O V de Ventura refletiu sobre a liberdade em seu novo disco, "Pelo OlhoMágico"

por - 11:06

[caption id="attachment_26662" align="aligncenter" width="695"]V de Ventura Foto por David Melo[/caption]
O V de Ventura é uma banda de rock alternativo formada em São Paulo com influências de MPB, indie rock e até punk. Suas letras tratam de assuntos contemporâneos e rotineiros como amor, tristeza, liberdade e são cantadas pela voz forte e feminina de Letícia Ventura, além do acompanhamento de um instrumental muito bem tocado.

Seu primeiro EP, Petricolor, lançado em 2013 era mais rápido e dançante, já o segundo Nu, marca o começo de um instrumental mais bem elaborado e o mais recente Pelo Olho Mágico, consolida a ideia iniciada no single “Nu”, com guitarras que dialogam mais com a música instrumental.

Aproveitando que eles lançaram o Pelo Olho Mágico tem pouco tempo e que disponibilizaram também o clipe feito pelo fotógrafo David Melo para a faixa “Eremita”, batemos um papo com a banda e conversamos sobre influências, o disco novo, a gravação em Paranapiacaba e etc. Assista ao vídeo e ouça o disco abaixo.


O primeiro EP de vocês, Petricolor, dialoga com guitarras mais indies, já o Pelo Olho Mágico, tem uma onda um pouco mais para o post-rock. Houve essa mudança? Por que?

Nosso primeiro EP, Petricor, foi uma despedida antes mesmo de ser lançado. Ele unia músicas de bandas antigas que eu, Letícia, e o Caio tínhamos juntos. Achamos que seria legal gravá-las porque fizeram parte da nossa história, mesmo que já estivéssemos em um momento diferente quando o EP saiu. De lá pra cá a gente desenvolveu pessoal e musicalmente, tivemos contato com diferentes influências e a presença mais efetiva da Ray e do Ju no processo de criação fizeram toda a diferença nesse novo trabalho e daí, entramos naturalmente nessa nova vibe. O mais legal disso tudo é que essa mudança é um processo contínuo. Desde que decidimos gravar Pelo Olho Mágico, diversas outras influências surgiram e acho que nosso próximo trabalho possivelmente virá com colheradas desses novos elementos.

O que mudou das influências do primeiro disco para agora? Mais Mogwai e menos shoegaze?

As nossas influências são bem diversificadas. Antes, a maioria tinha origem no indie rock internacional. Nesse EP, vejo muita influência de Tulipa Ruiz e Simonamí nos vocais, buscando trazer mais personalidade pra voz. Na sonoridade, a música brasileira continua bem presente mas de maneira menos subjetiva, com Cícero, Vivendo do Ócio e Vanguart, complementadas pelas influências de bandas instrumentais, como Marco Nalesso e a Fundação e Dibigode. Algumas influências antigas continuam, como Radiohead e Savages e algumas sons que não tem relação direta com nosso mas que adoramos ouvir juntos e nos influencia de alguma forma, como Rancore, Medulla, R. Sigma e Kooks. O Ju continua idolatrando Green Day (risos).

O título do disco, Pelo Olho Mágico, dá a sensação de que as pessoas não saem de casa e vivem trancadas. Me lembrou até um trecho de um som do Emicida, "E vê-lo por um olho mágico, rouba a magia / Que dava sentido ao dia, ao esbarrar com quem não conhecia / Era bom, ficou pra trás". O aprisionamento que vocês falam no álbum é esse, o físico, ou é algo mais interno do ser humano?

As canções do EP foram criadas num momento de mudanças bruscas. Eu, Letícia, havia acabado de ir morar sozinha. Passei a conviver com pessoas que, apesar de estarem próximas fisicamente, se mantinham fechadas dentro de si. Tudo isso veio acompanhado de um distanciamento dos amigos e da família. Aos poucos, isso me levou a um estado de reflexão profunda e aos poucos, a um processo de reclusão física. Ao mesmo tempo, Caio, Ray e Ju também passavam por dilemas internos, sobre suas autoimagens, sobre quem são. Foi nesse contexto que surgiu o conceito de Pelo Olho Mágico que pra mim, fala, a princípio, de um aprisionamento interno que aos poucos se torna físico. Não sei se "aprisionamento" seja exatamente a palavra certa, mas sim uma viagem de autoconhecimento. Pro Caio, esse "aprisionamento" fala sobre a possibilidade de vislumbrar aquilo que se passa por dentro de cada um de nós, aquilo que fica guardado e não conseguimos colocar pra foram de outra maneira senão pela música. A gente entrou numa espiral tão louca conversando sobre isso tudo que até saiu aquele primeiro texto do encarte do EP, falando exatamente sobre esses diversos significados que o conceito traz (risos)

