Faixa a Faixa: Ogi - "RÁ!"

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OGI
O Ogi passou dois anos trabalhando em RÁ!, segundo disco de sua carreira e já considerado por muitos como um clássico do rap nacional. E de fato, ele é. Nesse álbum ele não mostra apenas que está entre um dos melhores artistas brasileiros de todos os tempos no gênero, como também apresenta um repertório bem foda de técnica, narrativa e flow. Não a toa, desde que foi lançado, RÁ! é um dos discos mais comentados pela internet a fora.

O álbum também pode ser considerado quase que uma obra illuminati, a cada vez que você ouve, algo novo surge. Para tentar entender melhor como funcionou a cabeça no Ogi durante o processo de composição, o longo tempo de espera entre Crônicas da Cidade CinzaRÁ!, a ideia das parcerias com Kiko Dinucci, Thiago França, Mao e Juçara Marçal e tudo o que fez parte desse tempo em que o rapper preparava esse clássico, apareci na casa dele numa terça-feira e conversamos mais de uma hora sobre cada faixa do álbum, Mr Robot, True Detective, Game of Thrones e claro, rap. Leia abaixo.


“Intro”


De onde surgiu a ideia de criar esses diálogos e essa temática de ser você no terapeuta?

A gente já tinha as músicas e aí, mano, pra dar uma unidade pro disco, o Oga, que fez a capa, sugeriu a gente fazer isso: “por que vocês não fazem o Ogi no médico, alguma coisa assim?”. Eu falei “boa ideia” e criei os interlúdios em cima das faixas, como se eu tivesse numa consulta de psiquiatra, mas criei baseado em cada música e deu essa unidade pro disco.

Por ter esse lance de você estar no terapeuta, eu no começo associei que o RÁ! é um disco muito mais interno, as coisas da sua cabeça, do que o Crônicas da Cidade Cinza, por exemplo, que mesmo tendo muita coisa sua, tem como fundo a cidade de São Paulo.

É e não é. Eu acho que nesse disco eu evolui várias coisas, não só técnica, evolui, cresci como pessoa, mudei como pessoa e é uma coisa que nesse disco eu misturo mais, eu falo em terceira pessoa, eu falo em primeira pessoa, diferente do Crônicas. É isso, tem muita coisa onírica, lúdica, que eu fui misturando nas rimas pra chegar até esse conceito que eu quis dar.

Que é esse conceito mais interno seu né? Eu falo isso até por causa do nome do disco, RÁ!, que é uma coisa bem característica sua, falar “rá”.

E “rá”, além de ser isso, é um bordão que eu já uso bastante e também é como se fosse “rá, toma essa! Você não tava esperando por isso”.

Já que estamos falando do disco, antes dele sair, você ia lançar um EP. Por que rolou essa demora?

Ia sair o EP, só que a gente foi fazendo as faixas e decidimos fazer um disco mesmo, cheio, 13 tracks e os interlúdios, aí deu 16. Eu ia fazer um EP só que eu tinha que ter lançado antes e já tinha passado um pouco do tempo, então a gente decidiu fazer um álbum.


“Aventureiro”


Nessa faixa tem uma coisa bem foda, eu achei até que era outra pessoa, mas é você, você faz a voz de outro MC no som. Por que criar outras vozes dentro do disco?

Eu sempre tive facilidade pra ficar fazendo vozes, dublando, zoando... eu já vinha testando isso em outras coisas e decidi colocar isso mais em evidência, deixar mais claro, até porque em um disco de um MC só às vezes acaba ficando meio maçante, sempre a mesma voz, eu acho que se você faz isso, acaba dando mais dinâmica pro álbum. Eu decidi fazer isso justamente pra dar uma dinâmica maior pro disco.

Nessa faixa, principalmente no refrão, eu acho que tem um lance meio dúbio, você falando tanto da cidade em si como do rap também. “Ninguém me convidou, mas eu resolvi colar”.

Sim, sim, total. É como seu tivesse chegando com os dois pés na porta, e que tem a relação com o nome do disco também. Eu chego colocando várias skills e falando como se eu tivesse invadindo um local, que é como eu descrevo na letra, é bem isso.


“Estação da Luz”


Essa faixa é um bate-cabeça, né? Como rolou esse contato com o Mao do Garotos Podres? E por que chamar ele pra essa faixa?

