Três sonecontos sobre sinapses confusas

por - 11:05

SebastianEriksson9

I Notar (o)

Os sinais estavam lá
não haveria como ignorá-los por mais tempo
precioso tempo
como sempre
que não se tem enquanto se vive

Mas os sinais estavam lá
a tosse persistente
a falta de ar
no passeio matinal o relance
na capa da revista…

Câncer.

A palavra proibida
inevitável
a cobrança mensal da vida
este poderia ser o sinal
mais evidente

Ou o fato de que de tempos em tempos
sempre sentindo-se doente estava
como Tig Notaro sentiu-se um dia

Mas que prepotência
ligar-se de maneira tão ímpar
a tal mulher
puro egocentrismo bizarro
pode-se pensar
mas era mais do que isso
era real
era palpável a falta de ar

era como Tig Notaro

Ainda mais quando a senhora
sem fios de cabelo
deixou-o passar pela faixa de pedestres
baixando o vidro
sorrindo-lhe e acenando
como se lhe desse boas vindas
ao final de sua vida

Maldita faixa de pedestres,
maldita mania de fazer tudo pela lei
maldita hora de ter cidadania
maldita senhora sem cabelos
maldita hora
sem ar

Porém diriam os bons
que era pré concepção sobre
pessoas carecas
nem todas tem câncer
nem todas são carecas
preconceito hipocondríaco
isso sim era.

Não queria saber de bom mocismo
iria morrer
era certo
com ou sem cabelo
aquela senhora era o sinal definitivo

estavam lá
os sinais todos
só não os via quem
não queria

sentindo-se mal
levou o cachorro ao passeio
com uma nuvem
tempestade
ao arreio que lhe travava os dentes
corpo cavalgadura
que jamais fora cuidado

Sim
doente estava
semi morto
andando os últimos dias
morrendo
é isso…

[Mas escuta
pode ser por acaso que
você esteja apenas paranóico]

[Olha só
não venho aqui porque é clínica psiquiátrica
então por favor
dá me logo essas cento e cinquenta gramas de maconha
pois preciso me tratar desde já]



II Como Sempre…

- por favor eu queria pagar isso aqui
- pode passar por debaixo do vão aqui
- obrigado
- de nada

- olha tudo deu cento e sessenta e quatro reais
- caro né?
- ah, as contas estão pela hora da morte
- bom aqui está, duzentos
- obrigada
- de nada

- seu troco, catorze reais
- obrigado
- de nada

- será que a senhora poderia…
- sim…
- ver esses resultados aqui
- lógico, pode passar pelo vão
- algum deles foi premiado?
- deixa ver………..
- …………………..
- …………………..

- olha infelizmente não foi desta vez
- obrigado
- de nada

- a questão não é ser desta vez, e sim, desta vez como sempre...



III - Seco Rosto

O seco rosto
sem lágrimas
aflitivo precipitar
do desespero
precipício
o estrago d’alma
só se vê
quando da calma
em órbita da tormenta
o peito macerado
a morrer envolto
no frio
chão mascavo.

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