Faixa a faixa: Mahmed - Sobre a vida em comunidade

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Sobre a vida em comunidade é o primeiro álbum da banda potiguar Mahmed, velhos conhecidos da casa, desde os tempos do Domínio das Águas e dos Céus, EP feito de maneira bem despretensiosa e lançado dois anos atrás. Desde aquela época, em papos com os integrantes da banda, percebo a necessidade até urgente do grupo lançar um material físico, de preferência em vinil. O lance é que eles seguiram compondo e se aprimorando, se achando, seja na sua linguagem musical ou nos conceitos a serem seguidos por um grupo independente nos dias de hoje. Posso dizer que acompanhei relativamente de perto todo esse processo, principalmente pelas conversas com os integrantes do Mahmed.

Depois de muitas idas e vindas, belos shows dentro da cidade de Natal, o quarteto fechou com a Balaclava Records e finalmente lançou online, e colocará em breve nas ruas em vinil, este belo álbum. Sobre a Vida em Comunidade apresenta nove belas composições da banda, cheio de participações especiais e espaciais. Com relação a arte, o sucesso do primeiro EP se repete neste novo trabalho, que conta com uma capa incrível do Flávio Grão, amigo dos caras do grupo.

Aproveitando a cortesia dos caras, que passaram o link de audição do disco para nós em primeira mão, pensei em alguams perguntas para fazer um faixa a faixa com eles. Os quatro integrantes do grupo responderam e falaram sobre influências, processo de composição, gravação e escolha das faixas do álbum, além de outras insurgências em torno da música e da vida em comunidade.


1. "AaaaAAAaAaAaA"

Faixa suave e rápida, quase uma introdução realmente. De quem é essa voz doce na canção? E existe explicação para o nome?

Walter: A dona da belíssima voz e da letra é JJ Nunes, artista de Macapá. Tivemos o prazer e a sorte de conseguir estabelecer essa conexão e o resultado ficou excelente, ela é muito talentosa. O nome da música é algo doido. Muitas das músicas que fazemos surgem antes das palavras e das letras, acabam ganhando nomes provisórios para organizar os arquivos gravados no programa. Esta foi apenas mais uma com um nome louco, no arquivo provisório, que ficamos chamando de "AaaaAAAaAaAaA"... até o momento que não parecia mais com nenhum outro nome. É um nome que causa estranhamento, um grito surdo, um paradoxo, um momento de desespero frio, mono, todas essas sensações estavam presentes no momento da composição. Precisava ser rápido e foi a coisa que veio à tona. Nunca ficamos 100% convencidos desse nome, mas foi ficando, e nenhum outro agradava, e essa letra que fala de distância casou com a ideia geral e acabou ganhando um significado no conjunto final, como uma introdução para o discurso do álbum.

Leandro: A JJ Nunes tem uma relação próxima com Natal. Essa parceria surgiu de forma bem espontânea, por acaso eu diria... Atualmente ela toca em um projeto chamado Romã, lá em Macapá.


2. "Recreio dos Deuses"

"Recreio dos Deuses" já é uma especie de clássico do grupo, foi lançada como single no ano passado. Queria que vocês falassem um pouco do processo das escolhas das faixas pro disco, sei que algumas ficaram de fora.

Walter: Foi um processo doloroso, mas necessário. Queremos lançar Sobre a Vida em Comunidade" em vinil. Existe um tempo limite para colocar na bolacha, e extrapolamos bastante esse tempo. Então tivemos que cortar alguns bons minutos. E isso foi muito difícil. Mas é isso, temos um bom B-sides, vamos achar um esquema bacana pra colocá-lo na praça.

Leandro: Talvez a gente lance esse b-sides em formato fita k7, quem sabe. É uma possibilidade.


3. "(Momentos) Antes De Dormir"

A música me incomoda um pouco, talvez pelo loop na melodia, não consigo ver o começo e o fim ou talvez seja pelo fato de que eu sempre penso em um monte de coisas momentos antes de dormir até apagar. É essa a ideia?

Walter: O disco de certa forma é onírico, essa talvez seja dentre as músicas a mais inclusa nessa atmosfera de inconsciente, os synths e guitarras reversas falam nesse sentido, pelo menos dentro da nossa linguagem musical. Nessa faixa exploramos nosso lado mais introspectivo e melódico. É uma balada atravessada, voando num sonho lúcido, de madrugada, pela cidade adormecida. Uma das minhas preferidas.

Dimetrius: Ela funciona diferente das outras. É mais espacial que o restante do disco, mais repetitiva que todas as outras. Nossas músicas sempre vão a algum lugar novo e nela a gente se repete pra não se repetir. Talvez ela te dê sono, aí o nome dela começa a fazer mais sentido ainda (risos).


4. "Shuva"

Zorn diz que a música instrumental sempre terá ouvintes, em alguns momentos mais, em outros menos, mas nunca será popular. O que vocês pensam dessa afirmação. E até onde a Mahmed pretende ir? Ou não pretende?

