Born to Zine Entrevista: Maren Mantovani (Stop The Wall)

por - 11:08

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Em plena era da internet, existem iniciativas louváveis sobre a produção com esmero de uma mídia informativa das mais populares do underground mundial. O zinismo, por exemplo, segue vivo e ativo no Brasil e fora dele. zine, ou fanzine, é a forma contraída da expressão em inglês “fanatic magazine”,que em geral são publicações feitas para um público específico de determinada subcultura, como o nome já diz, diante da necessidade de furar os bloqueios que a mídia tradicional traz a determinados temas. Acima de tudo é uma publicação independente, escrita, produzida e distribuída pelos seus produtores. É o caso do "Born To Zine", fanzine político e cultural, construído por várias mãos, colaborativo e organizado pelo potiguar Shilton Roque e contando com diversas participações. Você pode, e deve, ler a primeira edição neste link. Caso queira adquirir uma cópia física, faça isso através do contato: [email protected], ao custo de contribuição voluntária acrescido do valor da postagem, ou se estiver em Natal, no Mahalila Café e Livros.

Na primeira edição do Born to Zine, eles fizeram uma entrevista bem legal com a Maren Mantovani, do movimento Stop The Wall. Eles nos enviaram o texto e liberaram de postarmos toda a ideia aqui. Ou seja, este não é um texto nosso, apenas estamos disseminando a informação para quem tiver interesse, como sempre fizemos.

Maren Mantovani POR Bibiano Girard

A campanha palestina popular contra o Muro de Apartheid (ou Stop the Wall) foi criada em 2002 a partir da necessidade de construir uma coordenação entre as iniciativas locais, espontâneas, nas aldeias palestinas onde Israel começou a destruição das terras para a construção do Muro. O Muro que tem até 8 metros de altura e já passa de 810 km de extensão está sendo construído em torno de cidades e comunidades palestinas encarcerando-as em verdadeiros guetos, roubando terra e recursos naturais das comunidades palestinas, além de impor um completo controle a qualquer movimento das pessoas entre as cidades palestinas. O Muro é um projeto horrendo de limpeza étnica.

Maren Mantovani é responsável pelas relações internacionais do Stop the Wall, após muitos anos morando na região a jovem agora viaja o mundo com o objetivo de construir laços de solidariedade e apoio, reunindo-se com políticos, artistas, acadêmicos e movimentos sociais. O Zine conversou com a Maren para entender um pouco do que acontece naquela região e o que nós brasileiros temos a ver com tudo isso.

Maren, quanto tempo você morou na Palestina, quais são os problemas cotidianos mais comuns?

Morei por oito anos na Palestina. Foram anos muito ricos de experiências, seja por ter vivido uma realidade de continua opressão, invasões militares, controle completo da vida através de soldados israelenses, seja por ter vivido numa sociedade em luta, solidária e determinada a defender seus direitos.

Talvez o problema mais grave da vida cotidiana na Palestina é que nunca se sabe qual vai ser o próximo problema para enfrentar. O ser humano tem uma capacidade de se acostumar a quase tudo e encontrar mecanismos de lidar com a situação. Tem gente que há anos não pode deixar sua pequena aldeia por causa do muro. Quase metade da população masculina já passou pelo menos uma vez por um cárcere israelense. Mas o pior é que nunca se sabe se hoje poderá passar pelo posto de controle entre uma aldeia e outra ou não, se talvez chega uma invasão militar, se talvez chegam para te prender, se chega uma ordem de confisco de tuas terras ou uma ordem de demolição de tua casa. As razões por tudo isso são tão arbitrarias que se vive simplesmente feliz por hoje não ter acontecido nada ou prestando solidariedade a quem ficou no alvo da ocupação israelense.

Em meio a esse cenário qual a cena que mais te deixou chocada nesse período?

Tem muitas coisas chocantes que vivi nesses anos, de dor e crueldade que não imaginei antes de chegar a Palestina. Mas gostaria de falar de duas mensagens que recebi em agosto enquanto Israel atacou a Faixa de Gaza matando mais de 2200 pessoas. No mesmo dia recebi um link com um vídeo de uma manifestação israelense com gente torcendo e gritando ‘hoje não teve escola em Gaza, amanhã não vai ter porque não vão ter crianças vivas’ e recebi uma mensagem de um professor palestino em Gaza agradecendo pela solidariedade e nos desejando energia e entusiasmo na luta. Nunca foi assim claro para mim como a posição do opressor empurra pessoas normais à expressões desumanas e como também a resistência cria generosidade.

Nesse ano (2014) Gaza viveu um conflito onde foram mortos 2200 palestinos e 70 israelenses, o que configura um verdadeiro massacre. A imprensa internacional noticiava que o mesmo fora provocado pelos Palestinos, usando como álibi um assassinato a três israelenses, o que é inadmissível como explicação. O que pensas que realmente iniciou tal conflito?

