#TerçaGringa: Nanaki, o projeto solitário do Mikie Daugherty

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A internet é a principal revolução de nosso tempos, pois mesmos distantes geograficamente, estamos todos conectados na nuvem. Um bom exemplo é a nossa #TerçaGringa deste mês. Não faço a mínima ideia como, mas o músico Mikie Daugherty, da Ilha de Man, no Reino Unido, fez contato por e-mail com a gente e apresentou seu projeto de música instrumental Nanaki, além do seu selo o Small Bear Records. Achei o som tão bacana, que não apenas resolvi usá-lo como destaque em março, como também vamos ter a nossa primeira #TerçaGringa com entrevista.

Sobre o Nanaki, outrora uma banda, hoje é um projeto de um homem só. O Mikie grava tudo com a ajuda do computador e consegue transpor toda melancolia contida nos temas usados em suas composições para a música. No começo do ano passado o projeto soltou um EP chamado Afterlight com cinco faixas e títulos intrigantes, como "Fuck Spotify". No último dia de 2014 veio o álbum The Dying Light com 12 canções e diversas influências literárias e sonoras muito interessantes. Após escutar os trabalhos por um tempo, resolvi responder o e-mail e acabamos tendo um longo papo sobre teoria musical, o tal do post-rock, o processo de gravação do Nanaki e quais os objetivos do Mikie com seu som.

Tanto o EP quanto o disco cheio estão disponíveis no esquema pague o quanto quiser no Bandcamp do projeto. Aconselho o play antes de começarem a ler a entrevista abaixo.


Nanaki é uma banda ou um projeto do Mikie Daugherty? Existe uma formação como banda? 

Agora sou apenas eu. Quando a ideia do Nanaki foi criada, inicialmente a banda éramos eu e a baixista Emma Ryan. De fato, foi ideia dela o Nanaki ser uma banda instrumental, embora parte do material no primeiro álbum (e de todos os outros) foi gravado inteiramente por mim. Depois de um tempo, fomos capazes de criar um grupo juntos e entre 2003 e 2007 nós tocamos ao vivo em shows com formações de 4-6 membros. Nós nunca gravamos muita coisa como uma banda real, eu acho que realmente a única coisa que foi lançado a partir desse período é "Gizmo", que apareceu na compilação local Alt-Rock 2 (lançada pela Small Bear Records em 2004). Esta canção foi escrita principalmente pelo guitarrista Steve Halsall que também tocou na gravação dela, junto com Emma e eu.

Depois que a banda basicamente se separou, ou fracassou, eu não tive nenhum pensamento sobre retomar o projeto ao longo de vários anos. Em 2012 e 2013 eu gravei algumas canções de natal para um álbum festivo da Small Bear Records como Nanaki e eu acho que isso me inspirou a recomeçar a compor músicas nesse estilo novamente. Então eu escrevi e gravei o EP Afterlight. Não muito tempo depois que o EP tinha sido lançado, senti a necessidade de fazer mais e por isso eu gravei,  no final do ano passado, o que se tornaria The Dying Light.

Em termos de escrita não é tão diferente de como eu trabalhei no passado, quando se tinha a intenção de ser para uma banda real. Eu gosto de tocar em bandas com outros músicos, mas no caso de Nanaki, fazer isso por conta própria me permite realizar a minha visão por completo. Igualmente importante para mim é que eu sou capaz de ser bastante autossuficiente e eu não tenho que esperar por outras pessoas organizarem a sua programação e seu tempo para o projeto. Várias das faixas do The Dying Light foram gravadas no mesmo dia em que eu as escrevi e finalizadas mais ou menos um ou dois dias depois. Se eu tivesse que esperar até que outras pessoas estivessem prontas, haveria uma boa chance do processo ter demorado muito mais tempo ou mesmo que esses registros nem tivessem saído. Seria bom poder trabalhar com um baterista de verdade, e tocar ao vivo com outras pessoas, mas eu não acho que é algo muito provável no momento.

Quantos álbum a banda Nanaki tem?

Nós lançamos um álbum em 2003 chamado Fashion Is The Enemy Of All Art (fashion é o inimigo de toda arte) que atualmente não está disponível. Alguns anos atrás pretendia-se reeditar esse disco, junto com uma grande quantidade de material antigo e inédito pela Small Bear Records, mas agora parece bastante improvável que isso vá acontecer. Algumas destas músicas antigas foram remasterizadas e estão na versão CD-R do Afterlight.

