Ainda há lampejos de civilização neste açougue bárbaro que já foi ahumanidade

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The-Grand-Budapest-Hotel
É indiscutível que Wes Anderson alcançou dimensão intangível dentro de sua obsessão estética e nos presenteou novamente com um belíssimo trabalho repleto de cores, truques de luz, enquadramentos precisos e coreográficos, tal como a linguagem corporal de um elenco de peso escolhido a dedo. Quem, em seus mais utópicos devaneios, imaginaria contemplar F. Murray Abraham, Jude Law, Tilda Swinton, Ralph Fiennes, Willem Dafoe, Edward Norton, Adrien Brody, Owen Wilson, Jeff Goldblum, Bill Murray, Léa Seydoux e Tom Wilkinson contracenando juntos? Anderson idealizou, platonizou e mais, tornou real. Este é The Grand Budapeste Hotel, senhoras e senhores!

A obra se revela como um quadro, uma pintura caricaturada assinada por quem está ali para nos inserir numa misteriosa fábula sobre assassinato, disputa por heranças, discursos sobre valor da amizade, pureza do primeiro amor, além de citações poéticas aleatórias a cargo do carismático concierge, Mr. Gustave (Ralph Fiennes). E porque não somatizar isso à comédia? O bom humor está presente em grande maioria dos takes, seja no embalo divertido da trilha sonora ou em forma de diálogos extremamente bem escritos e ensaiados para que tudo soe como uma grandiosa apresentação teatral, onde o cômico se faz notar nos mínimos detalhes.

The Grand Budapest Hotel é um filme sobre memórias póstumas, sobre lembranças que permanecem intactas, fictícias ou não, mas que a arte, neste caso um livro fez questão de eternizar. A partir daí mergulhamos numa história de leveza e graciosidade sem igual, recheada de camadas temporais e cronologia narrativa bastante coesa, salvo a pequenos deslizes de continuidade, que entretanto tornam-se insignificantes perante ao contexto lúdico e estética encantadora do longa.

Engana-se, porém, quem tende a pensar em The Grand Budapest Hotel como mera sequência de projetos anteriores do diretor, como Moonrise Kingdom (2012). Caminhando entre críticas de outros colegas, noto um padrão de julgamento, onde o filme é caracterizado como um notório espetáculo para impressionar impressionáveis. Insinua-se timidamente, por outro lado, devidos reconhecimentos ligados à direção de arte, “mais uma vez inspiradíssima”, e só. Me resta a conclusão de que a universalidade simbólica, tão primada pela obra, não os atingiu. O ser humano tende a rejeitar o que não entende.


The Grand Budapest Hotel está para Wes Anderson como Hugo Cabret está para Martin Scorsese, e é nesse patamar que nos é oferecida sua obra mais cinefílica. Na citação de Tom Wilkinson , que vive o autor do livro no longa, já em idade avançada, encontramos a chave para esse universo: “- Escritores não inventam, reproduzem tudo que veem e escutam”. Existe muita nostalgia inserida na obra de Anderson, mas é muito mais do que apenas o retrato de um acontecimento, trilha sonora contemplativa e visual deslumbrante. É na maneira que ele encontra de nos contar uma história que a mágica acontece. Quase como num road movie, os personagens amadurecem consideravelmente durante a trama, a medida que as dificuldades se tornam frequentes. E como se isso não fosse o suficiente, atrelado a performances mímicas que remetem a um cinema clássico, a cereja do bolo surge ao fim para nosso deleite: o looping narrativo. Temos um desfecho exatamente igual ao início do filme. As camadas vão sendo desfeitas, os simbolismos escancarados, a estrutura linear se mostra e só nos resta lamentar por ter sido tão rápido. The Grand Budapest Hotel é um filme para se assistir incontáveis vezes e jamais enjoar.

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