30 bandas para órfãos de Fugazi ouvirem antes de morrer

por - 11:00

fugazi

Um interesse repentino por assuntos relacionados a cena musical independente, e que envolvem movimento straight-edge, integridade, consumismo, e principalmente Fugazi, ressurgiram fervorosos umas semanas atrás. As principais causas foram duas pauladas midiáticas - uma obra escrita e uma audio-visual, envolvendo a cena político-musical da capital dos EUA, e que vieram parar por essas bandas: o lançamento do livro Dance of Days: Duas Décadas de Punk na Capital dos EUA, versão traduzida para o português pela Edições Ideal, além do documentário Salad Days, que teve apresentações no Festival In-Edit; esse que vos fala participou do primeiro evento, o lançamento do livro, no qual a banda que toco foi convidada pra "tentar reproduzir da melhor forma possível" (ninguém disse isso, essa é a minha interpretação. tenho ojeriza pelo termo COVER) o impacto sonoro que foi a música da banda washingtoniana Fugazi.

Pra encurtar bem curtinho essa história, no fim do show alguém chegou em mim e disse "pô, legal demais ouvir essas músicas ao vivo". eu disse "bem, pena que (provavelmente) nós nunca mais veremos isso de verdade, com os integrantes da banda realizando essas músicas ao vivo" e a pessoa respondeu "mas ok. Ao menos tem alguma forma de ver isso sendo executado ao vivo, de alguma forma satisfatória." e fim: fui pra casa com essa impressão de "quem não tem cão, caça com hiena!" (pum intended)

É fato que, haters aceitem ou não esse fato, o Fugazi abriu um novo parâmetro musical, um novo estilo dentro do rock, dentro do subgenêro punk, dentro do sub-subgenêro hardcore, algo que não teve uma melhor definição a não ser nomear isso com o sufixo "POST" antecendendo hardcore. Falando assim parece basicamente muito próximo dos outros subgeneros citados, mas um conjunto de detalhes - estrutura truncada start-stop, firulas non-virtosas, uma pequena dose de dub, mais uma casquinha de no-wave novaiorquino, Wire e o art-punk, a alternação entre berros raivosos e sussurros soporosos, enfim, detalhes que foram sendo devidamente coletados e sinuosamente encaixados pelos anos de experiência musical dos quatro integrantes do Fugazi, e que transformaram a banda numa referência sonora, numa poderosa influência pra um novo estilo insurgente. Não foi à toa que de repente - fato relatado no livro Dance of Days - os shows de um Fugazi recém-fundado começaram a lotar de forma assombrosa, e todos os clubes americanos designados para a cena roqueira alternativa ficaram obsoletos para a presença do quarteto. Mas a banda tinha uma ética relativa a homogeneidade de um projeto que envolvia quatro cabeças pensantes, e com toda razão: pessoas mudam, e com o passar do tempo um conjunto de fatores - gosto, propósitos, convivência social e política - faz com que a produção criativa em grupo decline ou desapareça. Não tenha dúvidas sobre isso: até a melhor banda do mundo um dia precisa acabar. A forçação de barra dos Rolling Stones é a prova viva disso.

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O Fugazi gravou seis longos, quatro EPs e uma trilha, e antes que o declínio acontecesse, eles se separaram. Mais que isso, eles caminharam somente uma ascensão contínua, disco após disco, e no pico dessa criatividade, no album The Argument, resolveram encerrar a parceria. Quem em sã consciência terminaria um projeto no seu auge? Pois eu digo que melhor ideia não poderiam ter, sinceramente. Se separaram com a ética e integridade de uma banda que cumpriu o que prometeu, cobrando o minimo possível nos seus discos e shows, blindados para a tentação do mainstream e o consumismo desenfreado, sem deixar nenhuma falha nos 16 anos de atividade da banda: uma atitude mais punk e visceral do que muitos que fincaram seus coturnos e spikes no ideal punk, mas no fim tombaram diante de alguma proposta gorda de grandes gravadoras.

Voltando à influencia sonora que o Fugazi exerceu sob minha geração e as próximas, o fato é que essa ruptura deixou muita gente musicalmente orfã, principalmente aqueles que não tiveram o privilégio (como esse que vos fala) de ter visto a banda ao vivo nas duas oportunidades que desceram em tour sulamericana, em 1993 e 1997. Só posso dizer que são muitas as bandas que já vi desempenhando ao vivo, e poucos me impressionaram e me influenciaram tanto quanto a desenvoltura do quarteto de Washington DC. E que sim, foi foda. Desculpe por isso. Mas eu nunca fiquei completamente orfão da sonoridade fugaziana. Ela fez escola, e algumas bandas realmente pegaram a essência da parada. Pra ter idéia, fiz um set com 30 (trinta!) bandas que beberam forte na fonte fugaziana, e não só em pequenos detalhes: algumas bandas nessa coletânea, como você notará, chupinharam estruturas inteiras de ideias remanescentes das cabeças dos senhores MacKaye, Picciotto, Canty e Lally, e você confere logo abaixo o que isso quer dizer.

Parte 1



Parte 2


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9 comentários

  1. sera que teria como posta os nomes das bandas para assim poder ir atras de mais trabalhos delas tem como?

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  2. Ouvindo aqui o playslist e trabalhando. Muito bom! Q and Not U!!!
    Bela matéria, Wash! Parabéns!

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  3. Bebassa, a primeira vez foi em 94, ano do BHRIF. De resto, demais.

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  4. sempre fico em dúvida... faz tempo né! =)

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  5. eu é que agradeço pela competente tradução do Dance of Days, Viegas! ...que tal o "Get in the Van" agora?? hehehe abraço!

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  6. Que trabalho minuncioso! Bem legal, parabéns.

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  7. É, o "Get in the Van" certamente está na wishlist! Abraço!

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  8. no player aparece os nomes, man

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