Também em 2003, três faixas da Nanaki apareceram na compilação local Alt-Rock, que saiu por conta de Mack Sayle e eu. Aparentemente foi um álbum com vários artistas, mas na realidade apenas duas pessoas participaram dele – nós dois juntos como Circus World, eu como Nanaki e Harmony Dischord e Mark como The Fender Crash, Black River Falls e Evil Andy. Esta compilação foi reeditada em 2012 pela Small Bear Records, junto com faixas extras que tinham aparecido no Alt-Rock 2 no ano seguinte, incluindo "Gizmo", já mencionada acima. A Alt-Rock 2 pode realmente ser chamado de um disco com vários artistas, já que um bom número de bandas locais apareceram nela, mas os extras são apenas coisas minhas e do Mark.

Depois disso, não houveram lançamentos por quase uma década, até o Afterlight no começo de 2014 e The Dying Light na véspera de 2015.

Como foi a sua infância na Ilha de Man? O que isso influcienou no The Dying Light? Eu pergunto isso porque algumas influências soam bem tristes no álbum.

Minha infância foi realmente muito boa. A Ilha de Man é um lugar muito bonito e naquela época ainda era uma estância turística muito ocupada, por isso, foi um ótimo lugar para crescer. Infelizmente não é o que costumava ser, voos baratos para Espanha, entre outras coisas, mataram o comércio turístico local, mas ainda é especial. Pessoas que estiveram aqui muitas vezes a descrevem como "mágica". Os visitantes são muitas vezes surpreendidos com a vitalidade da cena musical local também. De qualquer forma, várias das minhas memórias como criança envolvem coisas como caminhadas e piqueniques no campo, visitas à praia (a praia Douglas é muito feia agora, mas era boa na época) e geralmente momentos felizes com vários membros da família. Talvez as coisas não fossem sempre tão legais depois que eu fiquei mais velho, mas não há histórias de uma infância terrível nem nada. Se existe algum motivo para se estar triste com relação a isso, é o de que esses dias se foram, assim como algumas das pessoas com quem eu passei esses momentos.

Mas geralmente eu não sou realmente uma pessoa triste ou melancólica. Eu acho que a tristeza é algo em que eu sou muito bom, mas o fato é que eu sou mais otimista. Eu tendo a me conectar mais com a escuridão, mais com a música mais triste, porém, alguma coisa parece ressoar mais em mim e tem uma certa beleza que eu não encontro em canções mais felizes. Então, sim, é um álbum triste e muito da inspiração dele vem da escuridão ou da tristeza, mas isso não quer dizer que eu estava desanimado enquanto criei as canções. Na verdade, eu acho que é quase impossível fazer música quando você está realmente desanimado.


Quem são seus ídolos? Isto se ainda existem ídolos.

Eu não sei se eu tenho ídolos exatamente, mas há uma abundância de músicos e bandas que eu tenho uma grande dose de respeito e cuja música eu amo. Existem vários artistas que me influenciaram ao longo dos anos e que mudaram a maneira como eu percebo e faço música, mas neste momento eu me esforço para soar como eu, em vez de adorar a outras pessoas e tentar soar como eles. Se eu consigo obter sucesso fazendo isso ou não eu não sei, mas com certeza é um dos meus objetivos. Acho que um ponto comum entre os diversos músicos que eu admiro é o senso de individualidade. Por isso, embora seja quase impossível não ser influenciado por aquilo que você gosta e absorver coisas a partir deles, intencionalmente ou inconscientemente, o que eles realmente influenciam em mim é o desejo de ser eu mesmo e fazer as coisas de forma diferente.

Há tanta música que eu amo que pode ser difícil para reduzi-lo a algumas influências importantes, mas gosto de Smashing Pumpkins, Pixies, Sonic Youth, Low, Nick Cave & The Bad Seeds e My Bloody Valentine, todos deixaram uma grande impressão em mim em termos de possibilidades musicais, particularmente na guitarra, que é o meu primeiro instrumento. Falando como Nanaki, Mogwai certamente é uma das primeiras influências e inspiração, não apenas porque eles eram principalmente uma banda instrumental e praticamente minha introdução neste mundo musical. De certa forma, agora é quase mais importante para mim que eu não pareça como eles, porque eles lançaram uma grande sombra sobre o reino do “post-rock”, aonde é bem fácil de ser visto apenas como mais uma imitação barata deles e isso não é algo que eu gostaria de ser. Eu realmente gosto das trilhas sonoras do Akira Yamaoka em Silent Hill, embora o som que eu faça seja bastante diferente da maioria de suas músicas. Mas recentemente, eu vejo ele como uma ligeira influência sobre o meu trabalho.

