Tragédia anonimato ou sobre humor, amor e terror

por - 11:08

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Mês de agosto. Ventos cortantes, incêndios pela cidade, fumaça, fuligem, a terra vermelha se revela em meio a vegetação que, aos poucos, vai cedendo ao clima. Pequenas tempestades de areia.

A cidade piromaníaca confirma sua vocação, está ela em algum lugar entre a realidade e um erro mental cometido por cada um de seus moradores, uma alucinação vermelha. Quando não pela mão alheia, vive e morre queimada pela própria. Os ipês acabaram de florescer. Uma foto sorrindo. Lacônica, indiferente e sem vizinhos ela prossegue.

“Homem em chamas se atira de prédio na Asa norte”. Outra pequena tragédia que atinge nosso inócuo senso de perplexidade. O taxista vai dizer ao passageiro que o país não tem mais jeito, a corrupção está por toda parte, meus números não foram sorteados, você engordou de novo, mamãe não tem conseguido controlar o diabetes, o universo está morrendo lentamente, dizem os cientistas.

Deixo o jornal sobre a poltrona da sala, e por uma fração de um momento, eu penso no desespero particular que o tomou no momento exato de sua decisão, ele se elevando do chão envolto por uma áurea alaranjada de fogo, seu corpo se projetando contra a janela, os estilhaços de vidro rasgando sua pele e o fazendo sangrar enquanto queima. E então essa coisa poderosa me cala, e o silêncio se expressa em mim por intermédio de pensamentos anônimos misturando-se às multidões de outros já familiares em minha cabeça. Esses pensamentos então se propagam suavemente, como o som do giro das turbinas de um avião.

O governo deveria investir em um local reservado para explosões recreativas na cidade. “Favor trazer seu próprio botijão de gás”, diria o cartaz da entrada.

Eu fui o dia inteiro perfurado por uma súbita vontade de qualquer coisa que não fosse continuar prostrado ao travesseiro, empalado pelo excesso de vontade de ser algo mais que um corpo presente em um escritório gelado de qualquer repartição pública. Vejam, é aniversário de Calixto, vamos nos juntar e comprar um bolo para ele. À noite, todos juntos para uma pizzaria. Morre, Calixto, morre. Saio de casa fugindo de minhas pequenas possibilidades de experiência resignada.

Uma caminhada para um cigarro de palha.

Vou à mercearia, pergunto ao vendedor se na loja por acaso eles vendem cigarro picado, ele então me responde com o mesmo humor vazio de sempre, “picado não, só inteiro”. O chiste me dilacera, sinto meu corpo cansado daquela piada, sinto-me censurado por não poder fazer uma piada de verdade sobre como ele poderia morrer durante o almoço, engasgado com um osso de galinha ao molho pardo. Quem bebe o sangue de quem agora? Póó!

Humor pra mim é isso, é sensação de ameaça travestida de salvação do mundo real, isso é graça. Eu rio, e profundo.

Fumo sem pressa. Penso na Torre de TV, meu corpo viajando rápido até o chão, o barulho dos ossos quebrando, meu encontro com o calafrio derradeiro. Cigarro de palha é uma merda, apaga o tempo todo, atrapalha as turbinas em minha cabeça. Maldito cigarro vagabundo não quer deixar meu avião decolar.

A Torre de TV está fora de moda, eu concluo.

Minha caminhada prossegue. Lacônica, indiferente e sem vizinhos.

Quero mudar de cidade, andar em outras calçadas, pensar em outras possibilidades de me deixar ser alvo de mim mesmo ao menos, ser ofendido com palavras e jargões que não tenho a mínima ideia do que significam. Mas o amor tedioso que sinto por esse lugar me prende a ele, e eu penso estar sendo traído porque a única coisa na qual eu acredito me atravessou feroz por todos os lados. Eu acordei dia desses e parecia ter nevado em todo o meu cabelo. O tempo.

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Cabelos brancos fazem sucesso com algumas, eu penso, mas eu queria mesmo era uma só. Ansioso, paro de pensar em todas elas. Oh, são tantas, vocês não fazem nem ideia.

As tragadas ferem minha garganta, meu passo contínuo, os dias parecem se repetir. Esta é minha pequena tragédia.

Eu não me incomodaria se eles se repetissem de verdade, eu me acostumo fácil, todo o problema está nas aparências, nas encenações. Esta é minha pequena tragédia. Deus não está morto, está escondido, com medo por não ter a quem recorrer. Tudo na vida é assim, apenas acontece. Coloque suas luvas de boxe e desça aqui. Proponho um novo feriado, o dia da blasfêmia. Todos para a rua praguejar e maldizer.

