Um happy hour com Lee Ranaldo

por - 11:25

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Foi uma baita surpresa de última hora ser escalado para entrevistar Lee Ranaldo, ex-guitarrista do Sonic Youth que hoje administra vários projetos musicais, além de se apresentar com o The Dust, banda que acompanha em seus shows e que ainda conta com a bateria de Steve Shelley, também ex-SY.

Já por volta das 17:30h em uma sala de imprensa do hotel em que estava hospedado ele aparece, vestido como se já estivesse pronto para mais um show. Ao ver a sala, Lee imediatamente dispensa a mesa preparada para as coletivas e propõe uma conversa mais informal, fazendo uma roda com as cadeiras do lugar.

Entre um cafezinho e várias risadas, Ranaldo concedeu essa entrevista onde respondeu várias perguntas sobre o SY, sua vida e várias situações da mesma que posteriormente foram traduzidas em música.

Antes da entrevista de fato, Lee relembra os shows passados que fez em São Paulo, como o último do Sonic Youth em 2011. Por ter sido realizado em Paulínia, interior de SP, Lee diz que não se sentia em São Paulo.

“Apesar do SY querer muito tocar na América do Sul, a primeira vez aconteceu só em 2000. Na época, nosso período com Jim (O’Rourke) foi muito bom porque, apesar de ainda estarmos em uma grande gravadora, a Geffen Records, nós voltamos a fazer música como no tempo que éramos independentes, gravando em nosso próprio estúdio em NY e inclusive lançando álbuns por conta própria por nosso próprio selo, o SYR (Sonic Youth Recordings). Ali fizemos várias experimentações, inclusive nessa época foi quando o Jim apareceu no estúdio para tocar com a gente e acabou ficando”

Lendo entrevistas suas você fala como ainda é estranho estar se apresentando neste formato com o The Dust, porque é como estar começando tudo de novo apesar de tantos anos de experiência com o SY. Mas agora, depois de álbuns lançados e vários shows já feitos, você já se sente mais confortável ou ainda é estranho?

Depois mais de 30 de anos de carreira ainda é estranho. Todos do SY sempre tivemos nossos projetos paralelos, mas o SY sempre estava lá como o nosso principal e para onde sempre voltávamos. Então é ainda um sentimento novo que ainda não me acostumei. Acho o que fez o SY tão bom em minha opinião é que sempre fazíamos nossa música juntos. Ninguém nunca chegava já com a música pronta e acabava por aí. Agora cada um de nós é responsável por um projeto em particular e acaba sendo como um diretor de cinema em que você é o chefe mas trabalha com várias outras pessoas. Ainda assim é um desafio interessante depois de tanto tempo colocar outro projeto como nosso foco principal. O Between Times and Tides foi feito em um período anterior ao SY parar. Nós tínhamos terminado a turnê do The Eternal e não sabíamos ainda o que fazer a seguir, peguei esse tempo livre e comecei esse disco e bem depois disso soube que a Kim e o Thurston estavam se separando. Então o BTAT não foi uma reação ao que aconteceu com o SY. Além disso fiz alguns shows acústicos sozinho, que é bem diferente de shows em grandes lugares com as pessoas pulando para lá e para cá.

Algumas faixas do último álbum (Last Night on Earth e Blackt Out) foram compostas durante a passagem do furacão Sandy por Nova Iorque. Além dessa, quais outras situações incomuns que você passou renderam músicas?

A maior parte das minhas músicas foram feitas dependendo da situação pessoal que eu passava e das pessoas ao meu redor, sempre foi assim. Na época do Murray Street o 11 de setembro era um acontecimento recente e mesmo que de forma implícita aquele sentimento foi parar nas nossas músicas e letras. As músicas no período do Sandy foram bem particulares porque foi em um período em que estávamos sem sinal de telefone e nem luz tinha, foi quase uma semana que ficamos dessa forma na baixa Manhattan. Curioso que sem Facebook muita gente ia para a rua desesperado por algum lugar que fosse possível carregar seu celular (risos).

