Trícepsoema da Distopia Pós Moderna

por - 14:06

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I - O poema blues do concreto
Não existe mais lugar para esconder-se
nem ao menos o mecânico dia

Não existe mais poluição para ater-se
toda a cinza fumaça torna-se liquido
enquanto o dia passa

Pessoas e seus cartesianos modos
monstros presos fora do armário

ternos dizendo o caminho para casa,
esposos aracnídeos sugando sangue
de esposas sem a língua
os cantos com moradores de rua
pessoas tentando voltar às suas cavernas
cavernas as quais foram empurradas
por outros...

Esperando que desapareçam ou morram de uma vez.

O trovão da chaminé cuspindo lava e morte
nas arestas das favelas
todos os carros de polícia com câncer oleoso
balas cortando o ar pesado
os gritos de bebês acéfalos
nas casas temporárias em noites de Natal

Thom Yorke no rádio e a revolução silenciosa
as luzes aproximando-se
a casa de vidro permanece intacta
a inalterabilidade do governo

Estrada Bandeirantes com pedaços de carne
ferro esmagado e pernas arrancadas

o sol ainda permanece horizontal e belo
tornando-se mais do que salvação
porém como todo herói, morre ao entardecer
nós ainda estamos sós, nascemos sós e morremos sós
pensando em não nos transformar em lunáticos
sermos atropelados por um caminhão no meio da estrada
esperando permanecer sãos

em ver todas as estrelas e conseguirmos sorrir
as luzes da avenida, o entrecanto vermelho brilha e brilha
nós rezamos

no entanto essa vida cartesiana custa tudo
as almas sem preço e com desconto
fábricas atômicas manufaturando corpos

ela corre por entre os carros
gritando como a vida é nada
não possui roupas, a pele é ornamento
bela
trucidada
sangrando
é real...

A única verdade real é a transgressão
todo o resto é esperança
presa em caixas de cereais
armadilhas seriais de cancerígenos flocos
o rádio ainda diz que Jesus salva
pastores esmagando convicções do Apocalipse

e o pau ainda duro
envolto no lábio maior
saliva a realidade

a fumaça do cigarro desenha o futuro na estrada
planícies verdes e montanhas na janela
Andrômeda ainda espera a ejaculação
ao mesmo tempo que o norte espera a chuva
os deixem morrer, diz o sul
os deixem morrer...
todos os arianos racistas do sul
chamando negros de macacos em jogos de futebol
o último câncer do pós-modernismo
metralhadoras na fronteira
cowboys da cocaína no blues
e ainda assim os pastores insistem em buscar salvação
quando não existe mais nada sob a Terra...


II - A Rua Cleveland


O prédio policial na Rua Cleveland tem ferrugens laterais
contraponto com o laranja terra das paredes
que sustentam-se por gemidos & respirações embaçadas
escarros sem casa em pés feridos
deambulações trôpegas no meio fio
a descida é íngreme, solta como caracol sem raio
no contra fluxo carros
sempre carros na contra mão da evolução
eles não falam
gritam distorções em rádios fora de sintonia
são apenas carros mortos
sem saber de sua real posição na subida
a calçada mínima cria muros
almas que não se enxergam porém desviam uma da outra
apressadas
escarificadas
sacrificadas na poluição da manhã
o viaduto por onde passam trens
assovia um blues de John Lee Holeman
os freios dos trens superfaturados dilatam ácido & agudo sons nos trilhos
esse é o 63º trem modernizado
vermelho opaco
rouco em blues de mescalina louco por entre os dias
apressado
porém nem tanto quanto o paraplégico
em seu skate de flores mórbidas
repousando na rampa de descida na rua Cleveland
ele sente seu redor esvaziando-se
enquanto abre o papel onde se encontra o crack
logo abaixo das inscrições dos neo nazistas
dizendo que são os melhores
e essa é a terra prometida
a terra que escorre por entre as baforadas
na homeostase da pobreza hereditária
esse é o 63º trem modernizado
esse é o 65º trem modernizado
esse é o 79º trem modernizado
todos parecem ser o mesmo trem, o mesmo 63º
tilintando seus freios crackeados
no cinza do céu
Kassab contemplando seu plano de moradia
enquanto outra favela queima dentro da noite
matrículas abertas ao inferno
o lugar lutando contra a genética do sofrer
nessa rua a ciclovia é democrática
por onde passam pula pulas, bicicletas, skates e carrinhos de mão
não os carros... Eles já moram no coração podre paulistano
moradores e seus recicláveis salvadores
com suas lonas formado o conversível ímpar
o ódio de não poder frear essa mágoa eterna
as anedotas de deus descem na garoa
insistente aos ouvidos mais atentos
árvores do Sesc Bom Retiro repletas em urina canina
os cheiros da angústia de não saber onde se está
os impostos repletos em falcatruas
reclamações de uma classe branca que já nasce por cima
cuspindo racismo em torcidas
angariando simpatizantes
como a pichação dos neo nazistas no viaduto
vendedoras e seus pacotes extremos
repletos de roupas feitas por escravos sul americanos
em casa minúsculas no Centro da cidade
morrendo aos poucos inalando Gás Laranja
nas máquinas de costura empaladoras
a súplica de se deixar viver em um país estranho
com ruas como a Cleveland
repletas de poeira cósmica dos desiludidos
a tristeza grafitada nos rostos
a tormenta & trovoadas do sofrimento
os letreiros de São Paulo expelem névoa
os escarros sempre permeiam a vida
por entre os destroços um beijo
o beijo mais doce que saliva
mais impresso do que o desenho do ser e seu crânio aberto
na passarela
esse beijo, o único beijo, por entre os trens
entre o prédio da polícia
que se prepara para mais uma
desapropriação de moradias
onde as pessoas não receberam beijos redentores.


III -Mascus Eternos


Da tormenta então era eu meretriz
ódio do eu que não me quis
tuas lamúrias incessantes
cederam meu ser

A pedra que abrasa minha pele
o soco em minha garganta
tua mão aproxima-se
do meu morrer

São todas marcas das amarras
todas as lágrimas são tuas estacas
derramadas em um vazio
no meu ceder

Da minha loucura fizeram-se asas
áridas como toda tua haste
rasgando meu sexo trôpego
violentando mais meu sofrer

O choro aos estranhos ouvidos
receptores de minha neurose
marejam indiretas órbitas
enquanto escorre minha psique

São braços a não me olharem
que acolhem meus restos
almas que não me sentem
envolvem meu mortuário não nascer

Enquanto por entre os dias suplico
tua lenta dissolução
em podres átomos a romper.

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