"Que magia há neste objeto estático? Se existe alguma, suspeito que vá além da possibilidade de sermos espectadores coadjuvantes do mundo. Talvez exista entre as lentes, uma fenda no espaço-tempo que nos permita, do agora - que no instante desta leitura, já é passado - vislumbrar o futuro. Pode ser que, por alguns instantes, a lógica entre o exterior e interior se alterne, e aquilo que julgávamos ver de dentro pra fora, se torna um mergulho profundo de fora pra  dentro de nós mesmos. Ou talvez "olho mágico" seja só um nome."

O disco fala sobre amizade, solidão, libertação e aprisionamento. Esses são temas que dialogam entre si, a amizade pode ser encarado como o contrário da solidão, libertação e aprisionamento também. Por que dialogar com antônimos no álbum?

O jogo de contraste se relaciona muito com o momento de transição no qual o EP foi criado. Além disso, fala muito sobre a amizade que nós quatro temos. Como moramos em lugares diferentes de São Paulo, geralmente é difícil nos encontrarmos a qualquer momento, mas quando fazemos, é como se todas os dilemas desaparecessem. Estar com a V de Ventura vai além de fazer música. É estar entre amigos, sendo nós mesmos.



[caption id="attachment_26663" align="aligncenter" width="695"]V de Ventura Foto por David Melo[/caption]
A canção “Eremita” parece ser o desejo de libertação do disco, já que ela vem antes de “Azul”, que fala tanto do aprisionamento quanto da solidão “Minha voz vira eco / Que bate, reflete e refrata / Nas paredes desta casa tão só”. É isso mesmo ou é só viagem minha (risos)?

É isso mesmo (risos). O EP segue uma cronologia, é quase uma linha do tempo. "Eremita" fala sobre o desejo de libertação e a vontade de conhecer o mundo com os próprios olhos e pés. "Azul" contrapõe essa visão romântica, mostrando que a liberdade, muitas vezes, traz consigo alguns fardos.

Falando nela, por que escolher Paranapiacaba como local de gravação do clipe? Vocês acreditam que esse pode ser o refúgio de muita gente, em meio a um pedaço de Londres em São Paulo?

Tirando o nosso histórico em fazer programas com grande chances de dar errado, a escolha de Paranapiacaba foi bem por acaso (risos) . Já estávamos com vontade de gravar algo mais nossa cara, com a gente fora do estúdio e dos palcos, algo mais cotidiano. Numa conversa com o David Melo Mourão (fotógrafo amigo nosso que nos presenteou com o dom dele e registrou todo o processo de gravação, além de fazer todas as fotografias do EP), comentei sobre ter ido no último festival de inverno de Paranapiacaba e ele achou que seria uma boa ideia fazermos alguns takes lá. Como as ideias dele sempre são ótimas, topamos. Nunca tomamos tanta chuva mas os foi divertido (risos).

No blog Amplifica vocês falaram sobre uma influência de Los Hermanos na banda, incluindo o nome, V de Ventura (que remete ao disco do grupo). O que vocês acham dessa nova empreitada do Marcelo Camelo? E o quão importante vocês acreditam que ele é para a música brasileira, enquanto compositor?

Camelo como compositor consegue transitar pelo tempo e vários projetos sem perder algumas das características que o fizeram ter o reconhecimento que possui atualmente. O cotidiano, o perdedor, o arrebatamento do amor, a efemeridade das coisas são fundos para que melodia e letra se conectem. A nova empreitada também traz isso, porém soma-se à musicalidade do Fred e a delicadeza da Mallu. Camelo tem um estilo muito próprio de compor e fazer música, e fonte de influência para diversos artistas.

Depois de lançar o álbum, qual o próximo passo? Vocês pretendem organizar turnês na cidade onde moram?

Depois de tanto tempo gravando, estamos bem animados para voltar a fazer música ao vivo. Recentemente, fomos convidados a tocar com nossos amigos da Ombu e da Raça e outros convites têm surgido. Estamos trabalhando em novas músicas que começaram a ser escritas durante o processo de criação de Pelo Olho Mágico e agora pretendemos dividir nossas músicas, seja em casas de shows, saraus, praças ou qualquer outro lugar onde as pessoas queiram se conectar às outras.



* A foto da capa também foi tirada pelo David Melo.

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