Faixa a faixa: Gabriel Araújo - Presente

por - 13:02

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Conheci o som de Gabriel Araújo em 2010 por conta do belo trabalho que ele fez em Ludismo, um dos melhores discos instrumentais que ouvi naquele ano. Lembro inclusive que ele não chamou apenas a minha atenção, em uma conversa com Erick Cruxen da banda Labirinto, ele falou que achou bem interessante a proposta e o trabalho do Gabriel no disco. Ludismo é um trabalho extenso que deve ter rendido grande aprendizado ao músico e que já o alçou em um patamar diferente apenas pelo fato da liberdade sonora e da falta de amarras ao experimentar.

Eis que cinco anos depois, o carioca radicado em João Pessoa nos brinda com mais um belíssimo trabalho. Presente é agradável como um mimo ganho em aniversários que leva o mesmo nome. Com bem menos faixas que o antecessor, porém com um nítido aprofundamento de produção e com provável mesmo número de instrumentos usados pelo compositor, o novo trabalho rompe a barreira do instrumental e deixa a obra de Gabriel ainda mais intima quando sua irmã interfere cantando em uma das melhores canções do disco. O trabalho percussivo também é notável neste registro, as baterias estão em seus devidos lugares nas composições. Instrumentos de corda como violas e violinos também tem seus lugares de importância.

Anestesiados pelo presente, resolvemos bater um papo com o músico sobre este novo trabalho e nos redeu este belo faixa a faixa.


01. Saturno Canta

A primeira música tem vocal de sua irmã e vai na linha canção. Eu queria saber de quem é a letra e seu sua irmã e cantora realmente. Porque começar o disco com uma canção, já que é um pouco diferente do resto do trabalho?

Gabriel: A letra é da Eliza, minha irmã. Ela sempre teve uma voz boa, mas nunca se envolveu muito com música, já faz um tempo que eu proponho a ela de produzirmos alguma coisa junto, mas ela sempre foi mais ligada a literatura, chegou a publicar um livro de poesias a alguns anos. Chegamos a fazer algumas tentativas e "Saturno Canta" é resultado de uma dessas. Depois dessa experiência ela tem falado em compor mais coisas e me mostra algumas coisa, as vezes pede harmonias. Talvez saia alguma coisa, estamos conversando sobre isso.

Sobre a canção, enquanto eu produzia o disco, sentia falta de voz humana pra compor a parte mais de timbres do disco e a gente tinha acabado de compor "Saturno Canta", ai convidei ela pra gente fazer umas captações e eu comecei a trabalhar em cima do material. A medida que eu mostrava os resultados, a gente sempre divergia no que cada um esperava da música. Ela sempre preferia essa versão mais em natura, não que eu não gostasse mas sempre achava que podia puxar um pouco mais dela. Relutei um pouco em assumir a canção no disco muito por isso. Mas também achei injusto não respeitar o ponto de vista dela, já que a canção é mais dela que minha. A solução então foi publicar as duas versões abrindo e fechando o disco.

Vi que "Presente" é seu terceiro trabalho. Qual seria o primeiro, já que só conheço o Ludismo.

Gabriel: O primeiro album saiu em 2009, chama "Gabriel Araújo" e é bem ruim! haha.

Nessa época eu ainda não dominava muito bem questões de captação e mixagem. Então é um disco rústico e com muitas falhas, mas tenho um carinho muito grande por ele. Foi composto praticamente todo em cima de um violão de aço. De lá pra cá as composições amadureceram bastante, e todo o resto também.



02. Encanto

Já essa vai na linha mais instrumental e lembra o "Ludismo". Queria que você falasse um pouco sobre o seu processo de composição. O uso de percussões e instrumentos de corda, essas coisas...

Gabriel: Sobre o processo. Bom, eu levei bastante tempo pensando na sonoridade do disco. Tentei bastante coisa que não deu certo, ou até deu, mas não era o que eu estava procurando. Encanto foi a primeira sessão de captação que acabou virando o processo do disco, nessa época ainda não tinha definido o que de timbres eu ia usar, então foi bem na vibe de laboratório. Com ajuda de Felipe Lins (guitarrista que se apresenta comigo), começamos alterando a afinação do meu contrabaixo e captando uma sequência de harmônicos ao longo do braço e depois disso uma frases livres de percussão, usamos uma coqueteleira e peças da bateria (pratos, aro, caixa com esteira, caixa sem esteira, surdo), gentilmente cedida por Flávio Teles. Por fim gravamos alguns grooves, pro caso de sentir falta de uma condução. Depois disso foi tratamentos dos áudios, edição e montagem.

Essa segunda etapa levou bastante tempo também, ouvir os takes, selecionar os melhores trechos, timbrar os elementos. Eu não tinha a maior parte dos temas dessa faixa, então fazia algumas versões e mandava pro Felipe que avaliava atentamente, e a medida que ela foi ganhando forma eu passei a ouvir ela fora de casa, em outros ambientes. Foi quando eu estava na escola onde dou aulas ouvindo a pré que ao mesmo tempo ouvi Rayssa Melo estudando Concerto n. 3 para violino e piano de F. Seitz para um recital, e foi um soco no cérebro. Pedi a ela que repetisse o estudo e captei com o celular mesmo. Voltei pra casa e pouco tempo depois ela estava concluída.

