Impressões: APR e a maior concentração de camisas pretas em linha retada América Latina

por - 14:09

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Cheguei na segunda noite do Abril Pro Rock seguindo as instruções do amigo Diego Hominis Canidae, no ônibus da linha Aeroporto-Tacaruna. Meu medo de andar sozinho em Recife não é grande, afinal de contas eu sou de Maceió, e possuo treinamento em fuga das chamadas cocós (que é como a gente chama cilada em Alagoas). Deu tudo certo, cheguei e logo pude ver a maior fila de pessoas utilizando camisas pretas em linha reta da América Latina. Os portões ainda não estavam abertos e fiquei perambulando por lá, anotando algumas impressões, mandando mensagens e conversando com os locais.

Ao me ver escrevendo no meu bloquinho fui abordado por um rapaz que vou chamar carinhosamente de BS. “Tu é jornalista, é?”, e eu disse que não, que era policial federal. Alguns amigos dele riram, outros ficaram cabreiros. Logo desmanchei a cabreirice e disse que sim, que era jornalista e estava ali para cobrir o festival para o Altnewspaper. BS me disse que tem muita vontade de fazer jornalismo e ali ficamos conversando. Meu mais novo amigo é natural do Ibura, um bairro relativamente afastado da Cidade (que é como eles chamam o centro), mas muito próximo ao Aeroporto. BS disse que passou a infância toda pensando em ser piloto, mas aos 12 anos começou a enxergar mal e hoje tem que usar óculos o tempo todo, o que o fez desistir da profissão.

Entre seus hábitos favoritos BS gosta de jogar futebol no campinho perto de casa, de beber com os amigos e, lógico, de ouvir metal. “Ouço muita coisa, mas prefiro thrash, death e black metal”, me contou. Perguntou sobre as minhas referências de metal e eu joguei algumas aleatórias, coisas que ouvia na adolescência e que ainda ouço.

Ele ria toda vez em que me perguntava sobre alguma referência nova e eu não sabia, os amigos deles riam mais ainda. BS me contou que queria muito ver os shows da Lepra, porque curte muito os caras e acha massa uma banda do interior do estado tocar em um festival grande como esse. Além disso tava doido pra ver Marduk, Coroner e Almah. Achei estranho ele gostar de Almah, mas ele disse que por um tempo andou com uma galera que ouvia metal melódico e começou a curtir a banda. Os portões se abriram, me despedi momentaneamente do meu amigo BS e fui ver os shows.

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Lepra é uma banda de Moreno, Pernambuco, um power trio de grindcore, com letras em português. O som dos caras bebe mais em influências metal do que hardcore, por isso alcança fãs de ambos os gêneros. Fizeram um show agressivo, rápido, para as pessoas que estavam chegando, penso que quem já conhecia gostou ainda mais do som e quem não conhecia ficou querendo baixar quando chegasse em casa. Meu amigo BS me encontrou e disse: “Não falei que os caras eram foda?”.


A segunda paulada da noite foram os mossoroenses do Cätärro. A banda abriu o show com uma balada (!!!) a qual não pude identificar, então quem souber qual música é favor colocar nos comentários (O nome é "Mundo Vazio"). O vocalista da banda Pedro “Mendigo” Medeiros sabe bem como se portar, seja tocando no chão, seja em um palco maior. Muitas acrobacias, duplos carpados e contorcionismos, conquistados em aulas de pilates e yoga. A apresentação teve direito à umas palavrinhas do vocalista, segundo o qual “não adianta querer fazer revolução se você não sabe lavar a louça”, uma frase simples, mas que tem muito sentido e que com certeza reverberou na cabeça dos presentes.

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A terceira atração da noite foi a banda Hate Embrace, de Pernambuco. Com letras em português a banda tem uma formação muito competente que inclui teclado para construção das harmonias. Fizeram um show retão, sem firulas, e deixaram muita gente sorrindo. É raro ver bandas que fazem letras sobre uma realidade local, no caso deles, a saga do nosso maior outlaw, Lampião, um dos personagens mais significativos do nordeste.

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A Almah foi a quarta banda. Meu amigo BS estava na frente do palco e me chamou para ver o show lá. Fui. O show dos caras tem muita performance, headbanging e camisas coladas. É inegável o talento dos instrumentistas e do vocalista Edu Falaschi, que já fez parte da banda mais icônica do metal melódico brasileiro, o Angra. O Almah inclusive fez um cover de ‘Heroes of Sand’, um dos hits do álbum ‘Rebirth’ de 2001, formação da qual Edu fez parte. Pela repercussão o Almah era para ser um dos headliners mas por questões logísticas tiveram que tocar mais cedo para poder viajar após o show.

