O gorduratrans faz rock de quarto

por - 11:06

gordutrans

É engraçado como as coisas acontecem. Quando você recebe um e-mail de um remetente chamado gordutrans, você pensa, "poxa, a galera quer cortar tudo de bom dessa vida?", mas para a minha agradável surpresa, eu cliquei ali. Descobri uma banda bem interessante e digo porquê. São dois moleques cariocas, Luiz Marinho e Felipe Aguiar, fazendo música como forma de se expressar, de vomitar as coisas. Relacionamentos, partidas, o passado e um quê de futuro são coisas que encontrei em Repertório Infindáveis de Dolorosas Piadas, primeiro disco da dupla.

Assim que escutei aqueles poucos mais de 22 minutos, senti que tinha algo na música deles que não conseguia ficar limitado as influências que estavam escritas naquele e-mail: Ride, My Bloody Valentine, Ludovic e Lupe de Lupe. Era como se o Lê Almeida tivesse chegado pra esse pessoal e falado "bom, você quer fazer música independente no Brasil, tem um notebook, o seu quarto, uma guitarra e é só isso que precisa". Parece que eles pensaram exatamente assim e o resultado é uma ótima estreia, de uma promissora dupla que eu recuso a dizer que faz "shoegaze". É rock de quarto. O vocal arrastado, as letras em português, o instrumental torto. Essa receita é talvez a melhor para extravazar o que está preso e o gordutrans a seguiu certinha.

Pensando em como poderia mostrar a todos esse lançamento, resolvi trocar uma ideia com eles para entender melhor a urgência do projeto, o nome, as influências do disco, o Ludovic, o Lupe de Lupe e essa arte foda que a Natália Mansur preparou.

Baixe o disco aqui, ouça no Spotify, Youtube ou no player do Bandcamp abaixo.


Por que o nome da banda é gorduratrans? Existe uma piada por trás né?

Então, o nome gorduratrans (tudo junto e em minúsculas) surgiu de uma maneira bastante natural, antes da gente idealizar o projeto em si. Uma das coisas que nós queríamos, e esse nome acaba expressando isso, é exatamente a estranheza que ele passa. A gente queria algo que, de certo modo, fugisse do padrão. Nós temos a mania de sempre prestar bem a atenção na expressão das pessoas quando falamos pela primeira vez o nome da banda. E sempre é: "gorduratrans? Que nome é esse?". E achamos isso maravilhoso.

E por trás também tem aquela ideia do bom e ruim ao mesmo tempo. É tipo cigarro: todo mundo sabe que faz mal, mas quem fuma não tá nem aí pra isso.

Qual o conceito e a ideia por trás de fazer um álbum que basicamente trata sobre relacionamentos?

O disco é bastante sincero em relação aos nossos sentimentos. Nunca tentamos pré-estabelecer o universo em que nossas letras seriam criadas. Não predefinimos isso na hora de compor as músicas pro disco. As letras acabaram surgindo por si só,  de forma muito natural. E creio que isso seja fruto de nossas experiências pessoais recentes, que foram muito intensas. E dentro da banda há uma certa empatia, um sentimento de identificação. Pois nós passamos por relacionamentos e situações bem parecidas. Então um acaba se identificando muito com as letras do outro, e isso torna mais verdadeiro o que sentimos quando tocamos. Talvez o disco seja um reflexo disso tudo.

Eu enxergo esse disco como algo feito numa urgência, talvez seja a forma como vocês tocam ou o vocal em algumas canções, mas existe algo que me mostra uma vontade de colocar isso pra fora o mais rápido possível, é viagem minha? 

Já tem um tempo que a gente sente muito a necessidade de fazer algo só nosso. A vontade de colocar esse projeto pra frente sempre foi muito grande. E talvez essa vontade tenha sido determinante pra que tudo fosse tão rápido - começamos a produzir o disco há 4 meses. A gente sempre sentiu uma puta vontade de colocar tudo isso pra fora (e logo), mas sempre tentamos deixar tudo fluir naturalmente, sem estabelecer prazos pras coisas. Acontece que a nossa ansiedade era tanta que fez com que tudo fluísse mais rápido do que esperávamos, mas sem que nos perdêssemos na pressa de fazer o disco. Tudo foi muito rápido, muito intenso e, ao mesmo tempo, muito prazeroso. Esse disco é, na verdade, um vômito de sentimentos angustiantes.

