Rob Mazurek & Exploding Star Orchestra – Galactic Parables Vol.1

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Galactic Parables Vol.1Galactic Parables Vol.1

Rob Mazurek

Cuneiform Records (2015)

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O músico e compositor Rob Mazurek, de Chicago, é um dos mais prolíficos e ativos nomes do jazz dos últimos 20 anos. Além de uma vasta e rica carreira como líder de quartetos e quintetos, Mazurek também age como canalizador de colaborações e projetos. Desde o início de sua carreira, ele vem sendo um importante integrante de diversos projetos voltados à música instrumental jazzística e na linha estética do avant garde tanto nos EUA como no Brasil e na Europa. É, então, ao lado de nomes como Pharoah Sanders, Bill Dixon, Maurício Takara, Roscoe Mitchell, Yusef Lateef e Jim O’Rourke que Mazurek dá novas facetas à sua criação músical em conjunto, de unidades que provém da multiplicidade e suas relações, nada mais jazzístico.

O selo que lançou o último e, provavelmente, mais representativo e abrangente trabalho de Mazurek se chama Cuneiform Records e o projeto que canalizou esse acontecimento é o Exploding Star Orchestra que, em 2015, celebra 10 anos de existência. O Galactic Parables Vol.1 é um lançamento de dois CDs e três discos nao tiragem em vinil e o grupo é composto de: Rob Mazurek: trompete e electrônicos; Damon Locks:, texto, voz e eletrônicos; Angelica Sanchez: piano; Jeff Parker: guitarra; John Herndon: bateria; Matthew Lux: baixo; Matthew Bauder: saxofone tenor, clarinete; Chad Taylor: bateria (CD 1); Guilherme Granado: teclas, sampleadores, sinetizador, voz (CD 1); Maurício Takara: cavaquinho, electronicos, percussão (CD 1); Nicole Mitchell: flauta, voz (CD 2).

Apenas com gravações ao vivo, o álbum põe lado a lado apresentações no Sant’Anna Aressi Jazz Festival no dia 28 de agosto, em Sardenha, e no Chicago Cultural Center em 18 de outubro, ambos registrados no ano de 2013. Nas duas cidades o grupo toca os mesmos temas, compostos de recitação de textos e poesias influenciados pelo poeta Amiri Baraka, improvisos e melodias principais. Evidencia-se, à primeira escuta, que na Itália o conjunto coloca mais peso na intensidade e movimentação dos componentes, os temas são normalmente acelerados, de textura mais densa e a tendência à atonalidade e experimentação fora do registro melódico tradicional ganham uma atenção especial. Já em Chicago, as sutilezas se fazem mais presentes, o silêncio é explorado de maneira mais atenciosa e a banda parece se preocupar mais com a sincronização clássica das cadências e melodias. A diferença é clara: em Sardenha, a faixa “Helmets of Our Poisonous Thoughts #16” se desdobra sobre uma bateria repleta de pratos marcados e contratempos percussivos que ritimizam um preciso solo de guitarra sucedido pela entrada do pesado e grave saxofone de Matthew Bauder. Em Chicago, a mesma música se espacializa entre silêncios e curtas texturas de piano e saxofone para finalizar com um tema cheio e limpo.

Trazendo à tona sua identificação com o desenvolvimento musical do jazz e suas vertentes na cidade de Chicago, no Galactic Parables Vol. 1 é evidente a influência de grupos como o Art Ensemble of Chicago e as experimentações do Association for the Advancement of Creative Musicians, associação de músicos de Chicago para o desenvolvimento do que eles chamam de “Great Black Music”. A abordagem multi facetaria da obra de Sun Ra e seus grupos também toma um papel importante na formação da Exploding Star Orchestra. Os textos recitados de maneira seca, direta e repetitiva parecem se formar de um encontro entre o jazz de protesto negro de obras como “We Insist”, de Max Roach, e as quebras semânticas da poesia beat. Musicalmente, o já citado Sun Ra parece ser um dos mais influentes músicos nesse trabalho. Tanto na estética da “música cósmica” quanto na transição de pequenas formações solistas para grandes melodias sincronizadas, a maneira como o grupo interage segue os moldes da Sun Ra’s Arkestra. Acerca de momentos separados, é possível traçar paralelos entre o piano de Angelica Sanchez e a imprevisibilidade de Cecil Taylor, os teclados do brasileiro Guilherme Granado e o jazz fusion inglês, a flauta de Nicole Mitchell e os estudos de Anthony Braxton, entre outros. Rob Mazurek parece contemplar, enquanto regente e diretor criativo, as diversas facetas que o jazz tomou na segunda metade do séc XX, fazendo da obra em questão um marco para o rumo que o estilo vem tomando desde os anos 50.

Em uma recente série de artigos para a revista The Wire intitulada “Jazz Searches for The New Land”, Derek Walmsley descreve a trajetória do estilo na segunda metade do século XX como um movimento de emancipação cultural e social dos negros estadounidenses, buscando criar utopias sonoras através do jazz. Desde as ilhas imaginárias de Herbie Hancock até as viagens interestelares de Sun Ra, Rob Mazurek parece ter percorrido os trajetos traçados ao longo dos últimos 60 anos para, unindo fecundamente suas impressões, criar sua própria utopia musical, seu próprio universo sonoro.

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