Revisitando Clássicos: "Iron Man"

por - 11:06

Black Sabbath

Não sei se essa missão que dei a mim mesmo foi uma boa ideia, sinceramente. Sempre tive sérios problemas ao misturar trabalho com diversão, aquela coisa de "perder a graça" no que te dá prazer por transformar aquilo numa obrigação. É como - aqui eu suponho - trabalhar como ator pornô: no começo o gaiato chega todo pimpão, achando que não pode existir trabalho melhor!... "trepar e ganhar dinheiro! Tirando o fato de me sentir um prostituto, que mal há em ganhar dinheiro com prazer?", o cara pensa. Mas passado um tempo na profissão ele vê que a coisa não é tão fácil assim, e se vê preso numa rotina que, em sã consciência, nem deveria ser classificada como rotina. Pronto, lá se vai a graça da vida.

Mas vá lá, que estou exagerando: não vou precisar trepar por dinheiro com ninguém pra escrever essa resenha, claro. Por gentileza então, considere somente a figura de linguagem em relação à algo como música. algo como música boa. Estamos entendidos então, né?!

Um clássico, numa compreensão generalizada, é uma canção/composição que atinge qualidade memorável. Mozart é um clássico, correto? Coltrane, é um clássico, certo? Certo! Ramones, Motorhead? Clássicos! Alguém dúvida? Pois bem, aqui me dedico à outro clássico inquestionável: Black Sabbath. Hoje vou focar na genialidade do fazedor de riffs Tony Iommi, do baixo impenetrável de Geezer Butler, do peso até então insuperável, criando um estilo próprio, que o baterista Bill Ward adicionou no kit de percussão, e a... o... bem, e tem o Ozzy. O Ozzy! Puta que pariu.

Como eu dizia, vou focar numa única composição do quarteto de Birmingham, infelizmente, porque esse é o intento do texto. Se fosse outro, era melhor me preparar pra uma biografia, indubitável a competência e criatividade dessa banda. Não vou rezar o pai nosso pra párocos, se é que em entendem. A música é "Iron man". Você já ouviu, e mais de uma vez na vida, tenho certeza. Você pode ser um garoto, um septuagenário, morar na Inglaterra ou na Índia, gostar de Rihanna ou Charles Aznavour, mas com certeza você conhece "Iron Man", do Black Sabbath.

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"Iron Man" foi o segundo single extraído do Paranoid, album citado em qualquer lista de "melhores albuns do rock da história", "melhores riffs de guitarra", "clássicos do heavy metal" ou algo gênero. A letra, escrita por Geezer Buttler (você achava que era do Ozzy? por favor, né..), e ao contrário do que se pensa sobre ser tema do personagem homônimo da Marvel Comics, conta uma história mais interessante do que parece: é sobre um paradoxo temporal! Sério: um cara viaja para o futuro e presencia uma grande catástrofe. quando ele volta pro passado e tenta relatar o fato, ninguém acredita na lorota escabrosa e adivinhem? Num acesso de raiva incontrolável, ele, o Homem da Armadura de Ferro, causa a grande catástrofe que ele mesmo previu! Não é uma boa história? Pois é.

E "Iron Man", por ter nascido clássico, ganhou a simpatia de geral. Foi recriada em versões lounge, funkie-soul, eletro, jazz, avant-garde, cumbia, e até hindi. Nessa coleta eu consegui encontrar 21 covers significantes e satisfatórias, portanto não vou deixar nenhuma de fora.

Vamos começar com homenagens singelas, refletivas dentro do próprio estilo que o Black Sabbath ajudou à moldar. Nada melhor que o Ministry de Al Joungersen demonstrando o que aprendeu direto da fonte, modernizando o heavy-metal pra um possível futuro distópico de selvageria e devastação. na sequencia vem o Cancer Bats, que não conheço assim tão bem pra tecer elogios, mas que repetiu o molde sem paumolescência. É um ponto a ser levado em conta. O que fecha a trinca metal é a versão dos japoneses Electric Eel Shock, interessantíssima por sinal, porque dobra o andamento da versão original.

A bagunça começa na faixa da banda Add N to (X), que faz uma versão eletronica numa linha Atari 8-bits. Seguidos de outro grupo que quebra pras releituras remixadas, Four Tet, só que dessa vez preferem fazer uma versão acustica com aquele beat de Incredible Bongo Band, o mesmo usado pelos Beastie Boys em "Looking Down the Barrel of a Gun". Na sequência uma versão do Stereolab, um eletrolounge característico do grupo desde sempre, e outra versão acústica, dessa vez da ótima Giant Sand. Pra fechar, o cover mais fofo que já foi feita do clássico sabbathiano: a versão kitsch-cute do Cardigans - a minha preferida depois da original.

O combo latino Brownout participa uma versão pique salsa brass, mas sem perder o peso das guitarras; a banda curtiu tanto a ideia que fez o Brown Sabbath, um projeto inteiro só de covers sabbáthicos. Aproveitando a mudança de ritmos, o Lounge Brigade emenda mais um cover salseada, o Ondatrópica latiniza ainda mais com uma cúmbia-version, e os estranhos Kumbia Queers também emendam na cúmbia, mas metendo uns tecladinhos kraftwerkianos e mantendo o peso guitarrístico, além de latinizar o Ozzy com uma letra castelliana.

O jazz é bem representado por uma releitura groove bop do Casualties of Jazz, e duas versões avant-garde: primeiro do trio de Minneapolis The Bad Plus, seguidos dos italianos caóticos Zu, acompanhados pelo icônico Eugene Chadbourne.

As duas versões mais esquisitas dessa coleta ficam por conta do estranho interesse da sonoridade hindi pelo quarteto inglês: o Opium Jukebox enche a composição de forma genial com delays, reverbs, tablas e cítaras. O grupo Soreng Santi já apela mais pra psicodelia bollywoodiana com guitarras encharcadas de fuzz e uma linha vocal que só faz sentido pra encenar uma bela dancinha em grupo de filmes indianos.

Pra encerrar em grande estilo, o último bloco começa com a versão desleixada do NOFX no começo de carreira, aquela coisa de "tocamos assim e assim tá bom", como costuma ser ainda hoje, acredito. Ao que não se pode dizer o mesmo da versão dos Replacements, que se assemelha à um fim de ensaio, quando as ideias para novos desempenhos já se esgotaram e sobrou "aquela que todo mundo sabe tocar" (menos o Paul Westerberg, pelo visto). A versão "thug life" do Bustha Rhymes, que deu um jeito de retocar as letras na veia hardcore hip hop, sobre a frase central cantada pelo próprio Ozzy, e por fim a versão sem comentários cantada pelo William Shatner, o Capitão Kirk em pessoa, que te deixa com uma imensa interrogação, um estridente "por quê?" no topo da cabeça ao final da execução.

Ouça a playlist abaixo e faça o download aqui.



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