O mundo é um lugar maravilhoso - Parte 13

por - 14:04

Antiga16a

Quando fui à casa de tio Gino Fantini eu já bebia. Tio Gino também, mas ele bebia há mais tempo. Durante a semana não, mas no fim de semana você tem que entrar com os dois pés. Esse era o conselho que tio Gino mais gostava de dizer. Essa era a máxima de tio Gino.

Tio Gino Fantini trabalhava numa empresa de parafusos e conexões. Ninguém lá sabia que Tio Gino escrevia coisas. Tio Gino não gostava que outros soubessem disso. Eu fingia que não sabia. Esse era o meu tio Gino. Eu acho que um dia tio Gino tentou, mas ele acabou mesmo na casa de parafusos e conexões.

Eu descobri isso sobre tio Gino no dia que eu senti uma puxada na minha perna, alguma coisa puxando minha calça. Era Tito Fantini. Tito era pequeno e disse que queria falar comigo. Eu disse que ia falar com ele depois, assim que tio Gino terminasse de falar.

Tio Gino ficava bêbado e começava a dizer frases, pensamentos, versos e todo tipo de coisa que os escritores fazem. Por conseguinte tio Gino escrevia as coisas dele também. Uma vez eu perguntei a tio Gino se ele era um poeta. Ele disse que não. Depois ele me disse que eu deveria respeitá-lo.

Aí tio Gino Fantini terminou de falar e dormiu. Tito estava me encarando, de baixo para cima. Dei um belo gole e ele estendeu a mão. E aí a gente foi de mãos dadas enquanto eu pensava se Tito também iria beber algum dia seguindo os conselhos de tio Gino.

O quintal de tio Gino era muito bonito. Ele havia comprado uma daquelas revistas que ensinam a pessoa deixar a casa bem descolada. No final do quintal tinha uma porta. Tito sorrindo tirou uma chave debaixo da caqueira e a gente entrou.

Lá dentro tinha um monte de caixa. Tito pegou a menor e abriu. Aí eu vi todas aquelas fotos. Os Fantini mais velho em estado jovem. Sorrisos. Abraços. Copos pra cima. Quase todos os Fantini. Tinha vovô e vovó Fantini também. Vovó Fantini era linda. Vovô Fantini era muito feio, mas era um daqueles feios que são exóticos. Um buldogue. Eu fiquei emocionado, não sei por quê? Vi Aldo, tio Gino e os outros, todos jovens, sorridentes e ali, congelados. Me vi fazendo uma ponte de anos de vida entre eles e Tito.

Muitas emoções.

Perguntei a Tito porque ele me trouxe ali? Ele disse que o motivo era que tio Gino tinha dormido e toda vez que ele dormia ele queria entrar na despensa de tio Gino e pegar o carro de rolimã. Aí era num lugar alto e como ele era pequeno ele me trouxe lá e disse que me mostrou a caixa secreta de tio Gino porque se eu visse a caixa e as coisas que estavam dentro dela eu pegaria o carro pra ele. Por que você não pediu a tio Gino? Foi isso que eu perguntei a Tito. Aí ele disse que tio Gino não queria que ele pegasse nada que estivesse no quartinho dele. Então eu disse que se fosse assim a gente deveria sair de lá. Tito ficou calado e olhou pro chão. Tito ficou triste.

Voltei a olhar pras coisas da caixa e vi um papel todo amarelado. Tinha uma data lá: Junho de 1972. Não tinha título. Muitas palavras estavam riscadas. Mas dava pra entender. Saí do quartinho, peguei três tijolos e fiz um banco e me sentei. O texto de tio Gino dizia assim.

Cine Popular

Junho de 1972

“Tenho pra mim que aqui em Pernambuco, mais precisamente no meu Recife, existe um clube de famílias que definem e determinam o que é a ‘arte’ aqui. Vou chamar esse clube de família Costa Cavalcante. Os Costa Cavalcante vieram pra cá a centenas de anos atrás, mas já se conheciam de outros milhares. Os Costa Cavalcante funcionam assim. Eles fazem suas “artes”; eles compram entre si suas “artes”; eles admiram entre si suas “artes”; eles fazem festas para celebrar suas “artes”; eles julgam entre si e presenteiam a si mesmo suas próprias “artes”; eles se intitulam interessantes, geniais e maravilhosos através de suas próprias “artes”.

Sendo que no mundo não existe só os Costa Cavalcante. Existem outras famílias. Vou chamar de Jelema! Os costumes naturais e comuns dos Jelemas também viraram arte na visão Costa Cavalcante. Assim, quando um Jelema abria um coco os Costa Cavalcante colocavam a mão no queixo, se entreolhavam, e soltavam um sonoro Ooooooooohhhhhhhh!, extremamente impressionados! O Mesmo aconteceu com a música, pinturas, esculturas e todos os outros símbolos, religiosos ou de poder, dos Jelemas, que depois foram definidos como arte do estilo Costa Cavalcante.

