Faixa a faixa: D Mingus - Saturno Retrógrado

por - 11:03

DMingus-por-Juvenil-Silva

Domingos Porto é um velho conhecido aqui do Altnewspaper, tanto que o camarada teve/tinha uma sessão de quadrinhos feitas por ele chamado de Vida Lo-Fi. Domingos também é D Mingus. Artista, produtor, compositor, uma espécie de músico completo dos tempos atuais e por tempos atuais me refiro as modernidades da internet e dos tempos digitais, em que se é possível gravar no Pé de Cachimbo Records, o seu estúdio caseiro localizado no quarto de trás do seu apartamento no Recife, além de aprimorar seu som e o modo de como disponibiliza-lo para audição e consumo. Mas é lógico que isso vem com o tempo, tanto que ele acaba de chegar ao seu quarto disco solo.

Se em seu primeiro álbum ele nos mostrou um tom e ar de psicodelia roqueira, no segundo uma ode ao folk e no terceiro um passeio pelas nuances roqueiras da música eletrônica, em Saturno Retrógado, seu novo disco, o músico continua explorando sua maneira lo-fi de trabalhar, caraceterística que pode ser observada em seus outros trabalhos também, porém, a sonoridade é uma mistura de tudo o que já foi feito até aqui e consegue ainda assim dar um passo a frente tanto musicalmente falando quanto nos assuntos tratados por Domingos em suas letras.

Pensando nisso, aliado ao fato de ter sido convidado pela Revista Continente de agosto para escrever um texto sobre o novo disco (leia um pedaço do texto), resolvi entrar em contato com ele e isso rendeu este novo faixa a faixa! Leia o papo e ouça o som.


"Xamã Oruba"


Essa vibe folk/ psicodélica com um tom de música indígena que abre o disco, quer dizer alguma coisa? A pergunta é mais para relacionar a ordem das faixas, já que você sempre se preocupou com isso.

Acho que é uma boa música pra "abrir os trabalhos". É impactante e, creio eu, deixa o ouvinte pensando "que danado vem depois disso ?" Essa música começou a ser composta em 98, mais ou menos. Digo "começou" porque com o passar dos anos fui modificando arranjo, botei a letra mais recentemente... De lá pra cá outras referências foram somando-se à ideia original. Talvez essa seja a minha única música em que compus a linha percussiva antes da parte harmônica. Depois vieram os fraseados de flauta, que pela escala utilizada, a deixaram mais orientalesca. Ao mesmo tempo eu sentia nela um certa vibe xamânica, de transe. Daí inseri ela num projeto de HQ chamado "Zé do Boldo, as aventuras de um cabôclo psicodélico" que viria com uma trilha sonora e coloquei uma pequena letra narrando uma situação da história... A HQ ficou na geladeira e decidi usar a música no disco. Ela chegou a ser ensaiada com a Stultifera Navis (banda que eu tinha com Rodrigo Morcego e Carlinhos) nos 90's e, mais recentemente, toquei ela com a Kazoo Orquestra em algumas apresentações.


"Zeto, o tal"


Parece uma homenagem a Zeto, poeta do Pajeú. Mas também tem a relação com a Grécia pelo nome. Isto depois de uma faixa de nome indígena. A viola disputa bastante com a guitarra nesse início do disco.

É uma quase-homenagem a Zeto do Pajeú. "Quase" porque a letra foi surgindo de brainstorm. Havia gravado um som antigo meio prog, com flauta e salvei o projeto como "Jethro" (em referência ao Jethro Tull). Daí, depois de algum tempo, pensando numa letra pra ela, brincando com a sonoridade do nome Jethro Tull (que alguns pronunciam "jétroutáu"), cheguei em Zetotal, Zeto, o tal... Coincidiu com uma pesquisa que eu tava fazendo sobre o tal Zeto do Pajeú e aí as coisas acabaram casando. Esse disco, assim como o Canções... tem lado A e lado B... Minha intenção inicial era fazer um contraste de lados mais significativo: um lado interiorano e outro metropolitano. Só que as canções com acento interiorano tavam empacando um pouco o trabalho, daí tirei algumas e desapeguei mais de questões geográficas... o lado metropolitano acabou ficando mais presente. Mas as duas primeiras músicas e "Clube dos 50's" são referências ao interior de PE (principalmente a Pesqueira, onde morei em meus 4 primeiros anos de vida). Nesse disco eu permiti-me mais explorar alguns regionalismos, mas essa também não é a tônica... foi mais um experimento mesmo.