Fale sobre a origem do nome da banda. Por que Nanaki? Alguma relação com o som feito pelo projeto?
Nanaki é o nome de um personagem do videogame Final Fantasy VII, embora ele apareça apenas algumas vezes no jogo, normalmente sendo chamado Red XIII. Foi um jogo que eu adorava e joguei muito com amigos e colegas de banda quando ele saiu e lembro-me de pensar em algum momento que Nanaki seria um bom nome para uma banda. Então, quando nós decidimos começar essa banda eu sugeri este nome e todos concordaram. Então, realmente não tem nada a ver com a música, apesar de ter sido a primeira de várias referências aos jogos que eu fiz ao longo dos anos. 'Zanarkand' de Fashion Is The Enemy Of All Art, ‘Saint Alessa’ do Afterlight e ‘Yorda’ do The Dying Light são todas referências de jogos em seus títulos (embora ‘Saint Alessa’ seja a única que foi realmente inspirado em um jogo, musicalmente).

Você gosta do termo post-rock?
 Eu sou indiferente a ele, realmente. Eu conheço um monte de bandas que não gostam do termo, mas eu não tenho nada contra ele, além de tentar explicar o que isso significa para as pessoas que nunca ouviram falar. Eu tendo a me referir ao que eu faço como Nanaki como post-rock, porque parece ser o termo óbvio mais próximo ao som. Eu acho que dá pelo menos uma vaga ideia do tipo de música que eu faço, para aqueles que estão familiarizados com o termo, pelo menos. Para mim, algumas das coisas que eu escrevi não soam como post-rock tradicional ('Fuck Spotify' do EP Afterlight é um bom exemplo) e espero que eu não caia na categoria genérica de clone da Mogwai/ Explosions In The Sky, entre outras bandas. Porém, no geral o som instrumental e a melancolia consideravelmente barulhenta são mais próximas do post-rock do que qualquer outra coisa. Art-rock, ou mesmo apenas rock alternativo podem funcionar também, mas eu realmente não me importo como você quer chamar o som, desde que você ouça.

Comente a frase: “Arte é perigosa. É uma das atrações: quando deixa de ser perigosa, você não quer mais.” (Duke Ellington)

É um grande pensamento, mas eu não tenho certeza quão verdade isto é realmente. Eu geralmente me sinto atraído por música com, pelo menos, uma pitada de escuridão, talvez possa ser considerada perigosa por alguns, mas é realmente? Seria Nanaki perigoso? Talvez pare seus ouvidos, provavelmente trará alguns danos ao longo dos anos.

Você se considera um nerd? Isto é um problema?

Se eu penso em mim como sendo um nerd? Não. Se eu sou um nerd, que as outras pessoas dizem que eu sou? Muito possivelmente. O termo 'nerd' geralmente implica inteligência e paixão, então eu não tenho nenhum problema com isso. Eu acho que um monte de coisas que eu gosto, como romances de fantasia, música underground e jogos de computador não são o que seria considerado legal pela maioria das pessoas "normais", mas eu realmente não me importo para o tipo de diversão mais popular. Eu acho que todos os músicos são essencialmente nerds, você tem colocar muito esforço para aprender a tocar da melhor maneira possível. Sei por experiência própria que o tipo de conversas que ocorrem entre os músicos é chato e/ou confuso para a maioria das outras pessoas!

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Você pensa na música como um processo de estudo?

Para mim, a música trata-se principalmente de criatividade e expressão, não é algum tipo de exercício técnico ou qualquer outra coisa. Eu sou completamente autodidata, nunca tive qualquer tipo de aula. Se eu tive algum tipo de estudo foi lendo revistas de guitarras desde que eu comecei a tocar e ouço música praticamente todo dia. Eu sei um pouco de teoria, provavelmente muito mais do que muitas pessoas esperariam, mas eu nunca pratiquei nem nada. Eu toco pelo amor a música, não para que eu possa aprender escalas, etc. Eu tenho certeza que um monte do conhecimento que adquiri ao longo dos anos tem algum impacto sobre a forma como eu componho, mas normalmente é um processo muito mais instintivo. Provavelmente isso ajuda quando estou tocando teclado, que comparado com a guitarra, eu sou totalmente iniciante, mas o fato de eu saber quais notas irão funcionar, faz com que seja muito mais fácil de fazer o que quero.