Walter: Ser popular é algo que não está nos nossos planos. Obviamente, não quero negar essa condição, se acontecer, por algum motivo extraordinário, vou ficar muito feliz. Vou conseguir viver disso, sustentar meu filho, retribuir o apoio da minha família e fazer o que realmente amo, com meus amigos. Quando digo que não está nos nossos planos, é porque não buscamos essa meta, não nos esforçamos para ser populares, fazemos exatamente o som que nos interessa, e o som que queremos não é exatamente o gosto popular, ainda mais quando falamos de Natal (sim, a cena "alternativa" está aquecida, mas longe de sustentar nossa situação e nossas possibilidades). O som instrumental não é popular. Concordo com Zorn. Porém, existem caminhos que a música instrumental trilha e que a música letrada e cantada não entra. Queremos nos divertir mas queremos fazer a coisa acontecer, fazer o nosso som chegar à maior quantidade possível de pessoas, indivíduos que se interessam pelo tipo de música que fazemos. Sabemos que existem muitos no mundo, eles apenas não escutaram ainda. Estamos nos movimentando, nos esforçando para que o som se propague e, acima de tudo, nos expressando com veracidade, vivendo degrau por degrau, metro a metro, sem desviar dos nossos princípios pra agradar parcela X ou Y de um determinado público alvo. O plano para o futuro é viajar e conseguir viver da música. Mas onde a estrada vai dar é algo que só o tempo mesmo pode dizer.

Dimetrius: Eu acho que uma hora vai sair algo entre nós 4 que vai valer a pena cantar, se pá. Temos nos divertido muito trampando com outras pessoas. Fernando Cappi (Chankas) gravou uma música dele com a gente, lá no Cantilena, que é o estúdio de Ian. A Gabriela Terra Deptulski do MMGL letrou e cantou uma música nossa. A gente tá nessa pela música, queremos tocar o máximo que der, em todos os lugares possíveis. Sabemos que não precisamos ser muito populares pra viajar legal e ser ouvido por algumas pessoas. Acho que estamos muito unidos como uma banda e isso vai abrir outros caminhos.


5. "Vale Das rrRosas"

Uma coisa interessante pra mim no som da Mahmed é a sua organicidade. Ou seja, ouvindo o disco, consigo ver ele sendo executado ao vivo. Pelo que percebi, os momentos eletrônicos são os de vozes, tal qual a história contada nessa canção. Eu queria que vocês falassem um pouco do processo de composição da banda, sobre a voz e a história contada nessa faixa.

Walter: As composições acontecem de várias formas. Tudo começa com um embrião, que pode partir de uma jam ou de um riff/música gravado(a) provisoriamente. Vamos trabalhando a ideia e tornando-a mais complexa, e colando uma ideia com outra, tudo meio que no instinto, sem muita teoria por trás. Algumas músicas surgem mais prontas, outras vão ganhando cara com o processo de gravação, que é quando preparamos o "esqueleto" e começamos a preencher as lacunas com lombras de synths, guitarras, colagens de filmes e de canções especiais. Gosto de criar em cima do projeto com as baterias gravadas. Posso abrir várias faixas, dobrar guitarras, unir timbres orgânicos com eletrônicos... o céu é o limite. Trabalhamos muito nesse aspecto. Algumas faixas do disco ganharam uma cara completamente nova quando entraram no computador. E isso até dificulta nossa vida na hora de tocar ao vivo, as música possuem várias camadas, só 4 caras não dão conta de tudo hahaha.

"Vale das rrRosas" é uma das canções que ficaram um pouco diferente do planejado no início. Essa historinha é tipo aquelas brincadeiras com fundo de seriedade. Tiramos de um vinil infantil de Ian chamado O coelhinho Conta Histórias". A gente gosta de ficar de bobeiral depois do ensaio no Cantilena, tomando uma cerveja e experimentando os equipamentos de lá, e estavamos ouvindo uns vinis, e Ian trouxe esse com uma capa engraçada, ficamos rindo e tirando onda. Mas essa história do menino triste, apesar de toda aparência boba, teve uma certa profundidade para a gente. Muito do Mahmed vem de tristeza e solidão.


6. "Mantra Tensão"

O nome do disco é Sobre a Vida em Comunidade e nele temos um mantra tensão. É difícil viver em comunidade? Qual a relação do nome do disco com a sua sonoridade? Existe um conceito?

Dimetrius: Esse nome a gente tirou da obra que é a própria capa do álbum. Ela é do Flávio Grão, que também é autor da capa do primeiro EP Domínio das Águas e dos Céus. Como essa relação é anterior ao disco, a gente já conhecia essa obra, ela faz parte de um livro do Grão chamado A Mitologia do Descompasso. Acho que antes de gravar a primeira bateria desse álbum, já conversávamos sobre essa ser a capa do álbum. Talvez ela tenha influenciado sim na música. Fazendo a gente experimentar outras coisas. A arte de Flávio dialoga muito bem com nosso som. Essa relação banda e artista é muito bem-vinda. Temos ‘n’ exemplos de bandas que a maioria dos seus trabalhos é de autoria de um mesmo artista, e temos muita sorte de um cara único como o Grão colar com a gente sempre. Sobre o peso que o nome carrega, acho que vivemos dias em que o sentido de comunidade é muito presente na nossa vida. Sufocante as vezes, essencial quase sempre. Música é a melhor forma de se comunicar.