Moro na cidade que não surpreende. Não há aqui aquela rua a qual você vai desejar loucamente retornar por ela ser bonita demais. Não, as ruas aqui são todas iguais. Mas há pessoas, pessoas que não colocariam luvas de boxe para enfrentar a peleja que acabo de propor. Meu cigarro apaga novamente. Aí está minha pequena tragédia.

Acendo novamente o cigarro, nunca mais compro de palha. Penso no suor frio escorrendo pela minha testa caso a faca corra macia pelos meus tendões, toda aquela bagunça, muito líquido envolvido, palidez, sangue derramado feito pó.

Suar frio não é elegante, eu concluo.

Minhas andanças pela cidade não costumam ser nada surpreendentes, em verdade, são extremamente monótonas.

Mas acontece que eu encontrei um pombo estraçalhado em uma calçada, em meio aos meus passos sem determinação ele estava lá, a vida não mais presente.

O pombo tinha o peito aberto, seus órgãos espalhados pela calçada, triturados em meio aos pequenos sulcos do passeio, alguns pedaços faziam uma pequena trilha da grama até a ave, as penas coladas ao chão pelo sangue que apenas começava a secar movimentaram-se gentis pela ação do vento. Eu então decidi que era hora de uma boa ação. Ação de verdade.

Ainda resta uma pequena ponta do meu cigarro de palha. Abaixo até me aproximar o mais intimamente possível do bico de Amadeu. Para mim parecia um bom nome para ele. Por que não?

Amadeu, não se entregue. Você tem força, aguente um pouco mais, o socorro está chegando. Penso que é uma boa hora para algumas lágrimas, pois minhas palavras de incentivo para que ele resista não passam de um devaneio produzido pelo meu desespero. Eu sou um bom ator, eu consigo. Vamos lá.

Começo a me emocionar de maneira profunda por vias de um pequeno estratagema que me desprende da carnificina não violenta do mundo real. Será uma atuação de marcar época. Os estudantes de artes cênicas do mundo inteiro saberão sobre este momento, teorias emergirão, quebrarei paradigmas. Os grandes atores vão citar Calixto Sobrinho como referência quando de suas biografias.

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Entrego-me devagar às lágrimas, fugindo de qualquer pasticho, engendro no meio do passeio público uma atuação única, leve e sutil, eu soluço tímido.

Amadeu, não, você não. Não pode ser verdade.

Bem devagar eu afasto meu rosto de seu corpo e coloco o pouco que restou do cigarro em seu bico. Um último cigarro para Amadeu.

De joelhos, sento sobre os meus calcanhares e olho para o céu, minha expressão facial em consonância com as lágrimas vagarosas denuncia e torna acessível todo o sofrimento embutido em mim por aquele acontecimento horrível, e eu, sem vestir roupas de caricatura, choro mais. Sobe a grua.

Duas senhoras usando chapéus ridículos passeavam com seus poodles e notaram minhas lágrimas em praça pública, porque eu fui simplesmente foda demais durante aquela cena.

— Qual o problema, rapaz, o que se passa? Uma delas indagou.

Eu mergulhado no papel respondi.

— Amadeu, Amadeu se foi. E assim, dessa forma tão cruel.

Um dos poodles tentou cheirar Amadeu e eu gritei.

— Não!

A coleira travou.

As duas se entreolharam como que planejando dizer algo solidário, as mãos em suas respectivas cinturas.

— Não fique assim, moço. Deve ter sido um cachorro malvado.

Duas velhas sem coração. Seus poodles tinham mais sentimentos que elas.

Levanto devagar, a cena prossegue. Choro copiosamente, de maneira a não desenhar dúvidas sobre meus sentimentos em seus juízos.

A senhora que não havia falado nada ainda não se contentou em apenas fazer figuração e me deu um abraço. Correspondi e lhe abracei forte. Eu a odiava. Eu odeio toda essa cidade. Meu coração está escuro, não há luz veloz o bastante para chegar a ele.

Desgrudo da senhora, meu nariz escorre, consternado viro as costas e vou embora, minhas palavras aconchegaram-se no semblante dos meus passos. Elas ficaram pra trás, e andando eu retorno ao meu fustigante real, repleto de uma única certeza, a de que eu seria o assunto da próxima novena do prédio onde aquelas senhoras moravam. Um rosário para mim.

No caminho para casa, passei em uma padaria e comprei um frango assado, e ao chegar em casa comecei a devorá-lo inteiro, fora do prato, em cima da mesa, tal qual um predador, um animal que não conhecia fastio. Eu queria me engasgar com os ossos daquela porra. O horror chegaria aos meus olhos, meu rosto ficaria roxo e eu lutaria ainda pela vida correndo para lugar nenhum em busca de ajuda, com a boca engordurada e um pedaço de pele no canto do lábio.

Morrer engasgado é heroico, eu concluo. Humor, amor e terror apinham meu coração. Houve luz.

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