Faixa a faixa: Graxa – Aquele Disco Massa

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A cerca de dois anos atrás, fizemos um faixa a faixa com o Angelo Souza, artista que responde pela alcunha (e pelo projeto musical) Graxa. Naquela época, o camarada lançava o seu primeiro disco solo chamado de “Molho”, com uma sonoridade bastante lo-fi, foi um dos melhores discos do ano de 2013 e que saiu em vinil e colocou o camarada em evidência no independente nacional.

Agora, ele retorna com seu mais novo trabalho “Aquele Disco Massa”, que saiu recentemente para audição em seu bandcamp. Diferente do primeiro disco, este tem muito mais guitarras, além de uma qualidade de gravação bem superior. Ambos os trabalhos convergem na enorme presença de convidados, se no “Molho” temos Aninha Martins, neste temos Isaar. Além dela, nomes conhecidos da cena pernambucana como Juliano Holanda e Grilowsky e integrantes da Mopho participaram do novo trabalho, entre outros nomes.

A cozinha foi a mesma que vem acompanhando o Angelo ao vivo em seus shows, Hugo Coutinho, Tiago Marditu, Rama e a presença de Leo Vila Nova nas percussões em faixas especificas. “Aquele Disco Massa” vai sair inicialmente no formato K7, com um link QRCode para quem quiser baixar o disco em formato digital. Pra quem estiver pelo Recife, Graxa tem shows marcados na Galeria Castro Alves no final do mês e no bar Burburinho no começo de Junho (confirme presença), mas outros shows estão previstos na sequência. A ideia do Graxa é sair tocando pelo estado, região, país e todos os locais possíveis no mundo! Então, produtores, fiquem atento ao som e entrem em contato com a galera.

Agora, pegue uma cerveja pra entrar na vibe, de play no som e saca o nosso faixa a faixa sobre o tal do disco massa:


01. "Intro"

Uma faixa instrumental curta, para entrar no clima roqueiro do disco todo (ou seja, fosse bem conciso). A guitarra é a principal protagonista do Aquele Disco Massa?

Angelo Souza: É. Adriano Leão disse pra mim, durante a mixagem: - Esse teu disco é de guitarra! A turma tem medo de guitarra. Esse teu disco não. É um disco bem pancada, só tendo uma "aliviada" em duas faixas do disco, mas mesmo assim, a guitarra tá presente, uma mais que a outra.


02. "Marcho com as Vadias"

Esse disco explora em suas letras diversos temas em evidência no Recife e até no Brasil. Estas composições foram feitas para o disco? Ou tem alguma coisa velha, que foi reaproveitada?

AS: A "Intro" era um riff antigo - eu tocava esse rifff na praça da Cardeal, mostrando pro pessoal. Eu queria colocar uma letra nele, mas não rolou. Aí eu pensei: porque não um instrumental? Aí eu aproveitei como instrumental. As composições são bem atuais. "Marcho com as Vadias" eu fiz inspirado em duas mulheres. A primeira foi Beauvoiur e a segunda foi Keyse Menezes. De Beauvouir veio da frase dela: não se nasce mulher, torna-se mulher. Pra quem faz parte de minorias entende essa frase perfeitamente. E de Keyse veio em relação a conversas que tivemos sobre todas as manifestações da marcha, onde eu queria me inteirar e ela teve toda a paciência, carinho atenção de me explicar.


03. "Pesquisa Institucional de Mercado"

Papo reto, qual teu problema com o jornalismo? Ou seria algum jornalista?

AS: O problema que eu tenho com jornalismo é o mesmo que qualquer pessoa que procure informação que não seja diretamente, que não seja absorvida, e aceita, de grandes veículos, saca, sem ter um senso de noção do todo ou do tudo que está envolvido nisso - ou o mais próximo disso. Não é com a profissão. Nenhuma profissão faz mal a ninguém! Admiro muito e sou fã de muitos trabalhos jornalísticos, até mesmo dos que não exercem a função - Confissões de um Comedor de Ópio é um excelente trabalho jornalistico - o Junkie de Burroughs também... Enfim... dos que são realmente jornalistas eu poderia citar Mencken, Thompson, Capote, por exemplo. é isso. Só gente fera numa profissão bem fera e sensacional! Seria o mesmo que alguém me perguntasse se eu teria algo contra a medicina ou sobre algum médico em específico, no caso de Dr. Por favor, do Molho, saca?


