Um mergulho no guia comum do centro do Recife

por - 11:03

[caption id="attachment_27027" align="aligncenter" width="695"]Ilustração: Tatiana Móes | Projeto Gráfico: Frederico Floeter e Vitor Cesar Ilustração: Tatiana Móes | Projeto Gráfico: Frederico Floeter e Vitor Cesar[/caption]
Em tempos de pressa, de modernização, tentativas que façam as pessoas pararem e contemplarem o mundo ao seu redor serão sempre louváveis. O livro Guia Comum do Centro do Recife é uma dessas tentativas de mais uma vez, fazer com que a população que movimenta uma cidade, reflita e volte a perceber o entorno dos locais que passa diariamente, hoje em dia esquecidos.

Utilizando a premissa da tentativa de classificar as coisas, tentando colocá-las em sessões, como pensava o escritor argentino Jorge Luis Borges, a artista, designer, professora, estudante e pesquisadora Bruna Rafaella Ferrer teve a ideia de criar um guia com tudo que um dia foi comum e hoje é dito estranho ou passa despercebido no centro do Recife. Citando as palavras ditas na apresentação “com este guia, temos a idílica pretensão de propor um reencanto entre este espaço e as pessoas”.

Contando com uma equipe responsa de artistas e com a ajuda de outros interessados no centro da capital pernambucana, ela conseguiu criar um mapa com pontos comuns onde as pessoas passam diariamente e nem sempre percebem, que foram ilustrados em fotos ou passados em textos. Interessante perceber que Bruna passou alguns anos morando fora do Recife, talvez o olhar de longe e a saudade tenham feito com que aflorasse nela esta necessidade de mostrar como o banal ainda é belo e resiste ao tempo numa cidade que cresce desgovernada e parece ter esquecido de sua própria história.

Basta o simples ato de olhar para cima e você irá perceber os gárgulas que protegem e escoam a água do telhado do mercado público do bairro de São José, um lugar de livre comércio que se mantem vivo e pulsante desde 1875. Você também pode olhar para baixo e perceber trilhos antigos nas ruas do Recife Antigo, bairro central e nascedouro da capital de Pernambuco, por onde passavam bondes até a década de 1950, tal qual uma cidade europeia em pleno nordeste do Brasil.

Praça do Sebo

O guia aproveita também para falar de lugares que resistem ao tempo, a especulação imobiliária feroz das grandes cidades e do descaso de nossos governantes. Nesta parte do livro, o tom é de critica, revolta e respeito, pela força dos que mantem vivo locais como o Cais José Estelita (tão falado em tempos de movimento urbanístico que tem assombrado a cidade com espigões cada vez mais altos), ou o “queimado” bairro dos Coelhos, que resiste firme as chamas alarmantes do descaso, tal qual o esquecido e abandonado bairro do Pilar. As pessoas também resistem em seus hábitos, basta passar pela Avenida Guararapes ou na praça do sebo durante o final de semana e ver a quantidade de livros e vinis usados sendo vendidos, trocados, em um comércio informal que passa de geração em geração.

Uma homenagem é feita aos lugares que não existem mais, como a outrora famosa ponte giratória, hoje em dia trocada por uma ponte que não gira. Segundo minha mãe me contava, o ritual de giro da ponte era incrível, as pessoas contemplavam o caminhar por cima do rio e do mar, em meio a bela paisagens e pontes. No século XIX, o centro do Recife era tomado pela arte do cinema, diversas salas lotavam em sessões que alternavam da manhã até a meia noite. Lugares com o Moderno, o Art Palácio, o Veneza, hoje em dia são apenas nomes na memória dos mais antigos, que relembram com saudosismos dos ótimas sessões que viram com amigos e familiares. Hoje em dia, o único cinema de bairro advindo de tempos antigos ainda pulsante é o São Luiz, localizado na beira do rio Capibaribe, com belos vitrais e uma arquitetura imponente, provavelmente um dos (se não) a sala mais bonita do país.

Os lugares úteis ainda em atividade são citados com alegria, inclusive o lançamento do guia se deu em um desses locais, o Chá Mate da rua Siqueira Campos, ao lado da praça do Sebo, que funciona tem mais de trinta anos. Além dele e da praça, existem espaços para amolar qualquer tipo de metal, comprar cadarços, ler um livro, como a biblioteca pública estadual que abre diariamente, com diversos materiais que contam a história da cidade e que ainda presta o serviço de registrar obras inéditas, entre outros espaços que merecem sua atenção. O guia ainda cita locais para irmos em silencio, fala de lendas atreladas a objetos esquecidos em pontos estratégicos da cidade e de espaços invisíveis, como a casa maçônica da conciliação (minha antiga vizinha).

Maçonaria

Provavelmente pela estreita relação que tenho com o centro do Recife, o livro tenha me tocado tão intensamente e me trazido memórias de tempos que parecem ser de outra vida. Cresci no centro da cidade, seja visitando lojas de discos ou em espaços culturais. Me alimentando no famigerado beco da fome, que ficava em frente à casa da minha avó, que morava no edifício Suape. Há três anos moro no bairro da Boa Vista, da minha janela consigo ver a dor da abandonada fachada do Teatro do Parque, da mesma maneira que via a ruina da casa maçônica rodeada de carros.

Consigo pensar facilmente em vários locais para um segundo volume deste belo trabalho, como também consigo pensar quão interessante seria existir um guia destes em várias das grandes cidades e capitais do Brasil. Ou vocês acham que não existem histórias interessantes na rua Areia, no bairro do Varadouro em Jampa? Ou nos becos da Ribeira em Natal. Nos arredores do Theatro Quatro de Setembro em Teresina. Nas ruas que perpassam a correria da estação da luz em São Paulo. E por ai vai...

Caso tenha ficado interessado no Guia Comum do centro do Recife, o mesmo terá mais um lançamento no edifício AIP em breve (fica ligado aqui), sendo distribuido gratuitamente no evento. Caso você more longe, ou nem seja pernambucano mas ficou interessado em conhecer um pouco da história desta manguetown, temos uma cópia do guia para SORTEAR. Para concorrer, basta compartilhar está matéria em modo público no Twitter ou Facebook e comentar nesta postagem, com o link que comprove que você repassou esta informação aos seus amigos. Em breve, sortearemos o livro entre os comentários válidos, basta você ter sorte do seu ser o contemplado pelo Random.org!


Rio Capibaribe

PS: Todas as fotos meramente ilustrativas, feitas por mim e postadas no instagram do Hominis CanidaeNo guia tem diversas fotos muito mais bonitas que essas.

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4 comentários

  1. Muito massa, semeando uma tradição freyreana dos guias pelo Recife contemporâneo!

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  2. Louca para ter a minha edição, para desfrutar, e compartilhar e pensamentos vivos de um Recife que amo. https://www.facebook.com/isabela.belafaria?fref=n...
    Isabela Faria

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