O meio do meu tórax

por - 11:06

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Uma gota de suor escorreu pela minha testa até rolar pela fenda da minha pálpebra, e se confundiu com uma lágrima, brilhante e cheia de sal. Mas não era uma.

E minha respiração ofegava. No meu sonho eu morria, eu levei um tiro quente que perfurou o centro do meu tórax e arrebentou minhas artérias. E eu senti o domínio do frio nos meus braços e pernas, mas a quentura no peito era sempre.

Antes de apagar para a morte, depois de ver meu algoz indo embora, covarde não quis presenciar a última tentativa de eu engolir a mistura da minha saliva e do meu sangue, minha centelha se confundiu com a luz branca daquele poste. Muito antes de eu pensar em algo verdadeiramente digno de se dizer para aquele momento, eu acordei sem saber até onde meu sangue escorreu pela ladeira.

A geladeira me ofereceu abrigo numa garrafa de vodca.

Porra, que pesadelo escroto do caralho. E eu nem disse nada. Merda, eu não disse nada, o filho da puta me deu um tiro, e eu não fui capaz de balbuciar uma única palavra. Era um assalto, que rua era aquela que não parecia estranha pra mim?

Eu estava desapontado, a ansiedade tomava conta da minha perna que balançava impacientemente, era um domingo sonâmbulo, eu acho. Mas eu estava acordado e não tinha um buraco no peito, porque o procurei insistentemente sentado na mesa da cozinha, como que acariciando o osso que divide o tórax. Nada arrebentou dentro de mim, exceto o orgulho.

Depois de me abrigar confortavelmente dentro da garrafa eu me senti um pouco melhor, com vontade de cafeína eu ainda queria saber onde ficava aquela rua, mas aí um “foda-se” derreteu na minha boca depois que eu vi que uma grande bola amarela ia se erguendo no pé do céu.

Eu tentei voltar a dormir em seguida, mas tive medo, um medo inexplicável que me fez desistir quase que pra sempre, não de voltar ao sonho, mas de encontrar Gregor Samsa.

Fiquei acordado, pensando que eu podia muito bem ser um palito de fósforo, deve ser algo fácil, é só esperar ser escolhido e acabar como carvão.

Pensei tanto sobre aquele sonho que em determinado momento que não consigo precisar eu me tornei a metade de um imã e não houve outra saída a não ser ligar a televisão. Que saudades da época em que os desenhos não precisavam falar pra fazer rir, o fundo se repetindo numa perseguição entre gato e rato.

Manhã infantil cheia de graça, luz azul que não se apaga, universo meu de amor e lodo, hálito fresco matinal de álcool. À figura fantasmagórica babaca que não me assusta mais eu deveria escrever uma carta, convidando-a a conhecer meus instantes íntimos, cuspindo sangue e segurando meu peito o diria carinhosamente “ei, cara, você precisa ver como eu entro em uma garrafa, parece mágica”.

Lá vou eu então para a rua, flutuando pela calçada dentro da garrafa, tempo demais vendo desenhos, compro um suco de laranja na banca de revistas e o inundo com vodca. Já passa das nove da manhã e eu andava em direção a uma praça, o cinismo me caindo bem, reverberando dentro de mim, acho graça, mas não dou risada. Seria carnaval?

Não, o carnaval é ano que vem, já passou, mas amanhã já nem importa. Quem seria aquele a discordar do tipo que faz o menino malabarista sorrir na praça da amargura? Não, não há ninguém.

As pedras de dominó estalando na mesa da praça, as gotas de luz do sol perfurando a folhagem das árvores, o sol mergulhou em minha garrafa amarelada. Mais um gole...

Pela metade, falta pouco para o velho carrancudo de suéter e boina xadrez vencer a partida; ele bate. Gritos de euforia, “eu bati, eu bati, você me deve um suéter novo!”. Gargalhadas. O suéter era realmente velho, tinha um buraco na altura do peito do velho, e o silêncio...

A amargura está de volta à praça, um ensaio para um gole derradeiro me faz companhia, mas o último gole não vem, ainda estou envolvido em vidro e tenho os pés molhados. Fiquei pensando no velho que vai pagar um suéter novo ao outro eufórico, triste por ter um suéter tão ruim quanto o do amigo, seu semblante de desamparo, nem parece aquele homem que eu nem conhecia, porque agora o conheço, ele é o tempo que fiquei aqui sentado esperando toda a manhã deslizar pela minha garganta.

Mas a espera valeu a pena, uma garota saindo do quinto dos infernos me deu um susto e começou a dançar exibindo seu vestido vermelho. Era novo, era velho, era ela dançando descalça. Era só mais um dia em que eu, tomado pela preguiça e cercado de vidro, me insistia de pé e sentado, no ranço das horas.

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