O mundo é um lugar maravilhoso

por - 14:06

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No dia de hoje Aldo Fantini é um velho. Eu peguei a calculadora e ele vai fazer setenta anos, esse ano. Aldo Fantini fala muito. Gente que fala muito é meio complicado. Uma pessoa que fala muito, se você não souber como fazer, ela lhe deixa perturbado. Eu gosto mesmo é de ficar calado e pensar no que quer que seja, mas não falar nada. Ficar pensando. Pensando por várias horas, dias, semanas, meses e anos, sem procurar falar tanto. Ficar na minha. Olhando pra parede. Isso é meditação. Olho pra parede e não penso em nada, ou então penso, mas não digo muito. Guardo os demais pra mim. Se eu tiver de falar, faço na última instância, por exemplo: quando eu realmente tiver certeza de que não vou achar as chaves. Se sequer procurei, então nem pergunto, não falo nada.

Agora entenda bem. Você só deve ficar sem falar, e pensando muito, quando você não tiver nada pra fazer, de resto, quando você estiver trabalhando, não pense muito, seja prático: aperte ou folgue os parafusos quando você tiver que fazer isso. Dois amigos me disseram o mesmo, cada uma à sua forma, essa coisa do “parafuso”. Um me disse que tudo que ele faz na vida é como cortar cebolas. Quando me disse isso ele colocou a mão na mesa, em um café chique de um shopping, e com a outra interpretou uma faca. Ele me disse isso e fez isso. Na verdade ele me disse que a esposa dele quem falou isso dele. Ela falou que tudo que ele fazia na vida era como cortar cebolas. Eu fiquei com essa frase na minha cabeça para sempre. “tudo que eu faço na vida é como cortar cebolas”. Eu pensei nas lágrimas também, mas acho que ele não quis dizer isso quando falou das cebolas. O outro amigo. O outro amigo disse que foi a mãe dele quem o ensinou. Ela falou que tudo que ele fizesse que fosse feito da forma mais tranquila do mundo, nada de afobação: tranquilo e calmo. Algo como um leão marinho deitado com a barriga pra cima sem pensar no urso polar por perto.

Nenhum deles tem a minha idade ou a de Aldo Fantini. Eu sou o mais jovens de todos e o Aldo é o mais velho. Aldo é desesperado. Eu não queria que ele fosse, mas ele é. Na minha mente eu sempre imagino um velho como uma pessoa bem tranquila, mas Aldo é desesperado. Tudo é uma grande loucura na mente de Aldo. Uma grande trama envolvendo personagens e esperteza. Eu praticamente penso da mesma forma, mas eu fico calado e olho pra parede e não fico falando muito sobre isso porque eu não tenho certezas sobre os personagens e as espertezas. Tomo cervejas e tento soltar fumaças circulares com o cigarro. Aldo não faz mais isso.

Tinha outro figura também, o apelido, ou nome, dele era Cordeiro, ou Carneiro. Não lembro. Esse não era meu amigo. Vez ou outra eu o vejo na rua. Antes eu o via no bar. Ele ficava lá, sentado, olhando pro nada e tomando cerveja de uma forma bem lenta e tranquila, como um grande monge, num bar. Acho que Cordeiro Carneiro foi o homem que menos falou na vida. E o olhar de Cordeiro Carneiro era um grande olhar, bem tranquilo, como os olhos de alguém quando volta da praia. Esse é o modelo de uma pessoa de idade que eu imagino. Uma bermuda, uma camisa de botão, com apenas dois botões presos, uma sandália e uma olhar de quem acabou de voltar da praia. O mundo explodindo e você andando pela rua como se tivesse acabado de voltar da praia. É disso que precisamos.

As únicas pessoas que podem falar muito são as crianças. Elas podem. Elas ficam pulando e perguntando o que é tudo. E pulam mais e perguntam mais. E aí você tem que responder tudo. Você olha pra televisão, aí chega uma criança, ela chega pulando e lhe pergunta o que é tal coisa que está passando na televisão. Aí você diz o que é. Ou então eles perguntam o que significa a palavra tal. Aí você vai e diz. Tem vezes que você não sabe o que é e aí você diz pra ela que isso você não sabe. Mas quando você sabe, muitas vezes, a resposta já desencadeia outra pergunta e aí é que está o grande jogo e esquema das grandes pessoas. Não fique falando muito, se você não for uma criança, pense mais. Faça como os guris sempre fizeram. Faça como você sempre fez. Fique pensando e pensando até você não ter mais nenhuma pergunta feita em cima da resposta que você fez ou procurou. Faça isso, não fale tanto. Deixe que elas falem. Elas podem e devem, você não.

Na verdade o fato de falar muito ataca mesmo meus nervos quando a fala vem envolta de reclamações. É isso. Gente que reclama é ainda pior do que gente que fala muito! O som, com aquele timbre, de reclamação, saca?

Enfim... Mesmo Aldo Fantini reclamando muito, eu o amo. Como não poderia? O nosso problema mesmo é a idade. Ele sempre teve quarenta anos a mais que eu e agora nosso assunto é sempre em cima do mesmo tema: trabalho! E por que não chegamos nunca a uma resposta de nada e ele está sempre reclamando? Porque ele reclama demais e eu falo de menos e nenhum de nós dois somos mais crianças. Ele é um homem de ação. Eu quero ficar igual a Cordeiro Carneiro. Eu quero ficar com meus olhos como se eu tivesse acabado de voltar da praia. É isso que eu quero. Aldo nunca vai conseguir isso. Eu vou procurar fazer isso como se estivesse cortando cebolas. Quando eu tiver de apertar, ou folgar, algum parafuso, eu farei isso, e farei bem tranquilo e calmo, sem pensar muito, só fazendo o que tenho que fazer, como se isso fosse à única coisa do mundo. Eu não vou apertar parafusos, ou escrever um texto, pensando na grande seca, não sou eu que tenho que pensar nisso. Eu vou fazer o que tenho que fazer pensando naquilo que tenho que fazer, e farei bem lento, pra que meus olhos fiquem marejados e para que o mundo continue um lugar maravilhoso.

Texto por Angelo Souza, o Graxa.

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