Então, o Nave bolou essa batida. Eu já queria um bate-cabeça, e eu falei pra ele que queria um barato bem 93, ele mostrou essa batida e criei o refrão. Eu tava pra chamar o Mao ou o João Gordo, só que não consegui chamar o Gordo, acho que por causa de agenda cheia e o Mao na hora que chamei topou. Um desses dois eu já estaria satisfeito. Porque tinha a ver com essa coisa do punk, da música, porque eu sempre fui muito fã de Garotos Podres, um amigo meu me apresentou e desde então eu ouço muito. E graças a Deus eu tive sorte do Mao topar e rolou.

Você ouve muito punk rock?

Eu ouço muito Garotos Podres, Ratos de Porão eu já ouvi bastante, mas eu não conheço tanto não, é que eu gosto desse estilo de som, pesado e com essa coisa de ser bem energético.

Em “Estação da Luz” você introduz uma coisa que vai usar ao longo do disco todo, que são as palavras em inglês. Foi uma parada natural quando você tava compondo ou algo pensado, de inserir palavras em outro idioma?

É justamente pra aumentar o vocabulário, pra tirar umas sacadas legais. Tem como usar algumas palavras em inglês com palavras que não fiquem tão difíceis, palavras tipo “Let’s go party”.

Aqui você usa “Delicious”.

Então, tem coisa que não vai ficar forçada, tem palavra ali que é de fácil entendimento pra todo mundo, porque inglês é uma língua que muita gente entende e que acabou casando direito. Foi pra dar uma variação maior.

E você fala inglês?

Puta, mano, não falo nada (risos). Meu inglês é bem meia-boca, eu entendo bastante coisa, mas é bem meia boca (risos).


“Hahaha”


Aqui você cita um som da Giane, “Dominique”.

É uma canção bem antiga, minha avó cantava isso aí. “Dominique nique nique”, e aí eu tava montando a música e quando eu comecei a primeira parte, eu já emendei isso, peguei essa referência, da risada, comecei a imaginar. Esse som é um beat do Casual, que é um rapper da banca do Hieroglyphics, aí eu encaixei esse refrão.

E você ouve muito som antigo?

Escuto bastante música antiga, escuto muito samba antigo, muita música brega, soul. Eu não fico só no rap.

Até porque no começo do Crônicas você usa um trecho do som do Plínio Marcos...

Do Zeca da Casa Verde, o Geraldo Filme, o Toniquinho Batuqueiro e o Plínio Marcos. Eu acabei descolando esse disco das pesquisas de sample que eu vinha fazendo e aí por acaso o que ele falava no começo casava com o que eu queria fazer ali.

Nesse som aqui, a gente tem a volta do MC Bazuka, que é um personagem seu que apareceu na Remixtape que o DJ Nyack fez. Por que ele ficou tão afastado assim?

Eu tinha em mente fazer esse projeto, mas eu acabei desistindo, não sei se valeria apena fazer um disco, então eu inseri essa voz em algumas faixas do disco, mas foi mais por variação mesmo, como se tivesse eu e mais um MC no disco, pra dar aquela dinâmica.

Eu queria chamar a atenção para o primeiro diálogo no meio de um som. Ele faz um link sempre perfeito entre o que você disse num som e no outro. Queria saber qual o cuidado que você teve ou o Nave, para a criação dessas falas.

Eu criei esses diálogos em cima das músicas, para que desse essa unidade no disco, isso aí foi proposital. Tudo isso aí fui eu que criei, o Nave não mexeu nisso, até nos efeitos que eu coloco, foi tudo eu que fiz.


“Correspondente de Guerra”


A primeira vez que ouvi, pensei: “hit”, principalmente por causa do refrão que a Juçara Marçal canta e o tema, que é bastante atual. Por que você resolveu falar sobre invasão?