Penso que temos de começar do começo. O massacre em Gaza esse ano (2014) não foi o primeiro mas o quarto ataque militar de Israel a Faixa de Gaza desde 2006. Desde 2000, Israel gradualmente isola Gaza até o resto do território palestino que mantem ocupado e em 2006 fechou completamente as saídas e entradas de Gaza, seja para pessoas, seja para produtos. Há oito anos Gaza está sob um cerco completo, medieval, criminal. Sequer os pescadores palestinos arriscam, se vão mais longe de uma zona arbitrariamente delimitada por Israel no mar para pescar são mortos. Há uma década a política de Israel contra a população palestina em Gaza se transformou de uma politica de ocupação, limpeza étnica e colonização em uma política de claro genocídio.

Tendo em conta isso, a justificativa do assassinato de três israelenses em circunstancias misteriosas longe de Gaza a três semanas do ultimo ataque parece absurda.

Ao longo dos anos, o território Palestino vem sendo reduzido exponencialmente, você poderia nos explicar como Israel vem conseguindo isso e qual o papel dos Estados Unidos e do grande capital nessa ação?

Para manter políticas de contínua agressão militar e colonização é necessário três elementos fundamentais: poder militar, recursos econômicos e respaldo internacional a nível diplomático.

Israel é o quarto exército mais poderoso do mundo. Europa e EUA tem contribuído muito para armar Israel e transferir tecnologia militar a este, incluindo bombas atômicas. O veto garantido no Conselho de Segurança da ONU para qualquer resolução que não agrade a Israel é um dos exemplos de como os EUA garantem respaldo diplomático.

Em termos puramente econômicos, as politicas de colonização e guerra criam gastos muito altos: Israel gastou até hoje 2,1 bilhões de dólares para construção do muro e 17 bilhões de dólares para a construção dos assentamentos, mencionando somente dois exemplos. O ataque à Gaza criou gastos para Israel de mais do 2,5 bilhões de dólares.

Mas Israel mantem uma série de mitos para promover sua imagem e suas empresas internacionalmente, e assim consegue mercado suficiente, financiamentos e espaços para inversões ao exterior para poder financiar estes gastos. Suas exportações são majoritariamente nos setores da ‘segurança’, das armas de guerra, agronegócio e gestão da água. Todas as ‘vantagens comparativas’ que Israel promove para conseguir contratos e espaços para essas exportações e tecnologia são baseadas na ideia da superioridade militar israelense contra o povo palestino, a colonização da terra palestina e o racismo onde está a raiz da presumida ‘superioridade cultural e civilizadora’ sobre o mundo árabe.

Lamentavelmente, o mundo continua a comprar a tecnologia experimentada contra o povo palestino e isso cria um lucro importante para sustentabilidade econômica das politicas israelenses.

As vezes acontece também que Israel compra empresas sem publicizar tal compra e assim ninguém o nota. No Brasil, por exemplo, entre o 30 e 40% do café consumido é israelense. A empresa multinacional Strauss Elite comprou as marcas de café Três Corações, Fino Grão, Santa Clara e recentemente a Itamaraty. Dessa maneira a empresa israelense explora a terra, os trabalhadores e consumidores brasileiros e pode transferir esses lucros a Israel. Entre outros utiliza esse dinheiro para apoiar as tropas especiais do exercito de Israel.

Outro espaço fundamental de apoio internacional a Israel é no âmbito da cultura. Israel utiliza a cultura para transmitir esses mitos e desviar a visão de seus crimes contra o povo palestino. Mantêm uma operação de comercialização muito custosa chamada “Brad Israel” (“Logomarca Israel”). Como parte disso, Israel tenta trazer artistas de todo o mundo ao seu estado e promove a participação israelense em eventos culturais em tudo o mundo. Para acabar com esse tipo de apoio a Israel, desde a Palestina se convoca as nações ao boicote cultural, além do boicote econômico e um embargo militar.

O Brasil assistiu estarrecido ao longo de todo o massacre a violência praticada por Israel, mas já informastes em conversas anteriores que o Brasil tem fortes relações com o estado de Israel, que relações são estas e até que ponto elas colaboram para a segregação naquele território e para o genocídio praticado contra o povo palestino?

O Brasil como Estado tem importantes relações econômicas e militares com Israel. Desde o 2010 o Brasil mantem um tratado de Livre Comercio com Israel que abre o vasto mercado brasileiro a Israel sem dar quase nada em troca, posto que a população de Israel é de seis milhões de pessoas o que equivale a um bairro de São Paulo.

Em nível militar, o Brasil é o quinto maior importador de armas israelenses do mundo. As maiores empresas militares israelenses - Elbit Systems e Israeli Airspace Industries - tem subsidiárias no Brasil e constroem suas armas diretamente aqui. Essas empresas vendem armas testadas nos massacres como esse julho/agosto em Gaza e tecnologia desenvolvida pelo Muro e os assentamentos ilegais ao Brasil, entre outros, e mantem assim sua capacidade de desenvolver sempre a mais sofisticada tecnologia de repressão do povo palestino.

