação, só que o japonês não deixou. “No, no, está fechando”. “Ô meu senhor, olha como tá a rua”, “no quero saber, sai, sai”. Saí triste né, mas quando subi a 7 de Abril, parecia outro mundo. O tradicional samba de sexta comia solto, para quem tava ali, nada acontecia.

Fui para a Praça da República e desci as escadarias do metrô. Um cara pediu grana pra voltar pra Franco da Rocha, mas eu nem tinha. Voltei pra casa com aquela sensação que me toma no final de toda a manifestação em que o MPL está envolvido e que a força da polícia é totalmente desproporcional, que tem um monte de coisa que tem mó valor e a gente não vê, tipo uma pá de árvore na praça, as crianças na rua, o vento fresco na cara, as estrelas e a lua. Amanhã vai ser maior e no Tatuapé.

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