04. "Não Alimente os Animais"

Fala um pouco do processo de composição e gravação desse disco. Ouvindo, ele me parece bem diferente do Molho, foi gravado no mesmo lugar?

AS: Não, não foi. Ele foi gravado em vários lugares, sem programação de bateria - nunca mais faço programações de bateria, isso é pra quem é fera nessa onda, como Mingus e Matheus e outros aí que eu não lembro. Esse é mais feeling de palco - minha intenção é/era essa: um disco pra ser tocado ao vivo, pra alimentar o repertório, deixá-lo mais amplo, e numa ideia como a dos Ramones: "1, 2, 3, 4" e pronto: cacete e até a próxima canção. Sobre a música. Eu compus "Não Alimente os Animais" numa época que eu tava lendo O Homem e Seus Símbolos, de Jung. Procuro trabalhar com símbolos nessa canção, desde a música até a letra. a locação, os personagens, o que tudo que está envolvido remete. se alguém ouvir direitinho, e conhecer o parque 13 de maio, é possível se deslocar até lá pelo fluído de lembrança e da associação. Mas isso pode se aplicar a qualquer parque do mundo, basta caber na métrica da música, como o Parque da Redenção, lá em Porto Alegre, sendo que lá não tem Sagui - que eu lembre - mas tem pedalinhos.


05. "Gengibre"

Um ponto notório seu, seja no primeiro disco e também nesse segundo, é que você se inclui em suas próprias letras. Sejam seus defeitos, sejam suas qualidades, você se inclui inclusive na crítica. Que é o caso de "Gengibre", que não é sobre você, mas na letra você fala em primeira pessoa. Isso é uma autopreservação, ou apenas uma tentativa de não ser mal interpretado nas letras?

AS: Como eu disse naquele outro faixa -  eu acho: eu absorvo e faço as letras/músicas. A diferença do Molho, além da sonoridade, é que esse é mais voltado ao alheio e não a mim. Mesmo assim, eu estou incluso, já que o ponto de vista é meu. não é que seja algo de "autopreservação"; é assim que eu funciono, foi assim que aprendi, fui influenciado, pelo meu meio. é dessa forma que acontece. Eu nem tenho como, avaliar a interpretação dos outros. Eu vou lá faço, como diziam os antigos.


06. "Eu Acredito a Muito Tempo"

Essa é mais uma que vai no caso, falando de você, mas mandando o recado direto.  E essa vibe meio soul, to viajando, ou é por ai essa guitarrinha base? Fala mais sobre onde o disco foi gravado, vários lugares, mas onde? Com quem?

AS: quando a turma ler isso aqui, creio eu, vai ter toda a ficha de quem participou comigo nessa construção de disco num link bem fera, pra todos ouvirem. Me sinto bastante honrado por todos que participaram no meu álbum, saca? Desde os que são que tocam efetivamente desde os que foram convidados, todos, inclusive a mim mesmo, são partes do que formam o álbum em si por total.


07. "Aquele Disco Massa"

 O Molho foi uma espécie de marco na sua vida, pelo menos enquanto artista "Graxa"? Por que ele é realmente um disco muito massa.

AS: Será que Aquele Disco Massa faz referência ao Molho? Será? Pode ser. Mas se você for como eu e guardar seus discos em ordem alfabética então o disco massa não tem como ficar entre dois dos Beatles. Pode ficar entre dois de George Harrison, né? E isso ae. A ideia da música é fazer referência a um disco massa e são vários os discos que são massa. Sim, o Molho foi muito importante. Me disseram que foi o disco mais foda lançado em Recife, por vários motivos, desde o Mangue Beat. Gente bacana, inteligente e que manja de música. Que fez parte dessa época e tudo. O Disco Massa também é. Gosto muito dos dois.