Esse som eu fiz baseado num conto do João Antônio, chamado “Paulinho Da Perna Torta”, e eu usei muita coisa do conto e fui acrescentando muita coisa da minha imaginação ali, que acabou casando com muita coisa que tava acontecendo na época, o requerimento de posse do Pinheirinho e etc. Mas eu acabei resolvendo não lançar nessa época, ia sair como single, mas eu achei que ia soar muito clichê, já tinha um monte de gente fazendo som de protesto, e eu decidi não soltar. Acabou que ela ficou no meio de campo e já ia pro disco, mas ela ficou meio esquecida, mas ela foi uma das primeiras que eu fiz, fiz o refrão e tudo. A princípio eu ia chamar a irmã do Itamar Assumpção, a Denise Assumpção, pra cantar o refrão, só que acabou não rolando e eu já tinha a Juçara em mente, aí eu chamei, ela topou na hora, já gravou e virou.

E as guitarras do Kiko Dinucci nesse som, como rolou esse contato?

O Kiko me chamou pra fazer um som algumas vezes. Já fui na casa dele várias vezes e sempre tivemos planos de fazer algumas coisas. Eu queria colocar umas guitarras nesse som e não queria que fosse algo convencional, queria que fosse algo mais sujo, e o Kiko foi a escolha perfeita, porque ele conseguiu captar o que eu queria, gravou de primeira, sem precisar arrumar nada, acertou o arranjo de cara.

Voltando aos diálogos, aqui você dá uma pista, na real, para o que vai acontecer em “Trindade”

Nós somos facetas de um Deus de muitas caras e não há impressões digitais iguais, doutor. Ou sinto que tudo que ouvisse eu absorvesse, sabe? E isso faz eu me sentir possuído, várias impressões digitais, várias sombras, e eu confronto essas sombras. E a inquietação disso me assombra...Me fala mais sobre isso...

Rola isso mesmo, de tudo o que você vê, absorve e fica meio maluco às vezes?

Eu sou muito observador e, eu procuro sempre andar de ônibus e ficar sempre observando muito as coisas, sabe? Você tá no ônibus, aí ele tá parado e você fica reparando nas pessoas e acaba captando sem querer os sentimentos que elas devem estar sentido ali na hora, imaginando. E “Trindade” foi um som que eu fiz um roteiro dela antes, que era uma ideia que eu já tinha antes, de trocar de personagem cada vez que eu encostasse em alguém e por acaso, depois eu comecei a ver o Game of Thrones e tem aqueles caras lá, Valar Morghulis/ Valar Dohaeris. Aí eu usei isso daí no interlúdio, já usei essa referência, que por acaso já casava com a música, foi algo acidental, não proposital, mas que acabou rolando.

Você falou do Game of Thrones, eu sei que você gosta pra caralho de quadrinhos, filmes, séries... de onde vem os personagens que você cria?

Vem das coisas que eu vivo, que eu observo, às vezes eu paro num bar e fico ouvindo as histórias que os caras tão contando, as ideias que eles estão trocando e acabo gravando isso, acaba vindo nas músicas.


“Trindade pt.1”


Você faz algum estudo quando vai construir os personagens ou é tudo baseado na sua experiência de vida?

É o convívio, pra isso aí eu não fiz nenhum estudo. A ideia dessa música era começar uma coisa e como se fosse a vida, ir passando, passando e depois sai livre, que é quando eu acabo a música, quando o corvo bica a testa do cachorro e eu saio voando. Esse é o intuito. De passar por várias fases da vida, como se fosse a vida, aí você sai livre, como se fosse a morte. Aí você voa (risos).


“Trindade pt.2”


Esse é o som que a troca de personagens fica frenética. Você comentou que fez um roteiro do som, mas de onde surgiu a ideia de criar um som assim, com esse tanto de personagem?

Eu tive essa ideia, não foi inspirado em nada, eu fiz o roteiro das três. Fiz um pedaço da primeira e não terminei, aí eu fiz a segunda inteira e a terceira foi a última parte que eu escrevi.

Aqui tem um lance de rima que eu separei que eu acho muito foda. Você faz rimas internas, no mesmo verso e depois se você parar pra ver a estrofe, toda última palavra rima. “Me sinto como Lebron, altão / No meu bolso 5 pinos e um maço de Carlton / Na mão, um anel de maçom tá bom / Na jaqueta tem grudado o Bruce Lee num bottom”. Eu vejo que nesse disco tem muito disso, dessa evolução técnica. Qual o cuidado que você tomou na hora de criar as rimas?