Seria um embate dos seus dois primeiros discos?

Não enxergo dessa forma. Acho que é um disco com mais variações estéticas do que os dois últimos - o que o aproxima mais do primeiro.

O que Saturno Retrógrado tem de diferente dos três primeiros discos do D Mingus?

Ao fazer esse disco eu tinha uma ideia de algo mais saturado, sujo... Acabou que nem ficou tão sujão como eu achei que ficaria - limpei um pouco a criança na mixagem/masterização. Quanto ao que tem de diferente, vejamos... acho que é um disco em que o público que escuta rock mais barulhento pode se identificar de primeira.


"O Náufrago"


Esta é uma das poucas músicas com aquele ar mais melancólico e soturno de outros trabalhos seus. Você quer falar qual a origem da letra?

Realmente. Essa é bem próxima da linha de algumas músicas do Canções do Quarto de Trás e também é uma música antiga. Eu compus quando cursava a Faculdade de Filosofia, em 97, 98... no começo ela tinha letra em inglês (como muitas de minhas músicas tinham) e depois fui adaptando pro português. Quando comecei a tocá-la com minha antiga banda (Pasárgada), submeti a letra pra Medinho (parceiro de algumas delas) fazer algumas modificações, pois não estava muito satisfeito com o resultado. E aí saiu isso - ele aproveitou algumas partes, criou e recriou outras. Muitas coisas minhas e dos meus chapas nessa época flertavam bastante com ideias do existencialismo - com essa não é diferente.


"Carnaval dos Sentidos"


Já essa, vai no sentido contrário, é totalmente pra cima, alegre e dançante. O teclado da um ar setentista, ao mesmo tempo que também tem características de música pop atual. Esta seria o "hit" ou carro chefe do disco?

Trata-se de uma música sobre descobertas adolescentes, meio criptografada numa linguagem onírica. É engraçado porque praticamente metade desse disco é de músicas que foram compostas no final dos anos 90 (tocadas com as duas bandas citadas). De lá pra cá essa foi a que menos mudou em termos de arranjo. Só o teclado, que não usávamos... Quando compus essa música eu me apaixonei pela melodia. ficava ouvindo no walkingman e rebobinando a fita direto tentando descobrir se não havia plagiado algo. Acho que a compus numa época em que tava escutando muito Kinks - de quem vejo um acento bem presente nela. Antes de lançar o disco, mostrando-a pra várias pessoas, realmente me falaram: "cara, essa música tem um grande potencial pra ser hit". Levei isso em conta e a lancei como single, antes do disco estar pronto. E a recepção foi bem positiva. É a preferida de muita gente.


Clube dos 50´s


Pra mim, uma das melhoras músicas do disco. Gosto da melodia, gosto do ritmo. De onde vem este vocal incidental ou este papo louco que passa com o som?

Essa foi composta numa época já mais recente (em comparação às outras - risos)... , 2003, 2004 mais ou menos. Foi numa época em que comecei a viajar em surf music - The Ventures, Dick Dale, Los Holys, The Pops... Ela foi lançada como um single na época da Tramavirtual... fiz umas batidas toscas no PC, gravei a guitarra em k7 e depois oitavei. Depois chegamos a tocá-la ao vivo em algumas apresentações do D Mingus & Os Dionisíacos (no primeiro show que fizemos por exemplo). É uma música da qual eu gosto muito também. Além da referência à surf music, ela tem algo meio abolerado com clima de faroeste, e por algum motivo ela me faz lembrar de um lugar em Pesqueira em que eu ia quando criança, chamado Clube dos 50´s, que era frequentado mais pela "velha guarda" da cidade e que ficava ao lado do único cinema que tinha cidade (que hoje fechou). O papo que eu acrescentei foi extraído do filme É De Chuá de 1958. Foi mais pra dar uma ambientação de clube, num período mais antigo.

cover

Vendo a ficha técnica, temos participações de diversos nomes da música local, com quem você interage cotidianamente e participa dos trabalhos deles. Como se deram estas escolhas? Existe algum motivo para tais participações? Já que até a arte foi uma ideia externa (do Matheus Mota).

