A pérola pouco aclamada do cinema de Hitchcock

por - 11:06

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Alfred Hitchcock beira o didático nesta obra laboratorial do fim da década de 40. Rope (Festim Diabólico) foi por inteiro concebido em planos sequências de apenas oito cortes sutilmente costurados, a fim de não serem percebidos. Com essa técnica, o diretor inova uma linguagem cinematográfica, e originaliza ainda mais a narrativa que por si só já nos oferece uma quebra com o tradicional.

Festim Diabólico consegue ser impactante mesmo na ausência de efeitos visuais ou cenas ágeis, pois é no trato de temas como sadismo, homicídio, vaidade humana e sua arrogância cega, que nos é entregue a obra mais verossímil do gênero naquele período. Isso porque, acima de tudo, Festim Diabólico trata do real, do que é palpável, e não do suspense sobrenatural típico. Ainda assim, durante os 80 minutos de projeção, o espectador se vê um voraz observador onipresente e onisciente. Aqui temos conhecimento do assassinato e do(s) assassino(s) desde o primeiro momento, o thriller engata e se desenvolve na maneira como eles serão descobertos.

O primeiro longa-metragem em technicolor de Hitchcock ainda traz uma discussão ousada para a época: a homossexualidade. Mas tudo isso de forma muito natural, visto que nada é deixado às claras. Essa pauta é tratada com uma sutileza ímpar e deixada nas entrelinhas para um público atento. O diretor mostra mais uma vez ser muito a frente de seu tempo, e para isso designa um elenco inquestionavelmente envolvido. Entre os atores, a primeira de tantas parcerias com o brilhante James Stewart.

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Baseado numa história real, o roteiro de Festim Diabólico se dá num cenário hegemônico: as dependências do apartamento dos criminosos, que também serve de palco para o crime. Há apenas uma externa no longa: a primeira cena. Num convite à claustrofobia, o sarcasmo e a tensão se tornam os grandes protagonistas do longa. Este é um daqueles filmes que não se consegue piscar por um segundo se quer!

Inovador em sua técnica, de interpretações impecáveis e enredo psicologicamente questionador, com ares de um noir art house, Festim Diabólico é uma pérola subvalorizada e pouco conhecida do grande mestre do suspense Alfred Hitchcock. O diretor cria um estilo narrativo que se assemelha muito, por exemplo, ao recente Funny Games (Violência Gratuita, 2007), de Michael Haneke; ou até mesmo um experimento para suas obras seguintes, como Rear Window (Janela Indiscreta, 1954) e Psycho (Psicose, 1960). Propositalmente ou não, no longa, Hitchcock nos dá pistas do que viria produzir anos depois, além de assinar um divisor de águas na sua carreira. Festim Diabólico é original até para os padrões atuais; uma aula atemporal de como se fazer cinema.

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