Estudando, cara, treinando levada e acabei colocando tudo isso no disco. Eu sou meio chato, eu demoro até pra fazer as coisas, porque muitas vezes eu escrevo e acho que não tá muito bom e nesse disco eu tive esse cuidado de fazer tudo bem detalhado pra sair bem no meu gosto e elevar esse nível das minhas rimas, de técnica, flow, métrica, cadência e tudo mais.


“Trindade pt. 3”


Você começa o som como o cara que matou o traficante. E eu notei uma coisa. A primeira faixa é a única que ninguém morre. Na segunda parte o traficante morre e na terceira o cachorro morre.

É como eu tava falando da música, é como se fosse as fases da vida, e esse desfecho do traficante morrer foi só pra fazer a passagem, não foi uma coisa proposital não.


“Interlúdico”


Depois das três "Trindades", quando você chega na "Interlúdico", você tá na consulta com o terapeuta e parece que você vira e fala "esse sou", que você se descobre, você assume essa condição de que absorve os personagens e etc, que isso é meio que liberdade. Esse é o momento que você para e se entende dentro do disco?

Não sei, eu não tive muito essa ideia, foi como eu te disse eu fui criando os interlúdios em cima das faixas e quando eu falo esse lance de liberdade é quando eu acabo voando, tem mais relação com isso na verdade. É que depois que a música sai começa a rolar uma pá de entendimento e que se encaixam, mas que às vezes não fui o que eu quis passar.

Aqui você faz um jogo de vozes, quando fala que é uma criança na rede e um velho de noite, é bastante interessante.

Isso aí foi um efeito que eu coloquei, pra deixar mesmo cada parte mudada, pra ficar mais caricato até.


“7 Cordas”


O que o samba te influencia? Por que ir mais pra essa levada?

Eu tenho vários sambas escritos, é que eu nunca lancei nada, mas tem gente que conhece. Eu sempre quis fazer algo pro lado do samba e decidi colocar essa no disco, tanto é que é um som mais relax, porque eu achei que o disco tava muito tenso. Eu venho citando várias coisas mais leves na música e o refrão vem com essa coisa de boemia, essa foi a ideia, de fazer uma música mais relaxada, mais tranquila, mais calma, pra tirar um pouco a tensão que o disco vinha trazendo.

Em 2012 eu vi em algum lugar que você ia lançar um disco de samba...

É, então, eu comecei com esse projeto mas acabou não andando por falta de ter alguém pra arranjar, isso é um projeto que quem sabe um dia eu faço, é uma ideia que eu tenho mas que não consegui colocar em prática, ter alguém pra arranjar e colocar tudo isso.

Esse som era dessa época?

Não, não, esse som foi pra esse disco. Eu tinha essa melodia, aí veio o Doni Jr. e criou o arranjo em cima da melodia que eu tinha do refrão.

No final do som, quando você fala “quero tá light/ não no fighting em telemakerting/...” tem um lance meio Athalyba e a Firma aqui né?

Tem, tem! Esse lance de rima esdruxula, foi uma certa homenagem que eu prestei ali pra eles porque “Política” é uma música que eu escutei muito, marcou uma época pra mim, aí eu quis colocar esse estilo de rima ali nessa parte, de variação de flow.


“Virou Canção”


Essa faixa aqui pra muita gente é o grande hit do disco, porque essa faixa aqui tem uma identificação com todo mundo. Até o cara que é boy pra caralho, quando ouvir o refrão, vai pensar “putz, que saudade daquela época”. Esse som é bastante pessoal né?

Esse som é o mais pessoal do disco. Ó, do meu time de futebol morreram o Léo, o Gordinho, os dois foram assassinados, e o Gê, que morreu em um acidente de carro, mas era comum... perdi vários amigos assassinados. Essa música é meio que uma homenagem a minha área ali em que eu vivi no Jd. Celeste e aos meus camaradas da antiga. Quando meus amigos daquela época que ainda estão vivos escutaram eles até choraram, porque tem muito a ver com aquela minha época. É a música mais pessoal do disco, a que tem menos ficção.

Você nasceu lá no Campanario, em Diadema, né?

Não, não, eu nasci aqui no Sacomã, mas o Jd. Celeste é um bairro que faz divisa com o Campanario, é o último bairro do Ipiranga ali, pro lado da Saúde, você cruzou aqui já tá no Campanario, em Diadema, mas ainda é zona sul de São Paulo.