Você considera o som que você faz experimental? Por que?

Gabriel: Acho que sim. Pelo menos eu gosto de acreditar que sim. A ideia de experimentar passa muita liberdade pra você usar qualquer clichê que você julgue interessante, ser subversivo, e como é um laboratório, não tem qualquer tipo de compromisso com o resultado. Não associo diretamente o experimental com o abstrato. Acho o que pra gente hoje é um senso comum (tropicalismo, punk, funk carioca, bossa nova, manguebeat e etc...), em algum momento foi experimental. Acho que talvez o que caraterize um trabalho como experimental seja tentar coisas diferentes, pouco usadas, misturas exóticas, desconstrução, reconstrução, subversão. O que pra mim nem significa inventar algo totalmente novo, as vezes pode ser só juntar ideias ou timbres distantes. E essa é uma preocupação minha com esse trabalho. Mas eu posso estar enganado.


03. Irena e Raquel

É inevitável não perguntar quem são estas duas.

Gabriel: Haha.. As vezes acabo batizando alguns temas com nomes de pessoas, tenho uma dificuldade pra dar nomes aos temas e principalmente nomes bons, sonoros... então meio que facilita essa parte. São duas amigas, uma vive em Moscou outra em Recife. No mais é isso, são pessoas queridas.

As suas músicas parecem ser meio soltas, como que um improviso. Fale um pouco sobre isso.

Gabriel: Sim, nesse caso principalmente. Eu tenho escutado alguns artistas que trabalham com colagens, hip-hop, jazz experimental, música contemporânea, ambiente e eu já vinha tentando umas coisas nesse sentido. Nessa faixa, os dois temas acabam funcionando como contraponto um do outro e abrindo um pouco de variação em alguns pontos. Talvez o contrabaixo tenha levado um pouco pra esse lado do improviso, as linhas de baixo foram criadas no momento das captações, e se não me engano boa parte delas são os primeiros takes. Acho que saxofone deu esse ar mais jazzistico também. São sobras de uns takes que Bel e eu captamos pro disco do Meiofree, que sai agora no fim do ano. Enquanto tratava os áudios, por acidente, acabei tocando todos os takes ao mesmo tempo. De cara deu pra sentir que funcionaria pra alguma coisa. Dai foi aquele processo novamente, captação de percussão, temas, audição, tratamento, edição e por ai vai.

Esta canção tem 10 minutos e vários instrumentos dentro do enredo. Você toca todos os instrumentos?

Gabriel: Só não toquei os saxofones nessa faixa. Mas na realidade a instrumentação dela é bem simples. Foram usados violão de aço, viola de 10 cordas, um synth virtual, baixo elétrico. Afora isso foi novamente a coqueteleira, um par de bolas baoding, um cajon e a parte das cordas do violão que ficam mais próximas as tarraxas.

Por que você lança estes discos?

Gabriel: Bom, difícil responder essa. Da adolescência pra vida adulta, eu tive uma banda. Me chutaram da banda, essas coisas que todo mundo acaba vivendo, e nesse período acabei desenvolvendo os hábitos de pesquisar e compor. E mais ou menos em 2006, quando eu sai da banda, eu ouvia muito folk, música folclórica (cigano, pantaneiro, americano, inglês, turco, russo) e vinha pesquisando muita trilha sonora de filmes, tinha uma certa proximidade com o teatro. Comecei a compor alguns instrumentais pra uma peça que acabou não rolando. Depois disso conheci o Bruno Borges, vulgo Pena Branca. E acho que gravar só aconteceu mesmo por incentivo dele. Ele tinha acabado de voltar da Alemanha e me propôs de que eu gravasse um EP que ele faria a capa, lançaríamos na internet e depois veríamos que bicho deu.

Acho que eu lanço porque ninguém me impede. Brincadeira. Mas sendo bem honesto, é um trabalho bem pessoal, mas não tem uma boa justificativa.


04. Encontro

Esta talvez seja a música mais estranha do trabalho, gosto do uso da bateria e dos nuances que envolvem ela. Por que "Encontro" como nome ?

Gabriel: Essa faixa é o contraste do disco. Pra ela eu queria mesmo valorizar a sessão rítmica, mais que nas outras pelo menos. Bom, (vai começar uma papo existencialoide agora) o nome tem mais a ver com a proposta do disco. O disco foi construído na ideia de tempo. O nome é "presente" justamente falando do tempo presente. E quando a gente olha pra ele, não dura nada e ao mesmo tempo não acaba nunca. E outras coisas, tipo... O tempo ele é um só pra todo mundo, mas cada um experimenta ele de forma particular, e aí que tá a graça e o caos da vida né?! Nas relações mesmo, entre as pessoas, dificilmente a gente tá vivenciando o mesmo momento da mesma maneira.

