A guerra das hashtags

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Hashtag

É corrente a ideia entre os estudiosos da linguagem que um dos grandes atributos da arte retórica é o de fazer com que as coisas que na verdade são pequenas, pareçam maiores e, sendo maiores do que são de fato, possam ser melhor aceitas pelo público. Parece que, no caso da arte de se criar Hashtags, o atributo seja justamente o inverso: comprimir o que é grande, para caber muita coisa em pouco espaço. Talvez por isso, a guerra das Hashtags que tomou conta das redes sociais após os atentados no Charlie Hebdo em Paris tenha sido tão instigante.

Depois de um 2014 sangrento nas redes sociais, a batalha virtual das tags #JeSuisCharlie contra #JeNeSuisPasCharlie deve ter preocupado quem sonhava com um verão de sombra e água fresca nas time lines da vida.

Na verdade é um equivoco acreditar que existe liberdade radical de pensamento em uma sociedade liberal. Se nos totalitarismos e autoritarismos de toda sorte a liberdade de expressão é tolhida por forças repressivas externas, no mundo das democracias liberais essa mesma liberdade é tolhida pela força de uma proibição subliminar, interna, que patrulha o discurso dos liberais e os impedem de pensar para além das coordenadas do “politicamente aceitável”. Essa proibição de pensamento (Denkverbot) aparece claramente na medida em que alguém enuncia em redes sociais conteúdos que são considerados inaceitáveis em um universo liberal.

Nesse sentido, o ataque ao Charlie Hebdo jogou o pensamento liberal diante de um impasse. Dois valores fundamentais do liberalismo se chocaram em um conflito que gerou uma espécie de tilt no espaço ideológico liberal. De um lado havia o valor da liberdade de expressão artística e de outro o da tolerância religiosa e do respeito multicultural à diversidade.

O choque que gerou o assassinato brutal no Charlie Hebdo foi resultado do confronto entre dois extremismos. O da arte, que se expande em direção a um desejo de iconoclastia absoluta e o das mitologias culturais e religiosas que exigem um respeito absoluto para seus rituais e valores. Diante desse conflito, a mente liberal média não consegue escolher seu lado.

Como condenar os atentados sem coadunar com as charges desrespeitosas e “islamofóbicas” de Charb? Como criticar a islamofobia e o tratamento preconceituoso contra uma religião sem coadunar com o assassinato de artistas que se reuniam para expressar suas posições políticas em um semanário de humor?

O liberal médio, limitado pela proibição de pensamento que a ideologia hegemônica impõe às sociedades ocidentais, encontrou nas hashtags uma maneira de escapar à esse impasse.

Como as duas hashtags eram semanticamente abertas, a rigor, não significam porra nenhuma, a não ser um atributo autorreferente de identidade tipo “sou fulano” ou “não sou fulano”. Exatamente por não dizer nada de especifico (nem mesmo diante do contexto em que foram criadas) elas abriram espaço para que conteúdos reprimidos, guardados pelos limites da ideologia liberal, emergissem no discurso dos internautas.

Multiplicaram-se enunciados do tipo “nada justifica a violência e o terror mas trata-se de um jornal racista e islamofóbico que desrespeita a cultura de povo oprimido etc, etc” ou “realmente as charges são de mal gosto e muitas não tem graça mas esses fundamentalistas religiosos são bárbaros selvagens fascistas assassinos que pregam uma religião de ódio etc, etc, etc”; e como se sabe, tudo que vem antes de um “MAS” em uma discussão deve ser descartado como uma simples senha de permissão do tipo “isso é o que eu não concordo e tenho que dizer para poder falar nesta assembleia sem ser expulso”.

Diante de um impasse desse tipo, a única saída para um liberal genuíno, seria a de poetizar como Walt Whitman (o maior dos poetas liberais) poetizou um dia: “Se eu me contradigo?/Muito bem, eu me contradigo/Sou vasto/Contenho multidões”; ou pelo menos seguir o bom conselho do poeta beat Gregory Corso que costumava a dizer: “se você tiver que escolher entre duas coisas, escolha ambas”.

O grande problema, amigo velho, é que de bons conselhos e pseudo-liberais o mundo virtual, assim como o inferno, anda muito cheio esses dias.

Texto escrito por Pablo Capistrano e originalmente publicado no Born to Zine

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