As escolhas foram surgindo naturalmente, na medida em que eu sentia algo empacar. A energia de alguém "de fora" ajuda a reoxigenar as ideias. Surgem resoluções que você não pensaria... Pra mim, ao gravar um disco sozinho o maior dos empecilhos são os bloqueios e subterfúgios internos que você inconscientemente vai colocando pra finalizar algo que muitas vezes precisa de um simples toque. Você fica com preguiça de abrir o projeto das músicas, vai tomar um café, ler um livro, ver um filme, procrastina até que o sono chegue e mais um dia se passe sem que você tenha feito absolutamente porra nenhuma. Quando você joga a batata pros amigos, pra eles aquilo é novo, eles vêem com outros olhos e de repente já exploram aqueles caminhos - meio desgastados pra você - de forma mais desencanada. E aí quando você se dá conta, já está criando outras coisas na música (ou rearranjando) pra dialogar com aquilo que foi feito. Portanto, as participações foram de fundamental importância não somente no aspecto artístico, de acrescentarem elementos novos às músicas... mas de servirem como estímulo pra que eu conseguisse fechar o disco mesmo.


"Mágica e Luz"


E esse "folk psicodélico lo-fi" também é das antigas? Porque também remete ao Filmes e Quadrinhos um pouco. Essa letra é uma doideira, faz sentido?

Essa foi composta durante as sessões de gravação do Fricção. Curiosamente alguns amigos associaram ela à vibe do disco mas acho que é como falaste mesmo, ela tem um acento mais pro Filmes e Quadrinhos. Com o parênteses dela ser a minha música que mais tem influência do tropicalismo. Nem acho a letra muito viajada. O lance é que falar sobre alguns sentimentos de forma totalmente objetiva é difícil... mas tentei ser claro na medida do possível. O tema é recorrente em minhas letras: a perda do lastro de uma certa realidade cômoda, inocente bonita e frágil associada à infância.


"Ostracity"


Uma música diferente, alguma coisa no ambiente, com uma crítica a cidade que você já fez em outros momentos. É critica a cidade ou as pessoas que moram nela? Fale do instrumental doido dessa música.

Quando compus essa música há sei lá quanto tempo atrás (chuto 2006, por aí), ouvia muito as bandas da Elephant 6 (como Of Montreal, Apples in Stereo e Olivia Tremor Control) e fiquei achando ela um pouco nessa linha (ainda mais pela letra em inglês - chamava-se "To the Seed"). Tempos depois, já com uma versão em português, começamos a incluí-la nos ensaios e shows da D Mingus & Os Dionisíacos (ela iria sair num EP da banda que acabou nunca vindo ao mundo). Com relação à letra, evidentemente existe uma crítica tanto à cidade quanto às pessoas, embora num nível mais poético e universal. É mais uma sensação que às vezes um cara meio isolado como eu sentia, vivendo numa selva de prédios, de estar sendo oprimido pela própria cidade... Achei uma boa solução poética a do título, por remeter tanto à ideia da ostra em si (numa cidade litorânea) quanto a do "ostracismo".


"Jovem Vampiro"


Um rockão alto astral, que combina com outras faixas pra cima do disco. Tem uma letra bacana e com partes em inglês. Qual as influências desta canção?

Trata-se de um "rock djovem", conforme alguns amigos detectaram. Fiquei com medo de ter plagiado Lê Almeida ou algum outro artista do indie rock tupiniquim em alguma passagem (apesar de não escutar muita coisa nessa linha)... na verdade, consigo detectar nela algo mais diretamente oitentista: um Smiths ali, algo tecnopopeiro acolá, além do lance shoegazzer 90's mais escancarado... a letra é uma ficção sobre um grupo de jovens que sai na noite pra tomar todas, azarar umas minas e fumar uns beques enrolados em páginas da Bíblia. A metáfora do vampiro dá a entender que são jovens meio góticos, meio punks... imagino um Recife nos 80's, com o centro da cidade movimentado, em ebulição, decadente ao mesmo tempo.

Tu já pensou em como vai formar a banda desse disco ao vivo? Já que tu sempre muda a galera entre os trabalhos e esse disco parece misturar tudo.

Bicho, na verdade eu já formei uma banda, que tá na iminência de voltar a ensaiar (já chegamos a fazer uns ensaios bacanas em julho) com Zeca no baixo e vocais, Marditu na bateria, Fernando Athayde e Fernando Soares nas guitarras e synths. A ênfase dessa banda é mais guitarrística tanto que em algumas músicas tô até pensando em só cantar pra não congestionar tanto o meio de campo. Mas a ideia é tocar as mais instigadas do Saturno Retrógrado junto com outras de outros discos. Quero inserir uns momentos mais experimentais tb no set, usar bateria eletrônica em algumas, mas ainda tamos formatando a parada.