Mas foi interessante ver como as pessoas precisavam umas das outras. De noite, o que nos restava a fazer era conversar uns com os outros ao invés de cada um ficar sentado na frente do seu computador. Enfim, os violões ainda funcionavam então foi aí que comecei a fazer essas músicas. Aliás, gravei até alguns sons da tempestade durante esse período. O vento fazia barulhos tão estranhos que eu não sabia o que estava acontecendo, uma hora parecia um coral de vozes e em outro momento, batidas de música industrial. Até hoje não sei o que provocou esses barulhos, mas os registros que eu fiz que renderam posteriormente uma música para uma orquestra alemã da qual fui convidado para compor e até toquei com eles algumas vezes, inclusive recentemente no Lincoln Center. Então essa semana (sem energia elétrica) rendeu muita coisa que se desenrola até hoje.

Você fez alguns álbuns solos enquanto estava no Sonic Youth. Esses trabalhos eram muito mais experimentais comparados ao que você fez nos dois últimos, que são músicas mais compostas em guitarra e piano. Por que essa mudança e como você vê hoje a indústria musical que se apega mais na composição derivada de instrumentos mais eletrônicos (como sintetizadores)?

Bem, respondendo a primeira pergunta foi um caminho que eu achei interessante. Antes do SY se separar eu já estava compondo mais dessa forma tradicional, inclusive com violões. Eu tenho muitas guitarras, mas também tenho vários violões. Então fiquei bem interessado em estar em casa compondo dessa forma. Foi questão de interesse mesmo. Como antes, tanto no SY quanto em carreira solo eu fiz música de forma tão improvisada e abstrata, que compor de uma forma mais tradicional acaba sendo algo experimental para mim pois era algo que não costumava fazer antes apesar de toda minha vida ter ouvido todo os tipos de música.

Como, além do Greatful Dead, o Neil Young...

Sim! Neil sempre foi alguém que eu sempre gostei assim como Johnny Mitchel, David Crosby, Leornard Cohen... então decidi não me questionar mais e me aprofundar em fazer música partindo do violão mesmo. Também pensei que não seria interessante neste período fazer um tipo de som parecido com o que eu fazia no SY, apesar de poxa, eu sempre toquei guitarra então essa influência elétrica sempre estará ali. Foi um caminho que decidi seguir. Qual era a segunda parte mesmo?

Sobre os sintetizadores na indústria da música...

De um lado essa pergunta é engraçada porque agora eu estou trabalhando em um álbum que envolve percussão eletrônica e samples. Lembro lá nos anos 80 quando estávamos na Inglaterra e faziam essa mesma pergunta! Havia quem dizia coisas como “a guitarra está morta e agora a onda é fazer música com sintetizadores” e a gente não ligava. Nós tocamos guitarra e bem, a resposta continua a mesma: eu gosto de todos os tipos de música, mas a guitarra é tão especial por poder tirar dela vários tipos de som, é como uma orquestra portátil. Tem tanta coisa para tirar dela que eu nunca pensei algo como “ok, já fiz tudo que fosse possível com esse instrumento” porque ainda tem muita coisa que posso fazer com ela. Então essa situação não me incomoda porque o mundo não é dominado só por sintetizador e tem vários tipos de sons por aí de formas mais tradicionais ou até experimentais. Depois do SY todos viraram os olhos para nós com muita expectativa sobre o que viria a seguir e acho sincero da minha parte continuar fazendo música e arte visual e esses são meus pontos de interesse.

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Em outra entrevista você discute esses problemas da vida moderna sobre pessoas que passam tanto tempo encarando seus smartphones ao invés de conversas cara a cara. Por outro lado, você recentemente viajou entre Mumbai e Nova Délhi, na Índia, onde passou vários dias sem internet ou qualquer tecnologia e até tocou em um palco feito de bambu e cordas! O quanto esses “problemas da vida moderna” te incomodam e em que nível esses momentos de desconexão com o mundo são importantes para o seu trabalho?

Eu acho bem interessante porque vivemos em uma era digital e não tem como escapar, mas ainda sinto que estamos bem no começo disso e acho que em algum momento as pessoas vão achar um equilíbrio em tudo isso a ponto de proporcionalmente colocar as coisas em seu devido lugar...

[nesse momento, Lee vasculha seu celular em busca de uma foto desse palco em que tocou, veja a foto acima]

Aqui está! Não sei se conseguem ver, mas o palco é todo feito de bambu. Nem sequer tem pregos! Foi tudo amarrado com cordas. À noite a iluminação que o palco tomava era linda. Esse show foi em um campo para um festival indiano e para chegar lá dirigimos em uma estrada muito esburacada por 17 horas! Foi um lugar bem ao oeste da Índia chamada Pés do Himalaia. Foi uma experiência incrível e realmente, lá não tinha cobertura de celular nem nada e ficamos lá por cerca de uma semana.