Nesse som você usa de novo aquele esquema de rimar em inglês. “Vi mano meu torrando a face/ com dezesseis/ no freebase / terra sem leis / ouvindo racionais eu permitia que a minha mente se tornasse menos crazy”. Aumentar vocabulário, né?

É, é, sim. “Vi mano meu torrando a FAce, com dezeSSEIS É, só no freeBASE, terra sem LEIS É”, foi um jogo de rima que eu fiz ali com essas palavras e coloco crazy pra finalizar ali.

Talvez seja brisa minha, mas eu acho que, com todas as diferenças, “Virou Canção” é a sua “Fórmula Mágica da Paz”.

Já disseram que ela parece muito. É influência né?

Até porque naquela época você tava vivendo o “Formula Mágica da Paz” né?

Total e “Fórmula Mágica da Paz” era um som que eu ouvia muito, escutava muito com um mano meu que morreu, o Goiabinha, a gente ia pixar e ouvia muito esse som. E também tem muito a ver com a influência do rap de Los Angeles que eu escutava bastante, até a rima foi feita em cima de um beat que já existia, eu fiz as rimas em cima e o Nave montou a base em cima desse refrão que eu tinha feito.

Eu falei do “Fórmula Mágica da Paz”, mas eu entendo que são sons diferentes, o som do Racionais é mais pra fora e o seu é mais interno, mas eu acho que essa pegada nostalgia “saudade da época que a munição da molecada era mamoma”, “eu só queria infringir leis, destruir reis, ficar chinês”, me lembrou um lance meio “eu era só um moleque, só pensava em dançar, cabelo black, de tenis all star”

É uma influência. Eu sou muito influenciado pelo Racionais, né, mano. Quando eu parei pra prestar atenção no rap foi por causa do Racionais. Quando eu era moleque nunca escutava outro tipo de música, ouvia rap mas, tipo, eu não sabia nem que aquilo era rap, mas quando eu ouvi Racionais, o primeiro disco, Holocausto Urbano, me marcou e me fez querer fazer parte desse movimento.

E tem o lance também de que na época da “Virou Canção” é mais ou menos quando saiu o Sobrevivendo no Inferno.

É, quando tinha “Capítulo 4, Versículo 3”, mas esses dois discos marcaram pra mim. O Raio X do Brasil também, que tem “Homem na Estrada”. O primeiro do Racionais marcou muito, o Raio X do Brasil, o Sobrevivendo no Inferno, que tem o Guina, esses três discos marcaram muito a minha vida, tem uma influência direta.


“Chico Chicatriz”


Cara, Chico Cicatriz pra mim é um som de mula, skills... Apesar da gente já ter se falado há um tempo, eu tô te vendo hoje pela primeira vez, mas eu tô bem ligado das suas histórias, de tomar uma no churrasco e ir na roda de samba zoando todo mundo*.

*O Dario Beats tava lá com a gente e confirmou a história. Com o Ogi é, como diz o Tiago Rednigazz, “art of mullying”.

Chico Cicatriz é um som que eu fiz sobre gente sacana, que sacaneia os outros. “Eu fiz a preza pra você no prédio”, é tipo, você fez uma fita pro cara e ele quer receber todos os créditos.

E é relacionado à pixação né?

Nem é relacionado só à pixação, é como se fosse uma analogia, é como “eu coloquei você no esquema e depois você falou que o esquema era seu”. Isso já aconteceu comigo várias vezes na vida comigo, aí eu criei essa história pra que coubesse nesse contexto.

Tem uma rima que quando eu ouvi na audição do disco que você fez no MCI, eu queria gritar que nem moleque em Batalha: “Vai lá gozar com o meu pau, quando espirrar na cara da sua gata vai achar legal”.

(risos) É uma “punchline”.

E é louco que você vai num lance sanguinário no som “E com uma motosserra as duas pernas eu amputo / Rastejas feito lesmas de um jeito espontâneo / E se algum riquinho filantropo lhe der pernas de titânio/ Arrancarei, com elas feito estacas”

(risos) Aí eu já vou além na ideia, já viso mais ainda, é aí que entra a minha ideia que eu tenho de fazer crônicas, é onde entra a fantasia e tudo mais.

