A Volta da Lupe de Lupe a Belo Horizonte

por - 12:06

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Choveu pra caralho em Belo Horizonte na última quinta feira. Eu peguei o ônibus até Savassi e me esqueci do guarda-chuva, de forma que quando finalmente encontrei o endereço, eu era mais água do que gente. Quinta feira também fez barulho pra caralho em Belo Horizonte, de um jeito que não se fazia aqui há um bom tempo. Na reta final de 2014, o Lupe de Lupe lançou o Quarup, um album-pedrada de mais de duas horas de duração que fez estardalhaço na cena musical e na imprensa cultural brasileira. Eu me senti feliz pelos caras, e fiquei esperando pelo momento curioso em que eles viessem fazer os shows em Belo Horizonte, porque a relação com a cidade sempre foi uma parada meio conturbada, e as letras das músicas dos meninos sempre deixaram isso bem claro. Numa época politicamente tão complicada, é como se todo esse "amor mediano" de BH não aceitasse algo um pouco mais selvagem.

Tive medo de que a chuva, numa quinta feira, fosse deixar o show vazio, mas apesar dos pesares, a Geração Perdida contou com um público fiel que apareceu na abertura oficial da A Autêntica, a casa de show mais nova da cidade. Com a promessa de se dedicar integralmente à musica independente e autoral, abrir os trabalhos com uma apresentação de duas horas e meia do Quarup é, com certeza, uma escolha honrosa.

Agora, a apresentação por si só.

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Assistir o Vitor cantar traz sempre a sensação intensa e agridoce de perceber na pele a dor daqueles gritos tão crus e sinceros, só pra segundo depois ver ele rir timidamente no canto do palco, e isso é um dos pontos que faz a banda tão única. Cícero tocava a bateria com tanta força que ficava difícil acreditar que ele e a bateria sairiam inteiros dali. O Gustavo sustentava a onda um tanto quanto quieto, o que é sempre uma visão curiosa no meio de tanta virada, caos e desafino. Foi a primeira vez em muito tempo que o Renan tocava com a banda em Belo Horizonte e mesmo assim parecia completamente em casa.

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Aliás, era esse o clima geral na Autêntica: parecia um grupo ( um pouco grande demais) de amigos numa comemoração familiar, e o público recebeu bravamente o repertório pesado e longo. Além de uns 80% das músicas do Quarup, algumas mostras dos discos anteriores. E os quatro se deram muito bem, com aquela capacidade especial e hipnótica que poucas bandas tem de apresentar um repertório tão tenso e ao mesmo tempo deixar o público amarrado, na palma das mãos.  E mesmo depois da meia noite, um intervalo, algumas cervejas e um par de moshpits, quando a banda parecia se despedir, compreensivelmente cansada, o público continuava pedindo por mais uma - ou mais de umas.

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Quando o show terminou, ainda chovia um bucado, e eu fiquei pensando em como a vida das bandas independentes de Belo Horizonte sempre foi uma coisa complicada. O reconhecimento absurdo que se recebe na internet de gente do mundo inteiro é uma coisa muito linda, mas às vezes a impressão que dá é a de que as pessoas não sabem o que tão perdendo quando dizem que "não se faz mais música como antigamente". E aí na vida, no dia a dia de uma cidade que na maioria das vezes não vai dar uma foda pra como você se sente ou pro que você possa ter a dizer, como é que se faz pra não enlouquecer?

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Eu ouvi gente dizendo muita coisa curiosa sobre o som da banda. "Quando alguém me pede pra explicar o som da Lupe, eu mando o link, porque não dá pra explicar", ou algo do tipo. "Manda o link do Quarup e fala pra ouvir o disco todo! (risos)". "Tem alguma coisa de diferente no som dos caras. Quando eu saio de um show deles, eu saio diferente, sabe?" me disse um brother muito gente boa que eu conheci recentemente e trocou ideia comigo no show.  E eu fico com um momento específico do show na cabeça, quando tocaram "Eu Já Venci", e a galera da plateia pulava com os punhos cerrados pra cima feito loucos, como se tivessem vendo um amigo de muito tempo se formar, ou ganhar um Oscar, um Emmy, ou algo do tipo. Acho que esse é o melhor presente que uma banda pode pedir. Fãs que vão no seu show quando chove pra caralho numa quinta.

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Eu conheço muito pouco dos meninos da banda, no quesito pessoal. Mas o que me interessa muito, além do som, é a sensação de que a música deles diz uma quantidade absurda sobre quem eles são, sobre o que já passaram, e mesmo sobre o que é viver onde e quando a gente vive atualmente. E é por isso mesmo, por essa espécie de conexão primitiva e não-falada que às vezes se desenvolve quando ouvimos a musica de alguém, que eu me sinto livre e no direito de dizer que a Lupe de Lupe realmente já venceu.

Pra sacar o resto das fotos que eu tirei no show, é só clicar aqui.

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2 comentários

  1. Descreveu bem demais o que rolou na última quinta, João. Eu também sempre saio do show da Lupe de um jeito diferente. Como quando a gente tá com muita fome e finalmente come algo muito gostoso, é o mesmo tipo de satisfação. É difícil pedir aos caras para fazerem mais shows em BH, conhecendo a cena autoral e como as coisas são feitas aqui. Mas o fato de ter uma casa de responsa, que abre as portas para o autoral, que o coloca no lugar onde deveria estar, é do caralho!

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  2. Texto muito bem escrito... Parabéns!!

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