Nobat lança "O Novato", single do seu próximo disco

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O Novato - Nobat

O artista mineiro Nobat lança nesta quinta-feira (13) "O Novato", música que faz do segundo álbum dele, que tem o mesmo nome da faixa. Nela o autor explora um pouco do lado existencial, das crises e a angústia de um soldado num ambiente de guerra. O som foi produzido por Daniel Nunes, do Constantina, e conta com participações de Yan Vasconcelos no contrabaixo acústico, Tiago Eiras (Dibigode) nas caixas, Daniel Nunes (Constantina) nas alfaias e vibrafone, Leonardo Brasilino no trombone, Juventino Dias no trompete e Tiago Ramos no saxofone.

Sacando um pouco a brisa do novo single do Nobat, resolvemos trocar uma ideia com ele sobre o disco, que deve sair em outubro, as influências, esse processo de composição diferente do que havia sendo feito e do fato do álbum estar cheio (de verdade) de participações. Leia a entrevista e ouça o "O Novato" abaixo.


Tava comentando, em alguns pontos, talvez pelo vocal, esse som me lembrou um pouco daquela psicodelia dos anos 70 no Brasil. Você bebeu nessa fonte?

Muito, incrível que você tenha captado isso! Digo incrível porque é um disco que tem um lado contemporâneo que muitas vezes encapa a brasilidade que pra mim é o principal panfleto estético do disco. Tem muito de 70 ali e de outras coisas. A música brasileira é o meu principal lugar de pesquisa. Uma vez alguém disse que esse disco era uma mescla de Macalé com Broken Social Scene e eu derreti, achei foda. Inclusive, pirei quando você disse a coisa do Marinho Castellar! Não foi um artista que ouvi tanto, mas percebi uma conexão absurda! Vou até ouvir mais depois disso. A capa que foi composta pelo Bruno Nunes resolveu isso muito bem, ele também teve uma sensibilidade muito rara pra buscar esse relevo estético dentro da música. A capa disse bem o que pretendo, apesar de soar um tanto pretensioso isso – mas o que importa? -, que é anoitecer a música popular brasileira.

O que as contribuições desses músicos ajudaram em "O Novato"?

Todos os músicos foram escolhidos a dedo para traduzir intenções pré-definidas por meio de seus traços e comportamentos dos instrumentos. Eu fiquei durante um ano inteiro desenhando os arranjos num software online bem fraco, mas me serviu muito pra registrar ideias que eu tinha e que não sabia como descrever, comunicar ou traduzir. Em "O Novato", por exemplo, eu tinha uma linha de violoncelo, a bateria e teclados prontos. Daí, quando convidei o Daniel pra produzir comigo o disco e ele topou, levei todas as demos prontas e a gente começou a gravar. Ele percebeu outras possibilidades e acrescentou àquilo novos conteúdos, como o naipe de metais, a própria introdução e foi incrível quando ouvimos aquilo em MIDI mesmo. Depois de desenharmos tudo, coisa que serviu pra que criássemos também uma plataforma de comunicação, de troca, convidamos os músicos que acreditávamos que trariam uma cor bonita a cada instrumento e cada um deles acabou imprimindo também suas digitais à música. Foi e está sendo um processo muito rico e muito bonito de se experimentar.

De onde surgiu essa parceria com os músicos do Constantina?

Surgiu pelo Daniel. Quando eu fechei os arranjos de todas as músicas do disco fiquei pensando em como poderia fazê-lo da melhor maneira. Um certo dia, dando uma volta pela lagoa da Pampulha com minha namorada, comecei a ouvir o segundo disco do Lise, projeto one-man-band do Daniel, e não tive a menor dúvida de que ele seria a melhor pessoa pra compor comigo esse universo. Eu entrei em contato com ele que estava morando em Portugal na época e via e-mail mesmo inauguramos o processo de feitura do disco. Ele me mandava algumas ideias, trocávamos referências, intenções, conversávamos muito sobre tudo e nós dois fomos nos conhecendo – não éramos amigos, aliás Daniel mal me conhecia, eu o sabia por ser fã do Constantina. Ele disse que topou fazer por causa de “LSD”, a primeira música do disco que eu lancei. Estamos fazendo o disco no Pequeno Quarto, ateliê do Daniel onde foram gravados os discos dele e do Constantina. É um processo super artesanal, mas é incrível como as coisas estão dando certo. Daniel é um grande música e pesquisador de processos de gravação. Ele me levou ao André, baixista do Constantina que mixou o Haveno (o melhor disco do grupo pra mim) e pela sintonia já firmada entre os dois, entre eles e o Pequeno Quarto, pensei que seria uma ótima manter o processo “em casa”. O Haveno também me levou ao Bruno Nunes que é quem cria as capas das coisas dos meninos. Aquela projeto gráfico é um dos mais bonitos que eu já vi em toda minha vida, juro.

Nobat

Ainda sobre parcerias, essa foi a primeira vez que você escreveu uma letra ao lado de outra pessoa? Como foi essa experiência?

Na verdade essa composição é antiga, fiz quando tinha uns 17 anos – há uns oito anos atrás - a partir de um poema escrito pelo Marcelo Diniz, o Poeta da Capital da Geração Perdida. Éramos do mesmo colégio e muito amigos. Certo dia, no aniversário de uma amiga em comum, Marcelo chegou super feliz dizendo que havia escrito o que considerava até ali o melhor poema de sua vida – e pra mim também era! Eu fiquei extasiado com a métrica, com a potência com que as imagens me atropelavam e imediatamente comecei a cantarolar uma melodia torta em cima da letra e comecei a fazer. Depois adaptei uns versos, acrescentei umas coisas e terminei em casa. Anos depois fui mexer nela e percebi que seria meio que a música-sintoma-principal do disco pela poética, por trazer essa metáfora do grande dilema existencial e por representar como nada o imaginário que o disco carrega. Já fiz outras músicas com outros artistas, mas confesso que é uma coisa rara, acho que não gosto muito. Às vezes começo a escrever alguma coisa e me lembro de alguém, penso que aquilo é a cara de tal artista, mas de tanto pensar eu mesmo termino antes de mandar. Já fiz isso mil vezes e é até constrangedor. Mando uma música pra algum amigo e antes do cara ouvir a parada, chego com a versão pronta. Acho que sou muito compulsivo, nunca fico muito tempo numa música também não.

O que as pessoas podem esperar do novo álbum, além de mais participações?

É um disco forte, que começa noturno e vai amanhecendo. Tá ficando muito bonito, de verdade, acredito que vai sair um negócio lindo dali. É uma obra que representa um processo de reconstrução inteiro de imaginário, de vida, que vai da performance social à mais profunda crise de identidade – fiz desse disco meio que o registro do meu caminho rumo ao meu “novo eu”, daí a coisa d’O Novato. É um disco de uma Belo Horizonte que não cansa de esticar suas localizações na arte também, uma cidade que tá enlouquecendo e que tem revelado possibilidades estéticas muito corajosas, em todas as linguagens, mas sobretudo na música. É um disco de entre-lugares: é composto por raciocínios eletrônicos, mas traduzido acusticamente, num processo orgânico; é contemporâneo, mas usa de instrumentos e referências clássicas em desenhos não habituais à esse tipo de proposta; é popular por ser bem cancioneiro, mas tem seu lado experimental que o afasta também disso, essa coisa toda. Posso dizer que podem esperar um grande disco.

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