08.  "Eu Não Kiss"

Essa e a próxima faixa saíram ano passado em um compacto. E eu sei que você tem muita música, tanto que saiu uma entrevista falando que você iria lançar dois discos. Queria que tu falasse desse processo de escolha das músicas pro Aquele Disco Massa, teve alguma que ia entrar e não entrou, por exemplo Sempre bom lembrar que "Um Bando de Crocodilos" ia ficar de fora do Molho.

AS: Que eu lembre não. Mas pela ideia de que eu tinha de lançar um disco duplo, aparentemente, todas as músicas que vão sair no outro disco poderiam ser músicas que estariam nesse. Ai as escolhas das músicas foram em cima dos temas do disco, que são vários, mas que giram em torno de uma só coisa: cultura/indústria cultural.


09. "Soul Socialista"

É uma crítica ao antigo governador do estado de Pernambuco. Nela, você diz que se não fosse ele (ou você), não haveria graxa no palco. Quer falar sobre a ideia da letra? E esse arranjo diferente do original do compacto.

AS: A crítica não é necessariamente ao governador, mas sim ao sistema de governo. Tirando a parte da Janta cinematográfica, tudo que tá na letra pode ser aplicado ao Paulo, já que o mesmo segue a linha de pensamento do antigo governador. A letra fala sobre política cultural. Fala sobre prédios gigantes; estádios de futebol;  aterros na praia, ambientalismo; articulação, a amizade com Dona Dora, do (apartamento) B; shoppings descolados, com ar condicionado, no lugar do mangue... porque o mangue é cheio de lama, o mangue fede, ninguém quer a catinga, né? Ninguém quer. A turma quer tudo bem limpinho e cheiroso. Agora a pessoa pode entender da seguinte forma, vendo o mangue como o estilo musical, saca? E aí, como tudo hoje é bem plastificado, musicalmente falando, até humanamente também, né, você pode até se questionar como as políticas culturais são aplicadas em coisas mais plastificadas do que as coisas que são mais da rua, que são mais do mangue, saca? Será que é por causa do "fedor"? Deve ser. O que pode ser? Temos que descobrir. Temos que pensar. O que a gente vai fazer? Por que isso é assim? E agora? E tal. É mais ou menos isso.

Se alguém sacar essa música vai ver como ela é bem mecânica, principalmente pela bateria - tinha uma linha e baixo que eu fazia na antiga, que acentuava bem isso. Mas o barato é a batera. Essa quebrada de tempo e ela vai e volta, é como se fosse um grande canteiro de obras. a guitarra "derretida", como me disse Neco (Tabosa) também faz isso. A parte líquida da construção. E por aí vai. é como eu disse. Eu não tenho como saber o que vão saber, morô?

Na letra dá pra sacar o quanto é contraditório em alguns pontos a própria política, no sentido de que: como e para que e por que eu vou aterrar a praia - evitando os danos devido ao avanço do mar - onde a causa disso fui eu mesmo que fiz. Fui eu mesmo que fiz isso e depois digo que sou ambientalista. Eu desmato o mangue, faço um shopping no lugar do mangue, mando um monte de família pra fora da favela, e sou ambientalista e me preocupo com a minha população. é isso. Depois eu apareço sorrindo, segurando uma pá, ou então num jantar, com Jarbas. Você viu essa foto, recentemente? Jarbas e todos os socialistas e amigos, tomando comendo o tradicional cozido de Jarbas e tomando cachaça envelhecida - nada contra, sou bem adepto. Todos sorridentes e alegres. Como é bom ver as pessoas assim, não é? É uma maravilha. É possível até que você se pergunte se tem algo errado nessa imagem, saca? Se você for um professor, por exemplo. Um cara que anda numa porra de um busão/metrô lotadaço, o cara que vai num hospital, usar pulseira de cor diferente, e cuidar da virose. Esse pessoal pode achar algo estranho numa imagem dessa. Num momento desse. Como eu queria encontrar com Jarbas, no Vila Dois Carneiros, lotadaço e a turma roçando na gente. Como eu queria ir na UPA, aquela perto do Geraldão, e ver André Ferreira com uma virose e uma daquelas pulseiras. Eu definitivamente acho que, se as pessoas acreditam que o nosso estado natural é estar constantemente tomando no cu, então que seja para todos, afinal, somos uma democracia linda e sem igual. Todo mundo tem que comer também o cozido de Jarbas.