Tem um lance de rima que eu acho foda nesse trecho “"Chico CICATRIZ CHAMARIZ de ENRASCADA / teve sua cara RETALHADA, foi NAVALHADA", porque você rima internamente “CICATRIZ | CHAMARIZ”, enrascada tá em cima, você rima retalhada com o que tá ali em cima e depois navalhada. Isso aí é só estudo mesmo?

Isso pra mim já acaba soando natural, eu já peguei o macete de fazer isso, cara, pra mim não é tão difícil mais, mas é uma coisa muito de estudo de rima, de métrica, eu sempre me dediquei muito a isso. Eu sempre fui muito desmerecido no rap, rolava muito isso de ser desmerecido no começo, então eu tive que provar que eu era bom, que eu era realmente bom pra ninguém ter um “a” pra falar, então eu sempre tento deixar o nível da rima bem alto.

Tem um lance que o Amauri Gonzo citou em um texto dele sobre rima, que você faz rimas multissilábicas deslocando o acento tônico das palavras, e aí você rima duas vezes cada palavra. ““VÂN-da-LÔ/ Es-CÂN-da-LÔ/ MÂN-ga-LÔ”.

Isso é estudo né, mano. Eu fui pensando “o que vou encaixar aqui?”, é tudo questão de técnica de rima, de estudo, não tem muito o que dizer.

Você é meio nóinha de dicionário? Não pra aprender palavra ou caçar o que rimar, mas de ficar vendo mesmo, tem gente que curte fazer isso.

Não, não. É que eu leio e acabo guardando as palavras, e tem vezes que eu não sei uma palavra aí eu procuro saber, aí eu procuro o significado, mas eu não sou tão nóia dessas coisas.


“Escalada”


Eu gosto muito desse som. Eu vejo que é sobre um cara comum, fodidão, só que a ambição transforma ele em uma pessoa ruim. Você já conheceu várias pessoas que se perderam por isso?

Nossa, várias.

Aqui também tem uma fita. De onde você tira tanto nome e ideia de carro antigo pra ambientar os personagens? Passat Pointer, Belina...

É coisa que vem rima... José Carlos Magricelo, tinha um termo amarelo, tipo, é o cara que só tinha um terno, ele dirigia uma belina cor de caramelo carabina, e eu acho que essa cor nem existe (risos). É só técnica e estudo mesmo, e imaginação fértil.

Eu vejo muito disso em você, de imaginação fértil, você consegue ambientar muito bem os seus personagens, você mais que narra a história, você detalha, ambienta...

Isso aí é a facilidade que eu tenho desde moleque de contar história, é aí que entra isso. Eu consigo descrever as coisas com mais facilidade, talvez eu tenha desenvolvido essa técnica ao longo dos anos no rap.

E muita leitura?

Com certeza... esse ano eu li menos, ano passado eu li mais, esse ano aqui eu vi mais série, filme. Esse ano eu vi Game of Thrones, vi o Mr. Robot. Cê já viu essa série?

Já, foda. Meio Clube da Luta...

Clube da Luta, V de Vingança, mistura tudo, mano. Essa série é foda, velho. O cara é um super-herói que é um hacker. Isso que eu achei foda. Vi True Detective também.

E cê gostou da segunda temporada? Eu achei foda esse lance sujeira, apesar dumas brisas.

Eu gostei mais da primeira, mano. Mas o que eu peguei pra ver mesmo foi Game of Thrones e Mr Robot, peguei pra assistir, foi que foi. E leitura eu li mais Carlos Castaneda, essa parada mais xamânica. Eu tô tentando evoluir espiritualmente.

Você tem alguma religião, crença?

Não. Eu acredito que o que você faz volta pra você. Bom ou ruim. Mas eu não tenho religião não. A minha mulher é budista, às vezes eu fico com ela ali fazendo um mantra lá.

E é bom pra você?

Pra mim eu acho que faz bem.

Acho que faz bem é foda (risos).

(risos) faz bem.


“Ponto Final”


A gente tava conversando sobre livro agora, pra mim esse som é bem João Antônio.

Também, tem muita influência de João Antônio, de samba. É um samba mais grooveado, tem a ver com João Antônio, esse lance da navalha, é que é tudo misturado, não tem como nesse som citar uma referência precisa igual em alguns outros.

