Carnaval do Recife: Reflexões da Folia

por - 12:08

[caption id="attachment_26379" align="aligncenter" width="695"]Marco Zero Ei pessoal, ei moçada, o carnaval começava no Galo da Madrugada. Foto por Clélio Tomaz[/caption]
Nosso carnaval saudoso não é tão antigo assim. Pelo menos este modelo que ocorre como conhecemos no Recife. Até 2002, a "abertura" do Carnaval do Recife se resumia ao desfile do bloco Azulão de funcionários do Bandepe e uma tímida cerimonia de passagem da chave da cidade ao Rei Momo. No dia seguinte havia o incontestável Galo da Madrugada e o restante dos foliões se dispersava pra curtir as ladeiras de Olinda ou um ou outro folguedo pelo interior de Pernambuco.

Com a criação deste modelo de "Carnaval Multicultural", veio junto uma cerimônia de louvação aos Maracatus de Pernambuco com a regência de Naná Vasconcelos fazendo o que nunca se havia feito até então: apaziguar as rixas entre as nações de maracatu para que estivessem juntas em um mesmo espetáculo. A apresentação naquele ano deu tão certo que virou uma atração fixa celebrando sempre a abertura dos festejos na sexta-feira à noite.



[caption id="attachment_26380" align="aligncenter" width="695"]Nana Vasconcellos A multidão me acompanha e eu vou... Foto por Beto Figueiroa[/caption]
E este foi só um dos grandes trunfos deste modelo de festa popular que foi adotado e continuado nas gestões municipais seguintes do Recife. Além de promover grandes shows em palcos, este carnaval planejado deu visibilidade a agremiações, troças e blocos em geral que mendigavam recursos para sair nesta época. O grande salto de qualidade nesta programação foi justamente conciliar tanto as atracões "de rua" quanto as "de palco", deixando lado a lado o colorido das fantasias de caboclinhos, maracatus, bois e caboclos de lanças com a pirotecnia dos shows em vários palcos convergindo naturalmente os principais nomes para o Marco Zero da cidade. Nada mais simbólico e apropriado, claro.

Mas neste momento quando se questiona tanto no Recife as contratações quanto as não-contratações de bandas, fica o lamento por ter se privilegiado tanto o aspecto da grade de shows em detrimento a essa composição toda da programação, que traz desde os blocos líricos de frevo aos desfiles de escolas de samba, que infelizmente estão tendo menos prestígio e espaço nos últimos anos. É preciso lembrar que a folia da capital pernambucana não pode ter como atrativo apenas um lineup de festival, uma vez que nem todas as atrações convidadas possuem um repertório apropriado para a folia, fazendo o mesmo show que fariam em qualquer cidade em qualquer época do ano. E neste aspecto o Carnaval do Recife nao se difereria muito de um Coachella, respeitando as devidas proporções, com vários palcos e atrações diferentes tocando ao vivo, mas sendo que aqui o clima popular e a diversidade de sons faz toda a diferença.



[caption id="attachment_26378" align="aligncenter" width="695"]Palco-marco-zero-lenine_Foto_Bruno_Campos Esse lugar é uma maravilha. Foto por Bruno Campos[/caption]
É por isso que depois de tantos anos com este modelo de carnaval poderíamos tomar a liberdade e repensar a própria programação questionando até coisas consideradas "imexíveis" na grade. Queira ou não, corremos o risco de ver um carnaval repetitivo sem diferenças perceptíveis a cada ano, uma vez que sempre vemos as agremiações de Maracatus no primeiro dia e sempre Alceu Valença no encerramento da programação.

Este é um bom dilema: como preservar este momento de importância cultural e equilibrar com os anseios do publico que lota o Marco Zero em busca de animação? Por que não dar uma sacudida geral? Por que não ousar mais e trazer blocos de outras cidades do país para a festa? Por que não trazer expoentes do Carnaval de New Orleans, Veneza ou do Caribe ao Recife por exemplo?



[caption id="attachment_26381" align="aligncenter" width="695"]Carnaval em Porto Rico, na Italia e no Maranhão: Por que não um intercâmbio? Carnaval em Porto Rico, na Italia e no Maranhão: Por que não um intercâmbio?[/caption]
Além de sugestões, seria a hora de haver mais planejamento e conseguir divulgar esta programação de Carnaval antes mesmo de terminar o ano corrente ou pensar em formas de divulgar além de nosso circuito tradicional de mídia em TV nacional. De toda forma, seria ainda melhor pensar em um slogan mais interessante. Pois se a nomenclatura "Carnaval Multicultural" caiu em desuso, há centenas de opções melhores do que "nada é Igual". E diferente de tudo o que o Recife viu nestes anos de folia, a tradição dos blocos na rua e o estalo nos primeiros acordes de Vassourinhas ainda será o motor de nossa animação.

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1 comentários

  1. Bela reflexão, Jarmeson!

    Imagino que para a prefeitura do Recife (atual gestão PSB) o momento de mudar já passou (e jamais fez falta) e a zona de conforto só fortalece com o aumento da presença da mídia do sudeste (dita nacional), de (mega) empresários, lobby (como o case O Rappa) e ETC. em cima deste evento milionário;

    A esta altura continua como moeda de troca entre os gigantes patrocinadores, políticos, partidos e os já citados por mim;

    Continuo lamentando profundamente o comportamento dos artistas pernambucanos que a cada ano age de acordo com sua contratação ou "esquecimento";

    De fato o formato além de desgastado é copiado dentro e fora do estado; e a especulação em torno de vários nomes, inclusive os pernambucanos , trará em curto prazo um aumento surreal no orçamento a partir dos famigerados cachês;

    Por outro lado, penso que o foco sempre deveria ser os verdadeiros artistas com identidade com o carnaval e cultura que sim, tem perdido ano a ano, espaço nos maiores palcos, mas ao lado da tradição formar público e incentivo a novos nomes, pois sabemos que um dos motivos do pernambucano se acabar nos headliners nacionais é o simples fato de todos saberem todos aqueles frevos, ver os mesmos blocos, maracatus e demais manifestações artísticas/culturais.

    Mas sem pressão popular e da classe artística (que só pensa em palco e cachê) nada, absolutamente nada, andará/mudará.

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