7. "Ian Trip"

Uma coisa bem perceptível é o uso do vocal como instrumento. E até este momento, a guitarra vinha com destaques. Mas finalmente ouvi a bateria tomando conta, além da presença do sopro. De primeira audição, está é a minha escolha como preferida. Queria que vocês falassem um pouco dessa mistura de instrumentos e influências.

Ian: "Ian Trip" surgiu em um momento que estávamos à procura de novas abordagens na forma de compor. Então tivemos a ideia de reverter o processo e começar pela bateria. Nos reunimos no Cantilena, montamos um setup de gravação e registramos alguns grooves. Escolhi um deles e mandei para os caras já com uma linha de baixo, que acabou virando o arranjo central de Ian Trip (foi o nome que coloquei no arquivo e acabou ficando). Walter e Dimetrius colocaram algumas guitarras e elementos em cima (nessa época Leandro estava na Europa, acompanhando a turnê do Cätärro), curtimos o resultado e resolvemos gravá-la. O processo de gravação foi bem solto, gravamos uma jam de 7 minutos que na minha cabeça seria reduzida para uns 3 no final, selecionando as melhores partes, mas foi mantida a original, incluindo os erros. Depois de baixo e algumas guitarras gravados, voltamos ao Cantilena para finalizar a ‘viagem do menino’, como costumamos chamar. Plugamos um microfone e ligamos tudo que tínhamos à disposição. Aí que surgiram os scratches, as vozes e os arranjos de kazoo, um dos instrumentos preferidos da casa. Isso tudo voltou para Walter, que criou deliciosos arranjos fechando a viagem.

Walter: Essa faixa resume todo o processo de gravação. Tem guitarra gravada direto na placa, tem gravada no Vox, no Orange, no Cantilena, em Dimetrius, na minha casa, tem vozes bêbadas, kazoo e scratchs em mais uma session divertida de Cantilena, tem Gaia SH-01, cellos gravados em Pedras no Cigarra, tem o Korg gravado numa sessão maravilhosa na casa de Tony Santos, do coletivo Artezona, em Pipa-RN (inclusive esse Korg tá bem presente no decorrer do album) e por fim ganhou arranjo novo dentro do projeto, no estilo de composição que eu mais me sinto bem e confiante. Realmente deu certo!


8. "Quando os Olhos Se Fecham"

Percebe-se a presença de teclados mais fortemente, inclusive dando uma melodia totalmente diferente do resto do disco. Estas quebras são propositais? Meio que naquela linha "confundindo pra esclarecer"?

Walter: Essa é uma música toda especial, pois tivemos a participação de Gabriel Souto gravando Sanfona, Pedras gravando Cello, mais uns samples de Miles Davis e Jards Macalé, que por sua vez inspirou o riff final (‘Farinha do Desprezo’ foi homenageada). Então é uma peça diferenciada, que ganhou um clima regional com a sanfona conduzindo a música (apesar de ter sido gravada por último). Confundir é interessante... sair do marasmo, tirar o ouvinte (e nós mesmos) da zona de conforto. Vejo como algo que flui natural, essa busca pelo tempo mais tortinho, pelo timbre diferenciado. Mas sempre sem forçar a barra, sem querer ser o mais lombrado de todos os tempos. Tentamos manter o equilíbrio que funciona especificamente para a banda.


9. "Medo e Delírio"

Para mim, esta música é uma simbiose do que é o disco, ou seja, é um belo exemplo de como amarrar bem o trabalho no fim. Fale um pouco da ordem do trabalho, demorou para chegar nesse resultado final? A ideia é contar alguma história?

Walter: O discurso acontece no processo. No fim, inevitavelmente e inconscientemente o disco conta uma história, nesse caso a história da nossa vida em comunidade: nossos trabalhos, projetos paralelos, filhos, irmãos, mães, namoradas, amigos (e inimigos); angústias e glórias, medos, delírios, retrações e projeções (como a capa indica), e no meio disso tudo nossa relação se estreitando enquanto a banda amadurece. Cada nota de cada música tem uma história para a gente, nos lembra uma época, uma idéia, pessoas, cores... e por aí vai. Porém, a grande vantagem de fazer música instrumental é que abrimos espaço pra uma interpretação de texto ainda mais ampla. A obra não se encerra na gente, ela continua naquele que recebe. Obviamente isso acontece com toda obra de arte, com toda música, mas na instrumental a abertura é ainda maior para quem escuta, os instrumentos falam de forma mais indireta que a palavra. E como não nos apoiamos em virtuose instrumental, nem somos experts em linguagem musical erudita, fazemos uma música muito fluida e inocente, que pode ser interpretada de muitas formas, por qualquer um.

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