Revisitando um clássico: CARAVAN (Juan Tizol / Duke Ellington)

por - 12:08

caravan
Soube que Whiplash está concorrendo ao Oscar em algumas categorias. sinceramente, isso pouco me importa; mas de tanto pipocarem boas críticas e alguns bons comentários de colegas "manjadores", quis sacar também e, de modo geral, é um bom filme: algo tipo Menina de Ouro do Clint Eastwood - sem a parte vida de merda do final - numa versão FOR DRUMMERS, não dummies. compreendendo de uma forma mais abrangente, Whiplash serve pra retratar obcecados em geral também. O TK Simmons tá um escroto de merda, muito bom!



[caption id="attachment_26267" align="aligncenter" width="795"]Miles Teller como o anprendiz Andrew Neyman e TK Simmons como o instrutor Fletcher Miles Teller como o aprendiz Andrew Neyman e TK Simmons como o instrutor Fletcher[/caption]
Mas vim aqui pra falar de outra coisa: a trilha. De arrebentar, claro, cheio de standards do jazz executados de forma cirúrgica, não poderia sair ruim; não teria como um filme sobre obsessão, jazz, intensidade e limites não dar certo. Otto Preminger já sabia disso, tanto que no clássico O Homem do Braço de Ouro, ele só botou um viciozinho em pico pra dar mais vividez na história de Nelson Algren, mas o princípio é o mesmo. Não tão genial quanto Preminger, mas Damien Chazelle conseguiu dar seus pulos pra fazer de Whiplash um bom espetáculo.

"Caravan", essa foi a premiada pelo roteiro do filme pra se mostrar ao que veio. O trombonista Juan Tizol a compôs pra ser executada como um dos carros chefes, durante muitos anos, pela sempre magnífica orquestra de Duke Ellington. Quando gravada em sua primeira sessão, o tema central de Caravan foi escrita para clarineta, então o bandleader era o clarinetista Barney Biggard, mas Caravan ficou famosa mesmo pelas performances energéticas do Duke.


Meu interesse sobre "Caravan" vem já de um tempo: de época em época, quando descobrimos "novos" ritmos, "novas" sonoridades, vai-se passando de estilo em estilo e encontrando algo inusitado em cada um deles. No caso, passei ao longo dos anos sacando alguns estilos sonoros modernos - moderno é o que vêm após a música clássica erudita, só pra deixar claro, entre jazz traditional, jazz bob, avant-avant garde e groove, lounge, exótica, afrocubana, ska, soul, rockabilly, zoot suit, arabesque, leste europeu, até hip hop, e em todos esses estilos, estava lá a "Caravan" de Tizol e Ellington sendo interpretada, cada um à sua maneira. É um standard por excelência da genialidade calcada na simplicidade da linha-base. É como uma "jingle bells" do jazz: nasceu pra reinterpretar e ser interpretada.

Escolhi, dentro de dezenas de reinterpretações, 14 versões que contrapõe umas às outras: na versão do trio Medeski Martin & Wood, por exemplo, o guião do baixo já encaminha uma versão solta, groove, enquanto a seguinte do Tokyo Ska Paradise Orchestra é num galope urgente e seco, um ska desabalado, típico do estilo nascido na Jamaica.

A terceira vez de "Caravan" aqui é o motivo que se inclui o filme Whiplash. Uma interpretação firme e macia, milimétrica, cabeceada pela bateria de Buddy Rich, que apesar dos andamentos improvisórios e caóticos do miolo, começa e termina exatamente no mesmo BPM lento, vem seguido dos romenos Fanfare Ciorcália em sua virtuosa interpretação do mais legítimo som cigano do leste europeu.

A quinta faixa é a versão que eu mais aprecio do interprete original, Duke Ellington, um piano que transita entre o ragtime e o free jazz, o novo e o velho, acompanhado por dois "monster cookies", Mingus no baixo e Max Roach nas baquetas. Outro mestre do jazz, do braço latino Chucho Valdès e sua orquestra com uma improvável "math-percussão" abrasiva, faz a sexta versão de Caravan.

Ritmos de exótica-arabesque aparecem com Rabih Abou-Khalil, aonde se sente que de fato, a percussão mais uma vez recebe privilégio na composição e emcabeceia a versão. Pra destoar do anterior, segue uma versão visceral entre o exótica e o rockabilly dos finlandeses Laika & The Cosmonauts. A colaboração regional vem com a Orquestra do Maestro Cipó, que gira entre a levada trad jazz, festa-baile, e uma sinistra camada "soundtracked" que dá um ar de brasilidade revisitada.

O hip hop também bebeu na fonte: encontrei essa versão remixada com samplers da versão destruidora de Thelonius Monk, que comparece na faixa seguinte em apresentação na íntegra, uma obra de arte do bebop. Pra fechar a seleção, uma versão vocal-big band com Bobby Darin, o rei dos crooners; o criador Les Paul numa versão tiki-latina, e a clássica dupla Santo & Johnny reinterpretam sua Caravan no seu surf music com aquela pitadinha de country bluegrass.

Ouça no Mixcloud:



O Wash se animou e fez um link com 30 versões dessa música, incluindo as 14 que ele colocou neste post. Baixe aqui.

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2 comentários

  1. Excelente artigo!! Vou ouvir todas e já adianto o pedido: gostaria de saber de quais discos são essas versões que você compilou.

    Vale lembrar a versão do Brian Setzer também ;)

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  2. Rafael, desculpa o atraso pra responder! de fato a versão do Brian Setzer Orchestra é muito boa, mas não coloquei nessa coletânea de 14 versões porque priorizei as mais diferentes, que saiam mais do padrão seguido pelo tema.

    Mas pra compensar, fiz um pacote com 30 versões - incluindo essas 14 aqui - pra download! enjoy.
    http://www.mediafire.com/download/hi0uk1bce8c0ehe...

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