As mudanças do Aldan em "Pode Ser que Daqui a Algum Tempo Eu Tenha 30"

por - 11:06

Aldan- Crédito Alexandre Costa

O Aldan é uma banda de rock alternativo de Belo Horizonte. É ou era, porque com esse novo disco, Pode Ser que Daqui a Algum Tempo Eu Tenha 30, lançado no começo dessa semana, fica meio difícil tentar dar uma definição no som dos caras. Depois de colocar nas ruas o Uma Nova Humilhação, de 2012, eles passaram por uma tremenda mudança neste ano. O som tá mais doido, mais guitarra e muito menos pop do que costumava ser. O álbum também é temático, reflete um pouco sobre o amadurecimento, o envelhecer e esse tipo de coisa que todo mundo já passou ou vai passar algum dia.

Curioso com o fato de uma banda ter mudado bastante o tipo de fazer som, mesmo sendo bem aceita pela crítica em 2012 com o Uma Nova Humilhação, e com a primeira música do disco "Rogério Ceni", troquei uma ideia rápida com o Fernando Bones (baixo, guitarra, violão, sintetizador, programações, percussão e voz) e o Marcus Vinícius Evaristo (guitarra, violão, sintetizador e voz).


Por que mudar depois de ser bem recebido pela crítica com o Uma Nova Humilhação, muito mais pop que o Pode Ser que Daqui a Algum Tempo eu Tenha 30?

Fernando: Essa mudança envolveu principalmente uma nova perspectiva quanto à criação das músicas. No Uma Nova Humilhação o Marcus chegava com as músicas no ensaio e nós fazíamos os arranjos ali mesmo, o que acabava resultando num som mais simples, que nem sempre entregava sentimentos próximos do que as letras diziam. Nesse disco nós dois “pré-pré-produzimos” as músicas juntos antes de mostrar pra banda para que elas já pudessem expressar na sonoridade o que tínhamos em mente quando as compusemos. Além disso, tem o fato de que a gente não queria fazer um disco de rock no sentido restrito, porque a gente tá achando o rock chato pra cacete! (risos).

 Vocês falam bastante sobre o processo de amadurecimento no disco. O quão bom para o Aldan foi passar por esse período de “ficar mais velho”?

Fernando: Essa coisa de entrar “de fato” na vida adulta (sair de casa, casar, ter filhos, ver os amigos envelhecendo) traz muitos sentimentos novos pra vida da gente né? Vamos vivenciando outras prioridades e objetivos (e possibilidades), e isso acaba influenciando nos temas que abordamos em nossas músicas. Mas o melhor de tudo é perder cada vez mais qualquer tipo de ilusão e expectativa e fazer o que der na telha, tanto artisticamente quanto na vida.

Ver meus amigos crescendo sempre foi algo esquisito. Comento com a minha namorada direto o fato da gente se chocar que fulano vai ser pai e quando paro pra pensar, eu já tenho a idade que minha mãe tinha quando me teve. “Meu amigo de 3º série deu um nó na gravata  “Me” deu um nó na garganta”, esse trecho me fez pensar sobre essa parada. Queria que você comentasse isso, esse envelhecimento dos amigos e como é essa observação para vocês.

Marcus: Dessas condições que o Fernando citou, sobre a vida adulta, eu só vivencio a última (dos amigos envelhecendo). Então estou de testemunha ocular de tudo isso hahah… Bom, tenho uma personalidade controladora, que parte do que eu acho da vida, do que eu quero pra minha vida, para impor isso aos outros.  Então me incomoda os amigos que somem para cuidar das “coisas importantes”, que fomentam opiniões tão conservadoras que lembram meu avô (que era da UDN), que fazem previdência privada e são devotos de tudo que me sufoca. Fico pensando; se estão assim agora, imaginem quando tiverem 50 anos... Ainda bem que meu superego bloqueia isso tudo, senão eu seria o cara mais ranzinza do mundo com eles. Mas como compositor, eu posso ser...

Qual é a parada do Rogério Ceni? Não saquei se é a idade, o fato dele ser meio fominha e etc. E olha que eu sou “são paulino”, entre aspas mesmo (risos).

Marcus: Cara, o Zetti jogou muito mais que ele, né? E ainda usava uma calça bem doida (risos). Mas tem uma historinha: rolou uma matéria do jornal Hoje em Dia, em tom bem positivo, sobre o lance de Belo Horizonte ter se tornado a referência do cover. Não tô nem aí pro cover, nem acho que eles tomam o lugar de ninguém. Até porque o público deles não é consumidor de arte. Enfim, mercados diferentes. Mas achei que a matéria tinha uma inocência bem jeca. Aí, o primeiro cara a compartilhar a matéria - todo felizão - foi o Vladmir, um coxinha que estudava comigo lá na PUC. Ele é “são paulino”, desses que colocam a imagem do Rogério Ceni como foto de capa e tal. Pronto. Era o refrão que eu queria. Então é isso, é mais sobre o Vladmir, sobre o meu provincianismo (nasceu aqui tem que torcer pra time daqui!), do que sobre o Rogério Ceni (risos).

Vocês comentaram que essa música “Rogério Ceni” é sobre a cena independente de Belo Horizonte. O que há de tão errado aí que vocês e o Lupe de Lupe falam tem um tempo sobre isso?

Fernando: Eu acho difícil falar de cena sem público. E o que tem acontecido em BH é que há cada vez menos público interessado em ver shows de bandas independentes. A galera que lotava os eventos naquele período ali entre 2007/2010 já tá mais velha, sem saco nem saúde pra ver show quinta-feira de madrugada e etc, e a galera mais nova tá em outra onda. Os hábitos de consumo de música tem mudado muito também. Pessoal não ouve mais discos inteiros, o que acaba gerando uma relação menos próxima com as bandas. Some-se a isso veículos de imprensa que enxugam cada vez mais seus quadros e impossibilitam uma cobertura ampla e crítica dos eventos e temos “algo de podre no reino de Belo Horizonte”. Mas no que diz respeito aos artistas, tamo muito bem servidos por aqui!

Depois de lançar o disco, qual o próximo passo? O que vocês têm em mente?

Fernando: Produzir clipes cada vez melhores, o que tem sido um meio cada vez melhor pra divulgação do trabalho, e rodar bastante pelo país divulgando o disco, especialmente em estados que a gente nunca foi. E seguir investindo e reinvestindo pra fazermos trabalhos cada vez mais legais, do jeito que der na telha! (já combinamos que o próximo disco vai ser de punk, risos!).

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