Como é o show do Nanaki? Qual foi o melhor e o pior show da banda?

Bem, não existe um show da Nanaki desde, eu acho, 2007. Não existe mais a banda, sou apenas eu. O que eu gostava quando nos tocávamos ao vivo? O barulho. Era realmente muito alto. Na verdade não era intencionalmente, é só que nosso baterista batia tão forte que havia pouca escolha a não ser pôr em marcha os amplificadores para serem ouvidos! Intenso como deveria, nós realmente colocávamos muita força em nossas apresentações. Até o final do set, o baixista geralmente batia com tanta força que ele estaria espirrando sangue para qualquer um perto do palco.

Olhando para trás, uma das melhores apresentações que eu lembro foi em um show beneficente de 24 horas para o Tsunami no início de 2005. Eu só lembro de nós estarmos no nosso melhor momento e que tocávamos de uma maneira realmente poderosa. O pior show foi definitivamente abrir para a Mother Vulpine, a banda que o cara do Pulled Apart By Horses costumava tocar. Ele começou bem, mas eu quebrei uma corda bem cedo, então quando eu mudei as guitarras uma coisa ou outra deu errado e meu som ficou cortando. Eu fiquei frustrado e acabei tendo algum tipo de ataque de pânico ou algo assim e joguei minha guitarra do palco e sai. Eu acho que hoje em dia é uma bela história do rock and roll, mas na época não foi muito divertido.

Sobre o processo de produção e estudo da música, pode ser um limitante para o método criativo?

Eu diria que há um argumento para ambos os lados desta discussão. Eu acho que é verdade que o conhecimento musical e teórico podem levar as pessoas a escrever e tocar de uma forma que eles consideram "certo", mas, ao mesmo tempo, saber como as coisas funcionam pode certamente deixar as coisas mais fáceis ou inspirá-lo em novas direções. Pessoalmente, eu raramente penso teoricamente quando estou compondo ou tocando, mas eu sei o bastante para saber o que vai funcionar quando vou adicionar um novo instrumento, que certamente pode facilitar as coisas. Significa, também, que eu sei como usar a nota "errada" ou acorde se eu quiser que alguma coisa soe desagradável ou fodida. Mas novamente, é bem mais instintivo para mim, eu estou mais interessado em como alguém sente o nosso som, a emoção que transmite, ao invés de se é a escolha "correta", na linguagem musical. Eu também estou na música experimental e fazer coisas com a guitarra e efeitos que você "supostamente" não deveria estar fazendo, por isso, nesse situação, estudo e teoria saem pela janela! Se parece bom é bom, independente de como você chegou a esse ponto, na minha opinião.

O som instrumental te limita a passar sua mensagem ou amplifica?

Mais uma vez, você poderia provavelmente ver esta questão de duas maneiras. Eu acho que de alguma forma, por vezes, a música pode transmitir emoção e sentimento de forma mais eficazes do que qualquer outra forma de arte. Então, dessa forma, eu não me sinto limitado de forma alguma por ser instrumental. E o fato é que isso significa que eu não tenho que escrever letras ou cantar para passar a mensagem e isto é provavelmente melhor! Ao mesmo tempo, você não pode compartilhar pensamentos e ideias sem o uso de palavras, embora eu às vezes tente fazer isso um pouco com os títulos de músicas, como "Fuck Spotify" (que está no Afterlight). Eu acho que isso, de forma sucinta, afirma adequadamente meus sentimentos sobre esse assunto.

Você tem algum objetivo com a Nanaki?

Tudo o que eu quero é fazer a melhor música que eu posso, e ter pessoas para ouvi-la e apreciá-la. Eu realmente acredito no que eu faço, especialmente o novo álbum, e eu acho que há um monte de pessoas no mundo que iriam gostar dele. O desafio é fazê-los ouvir em primeiro lugar e, se o fizerem, para dar-lhe uma chance de ouvir corretamente. Vim de uma pequena ilha e não ter dinheiro algum para a promoção não facilita esta tarefa, mas estou muito grato pelo apoio que tive de blogs, zines, de rádio e podcasts. Espero que mais pessoas encontrem a música de alguma forma também.

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