"Gato da Cidade"


Essa vai bem naquele vibe urbana que você queria dividir o disco. Foi baseado em gatos reais? (Tu dush!)

Foi sim. Tem um prédio semi-abandonado ao lado de onde moro. Observando a destreza de um desses seres andando pelos muros e telhados tive a ideia pra fazer a letra (que surgiu antes da música). Essa é a composição mais recente do disco.


"Revolução 3.1"


Como faz pra envelhecer e continuar ouvindo rock e evoluindo em sua produção musical? Tem alguma dica ou ação que você acha que te ajude nisso?

Envelhecer não necessariamente tem que ser um processo de "encaretar". Na verdade, continuo ouvindo rock mas indo em várias direções estéticas, sempre buscando novos sons e inspirações (tenho pra mim que meus discos mais loucos ainda estão no reino do porvir). A maturidade possibilita você envelhecer com dignidade, sem atropelos e ilusões "rockstars". Acho que tem muito artista que foi ficando melhor com o passar do tempo - apesar do típico arquétipo rocker ideal de "juventude transviada que morre cedo". Leonard Cohen, Scott Walker, Dylan, Damon Albarn e o pessoal do Radiohead - numa geração mais nova... e tantos outros estão aí pra provar isso.


"Santanestesia"


Cara, esse foi a canção que destoou pra mim. Não é que é ruim, mas não encaixa com o resto do disco. Queria saber o que você pensa disso? E qual a ideia ai?

Essa talvez tenha um clima mais próximo do Fricção. Realmente ela é a que mais destoa sonoramente das outras... embora a temática seja condizente com o restante do "lado B". Ela brotou em minha mente como uma espécie de oração do homem contemporâneo. Não quis problematizar a questão escapista ou possivelmente drogadicta dos anestésicos (ou substância no geral que aliviem a dor física ou psíquica), mas reconhecê-los como parte de nossa vida e, em muitos casos, extremamente necessários. Talvez seja uma das minhas músicas mais "baixo astral", mas sonoramente acho que ela já tem algo de hipnótico (e anestésico) que também busco com a música. Só que sem contraindicações.


"Sinfônico Blues"


Para mim, a música mais bonita do disco. Eu sei que Graxa tem um apreço por esta também. Por que usar ela pra fechar o trabalho?

Foi uma sugestão de Daniel Liberalino, pelo tom elegíaco que ela possui - ter definidos a abertura e o final de um disco agilizam bastante o processo... então, entre "Xamã Orubá" e ela foram sendo feitos pequenos rearranjos sequenciais, mas elas logo foram definidas como as duas portas (de entrada e saída) do disco. Graxa gostou muito da composição desde que a mostrei. Inicialmente eu queria que ele interagisse com a letra, mas ele achou melhor não. Tinha só gravado um teclado pra ela, até que nos momentos finais do processo de produção do disco, ele me pediu pra gravar um vocal. Eu achei que a interpretação dele casou melhor com a música, não tava curtindo muito eu cantando. Pra completar, pedi pra ele gravar a introdução só no "voz e violão" pra captar/processar na fita magnética. Deu um charme ainda maior à música, a meu ver.

Este é seu trabalho mais "desencanado", isto é um momento ou um novo caminho?

Não acho que seja um disco totalmente desencanado. Em algum momento desencanei, mas durante a gestação empaquei diversas vezes, não encontrava unidade, direção, noiei pesado... acabou sendo um processo de ir desapegando-se da criança. Mas isso sempre aconteceu com os outros discos. O lance é que, quando percebo que tenho algo legal e instigante pra mostrar, não sou preciosista de ficar polindo até a exaustão... na verdade, nesse disco eu me forcei a trabalhar com um prazo pré-determinado, que foi o do evento de lançamento no Facebook. Cabou o prazo, lancei da forma que consegui finalizar.

Depois de quatro trabalhos, o que podemos esperar ainda do D Mingus?

Acho que a surpresa (a minha e a do próximo) é um sentimento que estou sempre buscando com meu trabalho. Continuar surpreendendo-me com as pequenas e grandes coisas do mundo. Resignificar as coisas de formas diferentes, caleidoscópicas. Então o que todos podem esperar é essa repetição dessa inconstância, dessa ruptura... koan... o que equivale dizer: não esperem porra nenhuma!

dmingus

Você também pode gostar

0 comentários