É tipo pegar o João Antônio e misturar com o Mr Robot, Game of Thrones, True Detective...

Com várias coisas, não tem uma definição. Eu fiz o refrão primeiro e era uma coisa que eu queria falar, uma oração também, no refrão, e eu tive que desenrolar o tema em cima disso, essa foi a ideia.

Eu falei o lance do João Antônio por causa dos nomes, a jogatina, a vingança. Eu imagino aqueles botecos bem de vila que os caras tão jogando, aí dá uma treta do nada e todo mundo se fode por causa de jogo.

(Risos) sim. Ele apostou a mulher dele.

Sim, e o seu personagem abre mão do prêmi,o mas o seu truta o Valdemar não, e ele é o primeiro a morrer.

É, então, e aí o cara vem me buscar, mas aí entra a relação com o refrão, que eu tô blindado e tal e como eu não devia nada, não ia acontecer nada.

E dá mó bosta no fim.

(risos) mó viagem né, mano? (risos).

Você tira uns dias pra escrever ou é mais quando a coisa vem?

Tiro, tiro sim. Escrever é uma coisa que eu gosto de fazer sozinho. O Nave aqui pegou vários processos de eu escrevendo.

A gente tava falando do João Antônio, de onde veio a ideia de chamar o Thiago França? Porque você participou do disco dele Malagueta, Perus e Bacanaço, em homenagem ao João Antônio.

Foi daí mesmo, já fiz o convite, já falei “no meu disco você topa fazer?”, aí ele “lógico”. Mandei as músicas e ele fez os arranjos, gravou aqui, gravou outros em um outro estúdio... foi rápido, sem erro. O Thiago França é muito prático e rápido de fazer arranjo.

Eu acho genial a linha do sax do Thiago nesse som porque ele vai meio calmo mas quando chega no desfecho da história, fica uma parada mais frita, experimental, mais torto, pro lado do free jazz. Você ou o Nave deram uma direção?

Ele gosta de fazer os arranjos com a voz, sem a voz ele não cria, então ele fez em cima da minha voz, é tudo em cima da melodia que eu criei. Ele falou “não adianta você me mandar a base sem a voz que eu não vou fazer”, ele gosta de fazer em cima da voz. Não teve influência nenhuma minha e do Nave, foi tudo dele.


“Outro”


Esse aqui é quase o final do disco, que é quando você sai do psicólogo e diz “eu não sei o que fazer com isso, além do que o que eu faço com isso”. É isso mesmo não tem outro jeito de aliviar tudo da sua cabeça sem ser fazendo rap?

Não tem, só assim mesmo, o rap é a válvula de escape, não tem muito o que fazer essa é a ideia mesmo (risos).

E tipo, sendo essa válvula de escape, por que demorou tanto pra sair o disco? São 4 anos...

São 2 anos que eu comecei a fazer, eu comecei em 2013. Antes disso, eu fiquei só testando ideia que não foi pra frente. Eu ia fazer um disco com o pessoal do Stereodubs que acabou não rolando, eu comecei a pegar vários beats de vários caras, mas eu não fiquei satisfeito, ia ser mais um catado e não ia ser legal, aí eu acabei decidindo fazer com o Nave que foi a melhor coisa.

O Nave ficou aqui uma cota né? Trabalhando com você. Por que escolher o Nave? O que é que se não fosse o Nave não teria saído no disco?

Se não tivesse com o Nave trabalhando talvez eu estivesse fazendo esse disco até agora, porque o Nave soube captar o que eu queria fazer, as bases do jeito que eu queria e talvez se eu tivesse que ficar pegando beat de vários caras ia demorar mais pra chegar ao resultado talvez eu tivesse fazendo o disco ainda e não tivesse nem acabado. Ele foi peça chave pra acontecer tudo certinho.

Quanto tempo de trampo sem parar você e o Nave? Quando ele vinha pra São Paulo, ele ficava um bom tempo aqui né?

Ficava um mês aqui, era um mês acertando as arestas, acertando os beats, acabando rima. Às vezes as ideias somem e você precisa dar um descanso pra dar um refresh na mente e depois voltar, e foi isso, o processo de 2 anos.


“Faro de Gol”


Essa faixa é uma música bônus pra versão online, certo?