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Após o Almah quem subiu no palco foi a Gangrena Gasosa, do Rio de Janeiro, a maior banda de saravá metal da história do rock mundial. Com temáticas do candomblé e umbanda os caras destruíram qualquer padrão de estilo que se pode pensar. Todos vestidos de entidade, com ponto de umbanda abrindo o show e uma galera cantando as letras, foi um dos grandes shows da noite. Teve gente com medo de ir pra frente do palco porque geralmente despachos são jogados em cima do público, mas esse despacho foi até tranquilo pois só tinha pipoca e velas, inclusive eu consegui uma vela vermelha, que já acendi e tudo mais. Deu para sacar também que o documentário ‘Desagradável’, do Fernando Rick, atraiu mais fãs para a banda. Foi a primeira vez dos caras no Nordeste e espero que muitas outras rolem!

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Depois do GG quem deu um hail para a garotada foi a Headhunter DC de Salvador, Bahia. Muito experientes os caras tem 28 anos de banda e fazem um death metal rápido e constante, muito preciso na execução. BS, meu brother, não conhecia a banda e já tinha procurado pra ver se existia no Spotify algum som deles. Quem é fã saiu maravilhado.

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Um das mais fortes boas impressões da noite foi o metal soco na cara da banda Project46, de São Paulo, SP. Sempre falo que fazer esse tipo de som em português é um ato de coragem, pois muitos puristas afirmam, categoricamente, que não funciona em nosso idioma. Os caras provaram o contrário e mandaram muito bem na execução das músicas, com uma clara influência de Pantera, e interagiram de maneira horizontal com o público, coisa que as grandes bandas mundiais fazem. Foi, com certeza, a maior roda da noite, inclusive com um wall of death absurdo. Procure vídeos no YouTube pra você ter uma ideia.

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Depois do peso paulistano, foi até estranho ver o show do Dead Fish. Precisei de umas quatro músicas para me aclimatar ao hardcore dos capixabas. Como sempre a banda não decepcionou, tocando músicas de seu disco mais recente ‘Vitória’, de 2015. Quem curte a banda estava cantando todos os sons, destaque para o público feminino que cantou até ficar rouco! A banda encerrou o set com o hino ‘Sonho Médio’. Na roda eu quase perco o tênis, duas vezes.

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Tocando pela nemseiqueéssimavez no evento o Ratos de Porão reinou absoluto no palco. Headbangers, punks, skins todos agarrados para ver os caras de perto. Mesmo com alguns problemas de equipamento, em especial a bateria do Boka, os caras mandaram sons do disco mais recente, ‘Século Sinistro’, junto com os clássicos ‘Aids, Pop, Repressão’. Um som juntinho do outro, às vezes sem espaço pro João Gordo respirar.

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Após o RDP quem subiu pra fazer seu som foi a Câmbio Negro HC, de Recife, Pernambuco. Verdadeira instituição do hardcore nacional a banda cumpriu bem seu papel. Músicas retonas, sem pretensão de virtuosismo, letras bastante políticas e uma presença de palco que me lembrou muito a querida Misantropia, de Maceió, Alagoas.

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Sangue e conflito e terror são temas das letras da suíça Coroner. Essa foi uma das bandas que eu não conhecia e que fez meu amigo BS rir. Encontrei-o antes do show dos caras, ele disse que já tinha ficado bêbado, dormido, acordado, ficado bêbado de novo, dormido e agora tinha acordado pra ver o show do Coroner. Bateu muita cabeça o som de ‘Infernal Conflicts’ e me mostrou que a banda, apesar de falar de auto-destruição, manteve-se íntegra e fiel ao som que se propõe a fazer. Como vi em alguns comentários no Instagram, foi uma verdadeira aula de thrash metal.

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A cerimônia bestial do Marduk encerrou a noite. Corpse paint, brutalidade e um fã maquiado ao meu lado, me fazendo pensar que ainda bem que estava de preto senão os esbarrões que ele me dava podiam ter manchado minha camisa. Muita iluminação roxa e fãs ensandecidos cantando todos os sons, e um loop de bateria característico que ficou remoendo na minha cabeça no caminho para a casa em que eu estava hospedado. Encontrei meu amigo BS, totalmente suado, morto de cansado, sendo aparado por duas garotas. Troquei mais umas ideias com ele, paguei uma água e prometi manter contato via Whatsapp.

O que mais me deixou feliz nessa noite foi ver o respeito que os fãs de determinados estilo tem com relação a outros. Não vi nenhum tipo de hostilização a fãs de hardcore, nem vice-versa, simplesmente quem não queria ver o show ficava sentado longe do palco, vendo as banquinhas. Como acompanhei a cisão que houve em Maceió dos fãs de metal e os de hardcore foi massa demais ver que no APR isso não existe. A convivência pacífica e ordenada foi o padrão.

PS: Fotos retiradas da página do Comunica AE e do flickr da Agência Pavio.

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