Todos sabem que a arte, desde o seu principio, vem da observação da natureza. Quem não souber disso, ou não quiser saber disso, irei compreender totalmente. Não tenho preconceito com a burrice. Teve um momento que os Costa Cavalcante estagnaram e viram que o costume natural do Jelemas poderia ser deles – como todo o resto que era dos Jelemas – e disso, no lugar de criações artísticas, seriam feitas descobertas artísticas. O exótico teria que ser inserido nos costumes dos Costa Cavalcante. E aí rolava isso. Os rituais exibicionistas dos Costa Cavalcante teria um incremento vindo das representações religiosas e de poder dos Jelemas. A comunicação Jelema viraria arte, mas sendo que inferior, pois um Jelema nunca será um Costa Cavalcante como também o oposto não se aplica. Sendo assim as representações culturais da família Jelema é algo totalmente insipido – na visão Costa Cavalcante - a menos que algum - Costa Cavalcante - legitime isso.

Aí eles fazem grandes festas. Exposições. Livros. Registros visuais. Eventos. Festivais. Recitais. Fotografias. Ensaios. Eles fazem grandes reproduções em séries de algo único, daquele momento e individuo único, que só pôde existir através do descobrimento e legitimação Costa Cavalcante.

Se antes era impossível um ser o outro, com o decorrer das vidas, em meio a tantas misturas, hoje o impossível se tornou pouco provável. Não é mais impossível que um se torne o outro, mas é pouco provável. Na essência é algo que é totalmente impossível. Mas nas misturas entre as duas famílias, se percebeu que a representação – cada um em seu devido mérito e importância – era algo em comum. Ambos poderiam representar um ao outro. Imagine um Jelema, ‘veado’, acima do peso, com pais decadentes vivendo em um lugar, vamos dizer, desagradável. Aos olhos de um jovem Costa Cavalcante seria algo tão exótico e sensacional de ser representado e tão mais interessante e confortável de fazê-lo em seu ambiente natural, representando tanto o Jelema quanto a rebeldia – imposta – dele.

Imagine um Jelema que quer ser um cientista. Uma ideia terminantemente linda. Mesmo com todo o discurso de amor, inclusão, humanismo, religião, e tudo o mais – criado pelos Costa Cavalcante – é mais interessante, para que tudo fique na paz – implicitamente, para quem não se identifica como um Jelema – que ele faça outra coisa, como gols, ou músicas, ou o que quer que seja ‘destinado’ a ele. Isso são apenas exemplos. Pode ser outra coisa. Ele pode trabalhar na área de segurança social como um atenuante.

E aí é isso. É improvável, mas pode-se representar. Pode-se ser aparente. Podemos assim entender uma grande foto de um monte de crianças que foram explodidas num país cheio de Jelemas. Podemos entender porque a turma da quebrada não quer ser mais ‘feia’, ou porque ela quer ser ‘limpinha’; e às vezes, por não conseguir, quer exterminar os seus, ou aquele que consegue representar, de forma mais enfática, aquilo que ele nunca deveria ser.

Pernambuco, mais precisamente no meu Recife, é isso e é assim, ou que é assim implicitamente – na visão Costa Cavalcante – impossibilitado de ser. Uma grande exposição de coisas que delimitam, uma linha tênue – gosto muito dessa frase: linha tênue –, uma jaula em que um Jelema nunca poderá deixar de ser exótico e um Costa Cavalcante que sempre será um grande conquistador, um descobridor, mesmo que ele o faça com a força dos outros, até que se esgote e seja substituído, cada coisa em seu lugar”.

Não entendi nada que tio Gino escreveu, mas me pareceu sincero. Tinha que guardar aquilo. Colocar de novo na caixa de tio Gino. Tito estava brincando de carrinho com dois pedaços de tijolo. Ele havia feito uma pista de corrida, riscando o chão com o tijolo, e estava lá brincando. Pensei em pedir que ele me trouxesse um copo de cerveja, mas achei melhor não. Aí eu entrei na despensa de tio Gino. Peguei tudo que havia sido tirado e quando fui colocar dentro da caixa vi que tinha mais uma foto entre as abas da caixa de papelão. Coloquei as coisas em cima de outra caixa e peguei a foto. Na foto estavam os dois: tio Gino e meu pai, Aldo Fantini. Meu pai empurrando tio Gino no carro de rolimã. Tio Gino sorrindo com os braços levantados e meu pai empurrando tentando alcançar o máximo de velocidade. Eu pude ver na boca de Aldo uma mania que ele trás até hoje. Quando ele está concentrado, Aldo coloca a língua pra forma, na lateral, e a aperta entre os dentes. Eu também faço isso. É algum tipo de estilo Fantini. Eu fiquei um tempão vendo aquela foto. Depois me perguntei por que não? E coloquei a foto no bolso. Guardei as coisas na caixa e peguei o carro de rolimã. Fechei a despensa de tio Gino e chamei Tito. Ele deu um pulo enorme. Um pequeno sapo da espécie Fantini. Pedi que ele subisse no carrinho e o empurrei pelo quintal. Devido ao cigarro e a bebida eu me cansei rápido. Cansei também porque Tito era jovem e mais feliz que todos nós juntos e ele sempre queria mais. Teve uma hora que eu disse, Porra Tito, tá bom! E me levantei colocando as mãos nos quartos e vi tio Gino olhando pra nós, lá na porta da cozinha. Acho que ele estava com os olhos marejados. Também acho que chega um momento da vida da gente, depois de se passar por tanta coisa, que a gente chora por qualquer merda. Aí eu sorri pra tio Gino, sem mostrar os dentes, e o mundo continuou sendo um lugar maravilhoso.

Texto escrito por Angelo Souza, o Graxa.

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