10. "Usando o Nome do Senhor"

Qual sua relação com a religião? Você segue alguma igreja? Ou apenas a do rock? Ouvindo o disco na íntegra, assim com o Molho, ele tem muitas críticas sociais, mas este disco me parece mais certeiro ou direcionado.

AS: O Molho não tem críticas sociais. Onde tem crítica social no Molho? Eu acho que disse antes, se não, vou dizer de novo, que esse é mais voltado pro alheio do que pra mim. O Molho tem mais críticas pessoais. Esse foca mais no que me cerca relacionado a cultura. Aí religião faz parte também. Eu acho religião interessante. Ela está em todo canto. Leio sobre elas também. Já fui na igreja, no terreiro, no centro espírita, já pensei em ir a um centro budista, acho a maior viagem doideira os que os japoneses fazem com os aviões e aqueles harakiri; mas a mais legal, para mim, foi o bar. Acho que já sonhei em ser um religioso, tipo um Papa. Já acreditei que seria algum tipo de Jesus. Uma vez tentei ressuscitar um passarinho morto, mas ele não ressuscitou. Pensei que meu sangue teria algum tipo de "substância" que iria trazer a cura de alguma doença incurável, mas isso também não aconteceu. Essas coisas da religião.


11. "Só me Restam os Gemidos"

A áurea do rock anos 90 é o norte durante todo o disco (esta música é um belo exemplo disso). Você não tem medo dele soar meio datado?

AS:  Eu tive que procurar no Google o que seria a áurea do rock anos 90. Gostei muito desse termo. A áurea do rock anos 90... Num sei. Eu pensei no disco do Daft Punk, o Random, que remete uma época e soa bem atual e é feito por dois "robôs". Eu pensei também numa máquina do tempo, saca, um disco futurista com uma banda só de máquinas e robôs. Num sei. Fiquei com esse termo na cabeça. Áurea dos anos 90.

Sobre ele soar meio datado eu não sei. Eu realmente não sei. Eu gosto muito do rock dos anos noventa e ele é bem vasto. Aqui em Recife teve o mangue, lá em Maceió tinha a Mopho, lá no Rio Grande tinha o Júpiter Maçã. Nos outros continentes também. Tem um monte de rock diferente que remete épocas diferentes ou são bem atuais. é variado. gosto muito da década de 90, foi uma grande época do rock. Eu era guri nessa época e ouvia muitos rocks. Comprava CDs... era massa. Vai ver esse disco é um disco bem jovem, de rock, com zuada. Uns rock doidos. Mas tem outros estilos. Como em "Gengibr"e que é uma grande lambada do rock. Ela me lembra Maria do Bairro com Caetano Veloso. Tem "Não Alimente os Animais", que é tipo música de bailinho. Tem "Flower Pop na Cabeça da Pomba", que é noise estilo Velvet. Tem "Disco Massa" que a ideia é uma parada discoteca e pá. Tinha um clube em Areias, das antigas, o Globinho. Seria massa que ela tocasse lá. Tem Blues-funkeado, em eu acredito. Tem várias épocas que transitavam pelos anos noventa, mas que remetiam década passadas. Tem "Pesquisa" também, que é uma parada estilo Kinks com distorção viajada em Stooges. "Eu não Kiss" já um grande rock inspirado em T-Rex e no próprio rock mesmo. "Soul Socialista", que eu acho bem Beatles. Por aí. É isso!


12. "Flower Pop na Cabeça da Pomba"

O que seria um Flower Pop? E o que a pomba fez para merecer isso?

AS: Flower Pop é um termo hippie, música hippie. Do movimento paz e amor. A pomba é o símbolo total do movimento hippie. Ee aí é isso. O Flower Pop - só existe - na cabeça da pomba. Essa música veio do seguinte. Quando alguém tenta definir seu som e coloca como psicodélico, saca? Num sei onde tem de psicodélico no Molho, ali tem delirium tremens e nada de psicodélico. Por isso que o LSD dissolve-se na cachaça. Essa ideia dessa frase veio da Frase: LSD de pobre é a cachaça, mas não vamos generalizar, não é?

E aí é isso. Uou e um abração

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