Por que se influenciar pelo Lupe de Lupe e pelo Ludovic? O que vocês enxergam nessas duas bandas do underground brasileiro? 

Quando Ludovic e Lupe de Lupe apareceram pra gente, há um tempo atrás, a identificação foi instantânea. Ludovic pelas letras que pareciam desenhar o momento que passávamos, e Lupe de Lupe principalmente pela iniciativa DIY, que nos deu mais força ainda para gravarmos nosso disco em casa. O Idioma Morto, que virou praticamente nosso “disco de cabeceira”, parecia, estranhamente, narrar toda a nossa trajetória até ali, e isso nos levou a um êxtase total! E, enquanto isso, Lupe de Lupe vomitava “isso tudo que você não quer escutar”, como eles cantam em “Eu Já Venci”, sem ficarem presos à lógica de mercado ou a um virtuosismo babaca que as pessoas acham que têm de ter (inclusive, nós fomos ao show da recente turnê deles, na Audio Rebel, aqui no Rio, e foi algo inexplicável pra gente). No final de tudo eles acabaram se tornando duas das principais referências pro nosso disco. Tanto que o nome do disco foi retirado de uma das músicas do Ludovic, chamada “Nas Suas Palavras”, com aval do mais que genial Jair Naves.

Então, na verdade, nós não escolhemos ser influenciados por eles. Nós demos a sorte deles aparecerem pra gente na hora certa. Inclusive, obrigado.

gorduratrans

Vocês têm pretensão de tocar com o gorduratrans? 

Sim! Sem sombra de dúvidas. Nós já fizemos dois shows na Audio Rebel e agora, com o disco, pretendemos tocar o máximo possível. Devemos, em breve, marcar um show de lançamento por aqui, mas também temos muita vontade de tocar fora do Rio, ir pra outras regiões, e tudo mais. Em São Paulo a gente já está até tentando agitar alguma coisa, mas não temos absolutamente nada confirmado. Como é uma cidade com muitas casas de show menores, que fortalecem bandas independentes, esperamos que role.

Eu queria que vocês explicassem para o pessoal quem são vocês, Felipe Aguiar e Luiz Marinho. 

Cara, é complicado responder. Mas somos dois moradores do Rio off-praia – eu moro em Mesquita, na Baixada Fluminense, e o Felipe em Realengo, na Zona Oeste. Somos do Rio dos trens superlotados e sucateados da Supervia; da falta de oportunidades. Eu tenho 23 anos e estudo Jornalismo na PUC-Rio, graças ao ProUni, e o Felipe tem 22 e se forma no final do ano em Engenharia Mecânica na UERJ (sim, isso é real).

Eu comentei com vocês que achei o disco numa pegada shoegaze e que eu não consigo ver que ele soe como a cópia de algo. O que além de Lupe de Lupe, Ludovic, My Bloody Valentine e Ride influenciou no processo de composição do disco? 

Bem, além dessas, tivemos muitas influências de noise rock e noise pop, como Dinosaur Jr. e Yuck. O J Mascis é uma grande referência pra nós, principalmente pelo modo como o Felipe se vira sozinho na guitarra, com os pedais e tudo mais.

Temos outras influências, que talvez não sejam tão perceptíveis, mas que sempre acabam influenciando de alguma forma, por já estarem intrínsecas a nós. Eu, por exemplo, sou doente por Elliott Smith. Já o Felipe curte bastante Joy Division. Lóki? do Arnaldo Baptista também é um disco que gostamos bastante.

Obviamente, o que falamos sobre a Lupe de Lupe, em relação a gravar em casa, também remete a bandas como Guided By Voices e Pavement, que lançaram discos incríveis com poucos recursos e uma estética lo-fi.

Qual é a brisa por trás dessa capa? Eu achei a arte incrível. 

A foto da capa é de uma amiga nossa, a Natália Mansur, que faz essa série de autorretratos em alta exposição no escuro. Nós sempre achamos o resultado desse trabalho dela incrível. Foi então que tivemos a ideia de chamá-la pra ser a capa do nosso disco. Já havíamos pensado em fazer algo relacionado ao espaço e tivemos a ideia de transformá-la em anônima, trocando o rosto por um recorte de constelações.

Acho que interpretar o significado da imagem depende da subjetividade de cada um. Não gostaríamos de restringir a interpretação das pessoas, então acho que isso pode ficar em aberto. A ideia é ouvir o disco, olhar pra imagem, e tentar perceber o que essa combinação desperta.

Todas as fotos por Natália Mansur.

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