Bom, voltando ao assunto acho que realmente tudo uma hora vai se dar um jeito. Me incomoda muito hoje em dia você estar conversando pessoalmente com alguém e, de repente, o celular toca e do nada acaba virando uma conversa de celular sem nenhuma importância de mais de 10 minutos. O problema não é ter o celular porque essas coisas acontecem, é como é rude todo esse tempo de espera em frente à pessoa que está bem ali e hoje muita gente acaba achando normal. Ou então essas pessoas que olham o celular enquanto atravessam a rua e acabam quase sendo atropeladas por não prestarem atenção no mundo ao redor. Faço o meu melhor para não ficar o dia inteiro checando meu celular para ver se tem novas mensagens ou e-mails.

É curioso que quando surgiu os computadores particulares muitos pensaram algo como “nossa! Não seria legal ter um computador que coubesse no nosso bolso?” E agora nós temos algo assim e temos que lidar com isso e é parte de nossa vida para o melhor ou pior. Temos discussões sobre gravações de forma analógica ou digital e aceito esse tipo de mudança. Também acho legal a ideia de poder tirar uma foto e instantaneamente ela ir parar o Instagram ou algo parecido, mas também por ter crescido em outra época de tecnologia diferente sei que, em alguns casos, o analógico soa melhor que o digital ou o vinil é melhor que o CD ou até, se não for melhor, ao menos é feito de uma forma diferente. Quando gravamos em alguns casos procuramos microfones produzidos 40 anos atrás porque sabemos que são melhores que os de hoje em dia. Às vezes o velho é melhor ou o novo é melhor e seguimos nosso caminho.

O Steve está com você junto no The Dust, mas você tem planos para trabalhar com a Kim ou o Thurston mesmo que seja em outro projeto?

É sempre possível. Eu fiz alguns shows com o Thurston e ele deve tocar no meu próximo álbum. Algumas semanas atrás nós estávamos no estúdio, coisa que não é tão fácil hoje em dia já que ele está morando em Londres. Da minha parte estou sempre aberto para essas ideias. Ele e a Kim têm uma relação conturbada, mas minha relação com os dois é boa. Última vez que toquei em Londres inclusive o Thurston abriu nosso show. Nós ainda compartilhamos muita coisa, é inevitável. Além disso, continuamos mantendo forte contato.

Sobre essa fase de sua carreira, onde tem tocado em lugares menores e abrindo shows. Como o SY era mais como uma banda principal, como está sendo para você?
Bom, nem sempre. Até o SY abriu shows para o R.E.M, Pearl Jam... Nós nunca pensamos que chegaríamos a ser tão grandes até em nossos momentos mais populares. Quando éramos a atração principal até escolhemos bandas de abertura que o público nem curtia tanto mas para nós tinha sentido naquele momento e ajudaria no que seria nosso show. Se por um lado tocamos por exemplo com o Mudhoney e o Dinosaur Jr no começo de suas carreiras, em outros shows foram bandas mais abstratas para dar ao público uma experiência diferente. Para nós, esse era o mais interessante em ser headliner. Enfim, o mundo pertence as novas bandas.

Está ouvindo novas bandas hoje em dia? Cite algumas, por favor.

Hoje de manhã eu estava ouvindo uma banda nova do Brooklin chamada VBA. O guitarrista da banda já trabalhou em nosso estúdio e foi aí que tive a oportunidade de conhecê-los. Eles acabaram de terminar seu primeiro álbum que nem saiu ainda e está muito legal. Também ultimamente estou ouvindo um cara chamado Steve Gunn e também uma banda chamada Circle des Yeux que o som é bem interessante, a vocalista tem uma voz muito densa. Estou sempre descobrindo novas bandas e sons para curtir ao mesmo tempo que também revisito o passado. Nesse meu novo álbum tem partes que lembram The Stooges ou The Beach Boys. Sempre há motivos para redescobrir sons que você pensa que já conhece muito bem e acaba achando coisas novas e que acabam se encaixando com seu atual momento de compor.

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Entrevista feita por Mawa e fotos da coletiva pelos camaradas do Azoofa.

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