Essa música na verdade... um cara entrou em contato com o Nave e queria uma faixa pro FIFA, só que aí acabou não entrando, e eu fiz uma ideia em cima disso, criei o refrão, aí eu falei “esse refrão do jeito que eu tô cantando tá muito João Gilberto”, chamei o Rael aí ele deu um gás no refrão, só que aí o Brasil perdeu de 7x1 e a faixa acabou sendo cortada.

Caralho, o 7x1 tirou a faixa?

Tiraram todos os brasileiros que iam participar, ficou só o Emicida o resto foi tudo cortado, até uns times brasileiros, parece que não ia rolar.

Eu vi que era uma treta com a CBF esse lança desse time, não sei.

Eu sei que teve essa coisa do 7x1 que zuou. E aí, mano, eu falei “não vou deixar essa faixa de fora, ficou uma faixa bacana”, aí decidi colocar ela de bônus.

Só na versão online?

Na online e no CD, mas no vinil não vai ter.

Vai ter vinil então?

Vai, vai, vinil a gente vai mandar fazer a master pra vinil logo mais e vai fazer.

Aí só ano que vem, final do ano que vem...

Não, não, ano que vem.  Final do ano que vem não, né (risos). É muito tempo.

Você cita o Romário e eu jogo futebol todo domingo. Eu sou aquele cara pique Serginho Chulapa, faz o pivô, vira e bate e quando eu faço gol pra cacete nego não me chama de Romário. É Shevchenko, Aloísio Chulapa, Amoroso, Luisão... mas Romário não, porque pra chegar ali é foda. Quando você fala isso é um lance “eu sou bom e chegou minha vez”?

É aquele lance de MC. A vez nunca vai chegar, né, mano, não é uma coisa que funciona assim. Eu aprendi uma coisa com os caras. Tem gente que lança a coisa e “ah, vai virar” e não vira. O negócio é estar sempre trabalhando, não pode deixar o negócio cair, a roda parar. Mas não adianta você lançar um bagulho e tipo “vai mudar tudo”, não é assim. A coisa não acontece assim. O RÁ! acabou de sair, não tem muita coisa acontecendo, foi assim no Crônicas também, foi um disco que foi ser entendido bem depois, eu fazia shows mas depois o pessoal começou a assimilar.

Eu acho que o RÁ! pede que você ouça com calma.

Você tem que ouvir algumas vezes.

Você falou de trabalhar, de não deixar a roda cair e tal... A gente vai ter que esperar mais uns 4 anos pro próximo disco?

Espero que não, cara. Espero que eu consiga lançar um disco no final do ano que vem. Eu espero.

Mas rap ou outro lance?

Não sei, às vezes é fogo, é muita coisa na cabeça, você tem que tomar cuidado pra não perder as ideias, não sei. Quatro anos é muito tempo, me complicou muito ter esperado tanto tempo pra lançar um disco. Mas não sei se eu vou conseguir lançar um disco mais rápido ou se vai demorar quatro anos, às vezes eu acho que esse disco não tem nada de apelo comercial, não sei onde que vai dar. Eu não tenho expectativa, mano. Eu não sei se consigo fazer um disco tão rápido. Às vezes eu penso em parar também.

Parar de fazer rap?

É, e arrumar um trampo. É que o bagulho é muito inconstante, porque uma época você tem muita grana e na outra fica contando moeda, tá ligado e viver assim é meio complicado. Graças a deus eu tô pagando minhas contas desde 2011, mas é meio que foda, mano, tem época que você tem 20 pau e no outro mês você tem 3, nunca você tem um equilíbrio, nunca dá pra juntar grana, é mó brisa. Eu penso várias vezes, em arrumar um trampo, voltar a de repente fazer uma faculdade.

Você não se formou? Chegou a começar a fazer algo?

Comecei. Eu fiz três anos de Publicidade, depois fiz dois anos de Rádio & TV. Não sei quando vai sair outro disco, se vai sair (risos). É complicado, mano.

Se eu puder falar algo é “não pare”, você vai fazer muita falta pro rap.

Sei lá, mano (risos).

Vai por mim que vai.

(risos).

Agradecimento especial ao eterno truta, Amauri Gonzo.

Foto por Anna Mascarenhas.

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