A proposta do disco é bem essa, de ilustrar essas nuances, saca? Existe, ou cria-se um equilíbrio, que vai se perdendo e retorna ou se perde de vez. E mesclando com as sensações de conforto também, desvinculando um pouco a ideia de equilíbrio e conforto uma da outra. Por isso tanta coisa fora de tempo no disco, outras coisas também tipo afinação e as colagens mas eu achei que principalmente no ritmo ficava mais claro isso. E aí que cada elemento tu pode de repente entender como um personagem, com um ritmo diferente de "existência", destinos diferentes, e essa dinâmica toda irregular vira o contexto e tal. Então essa faixa vai muito nessa onda de que nenhum encontro é perfeito, o que também não quer dizer que seja ruim ou menos belo.

Tu já pensou num baterista pra tocar essa ao vivo?

Gabriel: Penso sim, temos um baterista. E na real já estamos ensaiando essas músicas há alguns meses. No começo deu um pouco de trabalho, a gente tava tentando umas coisas que não estavam fluindo. Dai a gente resolveu relaxar e abrir mais as interpretações de cada um... o que eu acho bacana, porque acaba que outros pontos de vistas vão entrando na composição, vai dando mais camada eu acho e sempre acho que a música amadurece com o tempo e tal.

E por que poucas faixas neste registros?

Gabriel: Então, eu compus muita coisa e tentei muita coisa antes de chegar nesse resultado. Cheguei a fechar uns dois discos, um acabei jogando fora, por não estar bom mesmo e o outro David Neves do Ubella Preta se interessou em produzir, não tem data nem nada, mas vai rolar.

Dai que eu acho que acabei optando por ser mais sucinto, também por um pouco de medo de ser chato, errar na medida. E tem a quantidade de temas, né? São poucas faixas, mas com vários temas, acho que uma coisa compensa a outra.

Existe alguma possibilidade de "Presente" ser apresentado ao vivo? Se sim, antes de quatro anos após o lançamento?

Gabriel: Haha, (essa alfinetada doeu). Sim, estamos com previsão de fazer um primeiro show em dezembro desse ano. Mas entenda essa demora dos quatro anos. Eu havia acabado de chegar em João Pessoa, não conhecia as pessoas e tal, levou um tempo até as coisas começarem a acontecer... e sempre mostrava o trampo pra galera, as pessoas gostavam e tal, mas foi difícil de encontrar a galera que topasse executar. Colecionei algumas "mangas" da galera, mas de boa, sem ressentimentos.


05. Saturno Dança

Existe alguma razão para esta homenagem a Saturno?

Gabriel: É uma referênciazinha mitológica. Saturno, Kronos, deus do tempo na Grécia. O nome é só mesmo pra linkar com o restante do conceito do disco.

A vocalização é mais uma vez da sua irmã?

Gabriel: É ela mesma. Peguei uns trechos dos takes que ela cantou e fiz uma nota pedal pro arranjo gravitar em volta.

Existe algum sentido ou uma composição para as canções deste trabalho?

Gabriel: Pra mim tem, né? O que ela diz na canção era bem o que eu tinha em mente, essas medidas "...num momento louco, que não passe logo, que sirva de alento, pra que passe o tempo logo antes do que virá... ... que se vive logo que se vive muito, que se vive pouco o que se vive dentro, que antes que isso passe, ainda quero tanto ainda quero tudo, que eu não posso nunca evitar ...". Tem uma coisa de ansiolítico nisso, quase como quem diz "tenha calma, olha pra você, observa esse momento" de entendimento e resignação dessa desordem toda e você aproveitar e cantar. Mas eu posso estar exagerando. O mais legal é foi tudo muito natural, a gente nem conversou sobre um argumento ou direcionamento.

Cara, eu entendo você ser músico profissional e o quão é difícil se manter, então qualquer galinha possível é valida. Mas eu acho seu trabalho solo tão diferente de todos os projetos do qual você faz parte. Tem alguma explicação ou algo a dizer sobre isso?

Gabriel: É cara, é uma guerra. Mas acho que de 2005 ao início de 2010, eu tocava muito em bares, festas e fazia freelas. Então meio que virou um hábito tocar coisas distantes (algumas vezes apareciam no mesmo repertório Djavan e Alice in Chains). Por um lado é muito bom, você fica com um repertório extenso, e um reflexo musical ágil. Mas por outro, o tempo passa e você não constrói nada. Eu acabei crescendo assim, escuto muita coisa discrepante, e vez ou outra me interesso por projetos assim também, se qualquer coisa nele chamar atenção. Tem um pouco disso de pagar conta e tentar fazer a vida, mas na real se o foco fosse esse era mais fácil mudar de profissão. haha.

No mais, espaço aberto para dizer o que quiser...

Gabriel: Obrigado pelo espaço pra falar desse trampo. Acho esse trabalho de vocês de registrar, documentar e divulgar essa cena de uma importância vital e extremamente bem feito. Parabéns! Sensacional. E tamos ai se pintar aquele convite pra fazer um som em terras pernambucanas. Valeu demais essa força.

Abraço grande!

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