Um papo sobre música e criação com Viktor Longo

por - 11:08

Viktor Longo

Nascido e criado em Nova Iorque, Viktor Longo é um dos expoentes da cena independente nova iorquina de acordo com a revista local Deli Magazine. Em sua música é possível ouvir desde os ecos da cena punk dos anos 80 e 90 aos agudos do gospel evangélico, passando o pop do Prince, da Cat Power e a agressividade descarada de rappers como 50 Cent.

Recentemente o músico colocou nas ruas seu primeiro videoclipe para o single “The Feeling”, lançado primeiramente em seu site. A música é uma balada direta, talvez um dos mais representativos trabalhos de Viktor. Seu estilo é único e popular. Viktor Longo representa uma geração ímpar na história da música popular estadunidense. O século XX e sua aceleração econômica e produtiva no país acumularam 100 anos de música popular, rádio, jazz, blues, rock n roll e muito ruído. A música de Viktor se encontra no mar de produtividade no qual esse processo desencadeou depois de um século de maturação. Seu trabalho é pop, elétrico, nasce do concreto, mas sua abordagem é folclórica, natural e inata. Sua guitarra é um instrumento da terra e sua voz entoa tons naturais em meio a ancestrais, luzes e prédios de NYC.

Aproveitando esse lançamento divulgado em primeira mão aqui no Altnewspaper, conversei um pouco com o Viktor e ele contou de sua abordagem musical, seus gostos e seus sentimentos acerca da música como uma expressão atemporal e suas concretudes temporais como uma contradição característica, senão essencial para sua existência.

Viktor Longo

Você não tinha dito que não consegue nem ouvir Bach sem ficar pensando no que faria diferente?

É, eventualmente eu me perco nesses pensamentos, mesmo sem conhecer a estrutura com a qual ele compõe, é uma coisa de qualquer pessoa que pensa em fazer música eu acho.

Quais foram suas primeiras experiências musicais?

Acho que a primeira foi com o Beck! Sabe aquela “I’m a loser baby, so why don’t you kill me..” ? Essa simplicidade me impactou muito. Mas também adoro hinos e narrativa, muito rap e gospel.

E você tem uma estrutura que te inspira ou que você usa para compor vindo desses estilos?

Hmm, acho que até recentemente eu estava inspirado por outro tipo de música.

O processo mudou com o tempo então?

Na verdade é mais porque quando eu comecei, assim como todo mundo, o melhor a fazer era pegar partes de músicas e até letras inteiras e refazê-las mas acho que de uns tempos pra cá é bem diferente... diria que é como entrar numa floresta com uma venda nos olhos e só ir sentindo o caminho então o mundo vai ficando mais claro. Nunca compus nada que eu pensasse “Início, Meio e Fim” e é isso. “The Feeling”, por exemplo, eu fiz tudo na hora, foi um impulso, agradeço até hoje por estar gravando naquele momento.

É, você nunca pega uma estrutura para “encher”?

Não nunca. Quer dizer, nem sempre é como mágica, tudo na hora, mas o mais interessante é quando é assim, com certeza. É como se fosse um diretor que recebe um roteiro: ele tem uma base para trabalhar, certas estruturas quase instintivas mas ele tem muita liberdade porque instaura novos patamares naquilo tudo.

Falando em roteiros e filmes, você tinha mencionado um aspecto do Kubrick com o qual você se relacionava....

Tinha falado dos detalhes, eu gosto de criar uma música na qual os detalhes compõem o seu universo, talvez por isso prefira apresentações pequenas e obscuras a grandes shows. Os detalhes e a coincidência para mim criam os melhores contextos. Eu prefiro que as pessoas conheçam minha música porque me viram num pequeno bar por acaso depois do trabalho do que num show lotado. Eu também sou muito tímido então gosto de um ambiente mais pessoal e menos holofotes, até porque não se trata só da música ou da imagem, pelo menos pra mim... Sabe o filme do Harry Potter? Então, acho que música é como se fosse a plataforma 9 ¾, a minha mídia não é o som, é algo entre o físico, o audível e o espiritual, se você quiser...


Existe algo nessa interseção que não se pode explicar?

Claro, sem se utilizar de toda essa gama de mídias nem existe como. É, explicar é impossível! Se fosse possível eu só falaria sobre e não o faria eu acho. Até escritores e oradores! Eu tenho certeza que o espaço entre e as palavras e o molde dos parágrafos influem na maneira que eles criam. Acho que a arte está entre o campo das palavras e das imagens, é realmente impossível fazê-la sem que exista alguma interseção misteriosa...

Misteriosa?

Ahh não vou saber explicar essa. Mas eu acho que tem a ver também com vaidade e altruísmo. Talvez contradição e mistério sejam análogos nesse caso. Por exemplo, pessoas que não são “artisas” propriamente ditos também abordam atividades de maneira artística entende? Tem a ver com o capricho, com alguma coisa que faz você menos separado das pessoas para quem você faz algo..

Uma formulação mais concisa rola ou é pedir demais?

Acho que o impulso artístico é uma maneira egoísta de suprir desejos altruístas. Vê, ta aí a contradição de novo...

Misterioso...

Por exemplo, quando se canta sobre dor, não acho que seja a dor o objeto de interesse... eu pessoalmente acredito que nós sentimos todas as emoções a todo momento mas só estamos conscientes de uma pequena seleção. Nunca é sobre a emoção em si (a arte), mas sobre celebrá-la/transcende-la, por isso eu amo gospel e reggae. Mas não me leve a mal, eu amo fazer coisas vulgares e baratas também, é uma realidade que me interessa.

Você tenta incorporar todas essas influências no seu som?

Acho que é quase impossível. Por isso que eu gosto da ideia de mixtapes também, elas contemplam melhor esse espectro que todos somos. Eu amo diversidade mas para fazer um álbum é necessário um caminho determinado.

Por isso você sempre fala da Nina Simone então..

Exatamente! (risos). E também eu acho que isso tudo tem muito a ver com religião e fé. A situação da performance tem a ver com uma comunhão e a certeza de que aquilo tudo tem um sentido comum para todos, você quebra barreiras sociais em nome da confiança nos outros. E não só nesse sentido, mas até mesmo num sentido prático. Acho que as pessoas estão precisando de um pouco de religião na cara delas como uma realidade humana, é muito mais subversivo do que dizer “foda-se Deus”, pelo menos em Nova Iorque isso é verdade. Sinceramente acho que estamos chegando num ponto em que eu me sairia melhor escrevendo uma música.

Fotos e vídeo: Nika de Carlo

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