Uma série de contratos públicos com empresas israelenses existe também no âmbito civil. Por exemplo, a empresa israelense de água, a Mekorot, tem uma série de contratos no Brasil. A Mekorot é responsável por roubar a agua do povo palestino e isolar comunidades inteiras do acesso à agua como medida de limpeza étnica - comunidades que ficam sem água tem que deixar suas terras. A empresa depois distribui essa agua roubada às colônias ilegais israelenses. Ao final, vende a tecnologia desenvolvida para fazer funcionar essa dinâmica no resto do mundo. (Para saber mais, clique aqui)

O Brasil tem defendido assento da Palestina na ONU, reconhecendo teoricamente como Estado, mas como você já bem declarou, financia Israel e consequentemente a supressão do povo palestino, como vocês veem essa contradição e de que maneira o Brasil está sendo cobrado a ser coerente?

Essa contradição não somente mina a luta palestina pela justiça, mas deslegitima também posicionamentos do Brasil em favor dos direitos humanos e da paz a nível internacional. Além disso, põe a risco os mesmos direitos da população brasileira e dos povos em América Latina.

Os treinamentos de forças policiais brasileiras por instituições e empresas israelenses, que chegam de um país onde tortura e violações dos direitos humanos são rotina, somente pode ampliar a repressão interna no Brasil. Outro exemplo é o contrato que o comitê olímpico fez para as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro: A israelense ISDS foi contratada para coordenar toda a segurança das Olimpíadas. A empresa nasce das experiências desenvolvidas por Israel na repressão e no massacre do povo palestino, exportando essas técnicas, metodologias e tecnologias em particular para a América Latina. De acordo com documentação existente, a empresa esteve envolvida com as ditaduras e golpes em Honduras, Guatemala, El Salvador e com o treinamento dos “Contras” na Nicarágua. Na Guatemala, ofereceu abertamente aulas de “terror seletivo” na época do genocídio. Em Honduras, treinou os quadros da ditadura nos anos 80 e forneceu as armas que foram usadas no ataque à embaixada brasileira onde o presidente Zelaya estava refugiado. Contratar esta empresa fortalece a política e a estratégia central dos EUA e de Israel de limitar a soberania dos povos a fim de manter a dominação política, econômica e militar, de instaurar e apoiar ditaduras cruéis e de criar instabilidade. O único lugar que a ISDS pode ocupar na América Latina é no banco dos réus. (Saiba mais)

Cobramos instituições e governos em todos os níveis. Por sorte podemos contar com o apoio generalizado dos movimentos brasileiros. Com isso podemos contar com manifestações e protestos. Escrevemos cartas e relatórios e tentamos criar pressões onde podemos.

De fato, no Brasil os movimentos ajudaram ao povo palestino já a conseguir uma serie de vitórias nesse sentido. Justo antes do massacre a Gaza a SABESP, empresa de saneamento e água em São Paulo cortou um Memorando de Entendimento com a empresa israelense da água Mekorot que durante todo o tempo que existiu tinha somente uma função: legitimar a empresa e suas atividades internacionalmente.

Logo após o massacre de Gaza a Bienal de São Paulo teve que rechaçar o financiamento da embaixada israelense ao evento depois de protestos dos artistas que foram convidados a participar.

No início de Dezembro o governo do Rio Grande do Sul foi pressionado a acabar com um Memorando de Entendimento com a subsidiária da empresa militar israelense Elbit que visou a construção de um parque militar-tecnológico aeroespacial israelense em território gaúcho. Esse é somente os inicio da campanha no Brasil pelo boicote, desinvestimentos e sanções contra Israel, que começou em 2005 depois de um chamado que está crescendo em todo o mundo a nível exponencial.


Como nós, diante desta situação, poderemos colaborar de forma mais efetiva com os nossos irmãos Palestinos?

A forma mais efetiva de solidariedade é se juntar ao movimento de boicote, desinvestimentos e sanções (BDS). Esse movimento de BDS foi lançado em 2005 pela sociedade civil Palestina e cada dia mais pessoas e organizações estão se juntando a esse movimento global que visa cortar o financiamento e apoio internacional a Israel.

No Brasil há várias campanhas: contra os contratos públicos com a empresa israelense da agua Mekorot; pelo embargo militar; e contra contratos municipais e estaduais com Israel. Em particular em 2015 vamos lutar juntos para acabar com o contrato das Olimpíadas com a empresa israelense ISDS que expliquei antes.

Importante também é o boicote cultural. Como mencionei Israel gasta muito dinheiro para trazer artistas de todo o mundo para seu público para fingir ‘normalidade’. Como durante o período na África do Sul quando o boicote se estendeu também ao âmbito cultural e artistas se recusaram de se exibir até que o regime do Apartheid cessasse, hoje o mesmo acontece com Israel. Muitos artistas no mundo se negam a fazer shows em Israel. Muitos lugares não aceitam shows de grupos israelenses. Na Espanha agora foi lançada a iniciativa “Espaços livres de apartheid israelense” onde lugares de diversos tipos se declaram livres de apartheid e se comprometem de não cooperar economicamente ou culturalmente com Israel até que acabe com as suas políticas de ocupação, colonização e apartheid.

A campanha Stop the Wall tem sido desde sua fundação a principal articulação nacional de base para mobilizar e organizar os esforços coletivos contra o Muro do Apartheid.

Estejamos então na luta!

Estejamos na luta!



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