Isto não é uma resenha do show do Mac Demarco

por - 10:40

ceci ne pas mac demarco

Não, não tá tudo bem. Eu tô sem trampo, sem dinheiro, sem namorada, sem celular, e pra piorar, sem uma banda favorita. Minha melhor companhia é um livro de páginas pra caralho que eu tenho que me esforçar pra ler, pra provar pra mim mesmo que consigo suportar o peso de existir. Pelo menos a história é boa.

Ontem Neco e eu fomos à casa do Mac fazer um esquenta pro show do Mac Demarco. Compramos quinze heinekens. Lá se foram vintão. Pelo menos eu tinha um beck pronto. Mavy chegou trazendo nada. Ainda quis apelar pro charme. Disse que sua presença ao nosso lado contribuía muito para nossa imagem. Tive que concordar. Rafa chegou, beijou Neco e fez a preza de trazer algumas latas chiques de Amstel – isso sim é contribuir muito. Tomamos todas, demos um peguinha e tocamos pro Audio Club, na Barra Funda. No caminho tivemos que dividir os táxis, então Mac foi com o casal. Sobrou eu e Mavy numa aproximação meio flerte-fracasso que funcionou apenas para honrar este nome:

- porra, você só sabe falar dessas brisas existenciais? – ela me disse.

É, só sei falar disso mesmo. Sei lá, tua vida não te aflige um tanto não? Ou você prefere viver nessa superficialidade fútil de gatinha de condomínio, com suas “festas de quinze na daslu”, babando ovo pra pleiboy que cheira pó? É o que eu queria ter respondido. Mas naquele momento, me flagrei mais uma vez dando razão pra ela. Se Mavy soubesse minhas músicas preferidas do Dance of Days, talvez não me tratasse assim. Ou talvez nem estaria comigo naquele táxi.

Entramos no rolê e no caminho passamos por aqueles carinhas que vendem ficha fora do caixa. Fiz a analogia com os bichinhos que soltam itens no Golden Axe. Ninguém entendeu a piada. No entanto, mais vintão. Na carteira só sobrou a passagem. Chegando no bar, latinha de Skol a 10 reais. Fico chateado.

- Ei gatão, como cê tá? – Novato, baixista do Raça, me cumprimenta. Ele está com Thiago, o baterista.

- ô, meu bom! Tô tranquilo, e você? – respondo, apresentando a galera – Novato, galera. Galera, Novato.

Gosto da ideia de ser cumprimentado por membros de bandas que eu admiro. Ele me oferece whisky. Considero esta uma ideia melhor, já que uma dose de whisky desce melhor que qualquer ambevzinha.

- quanto tá a dose? – pergunto.

- tá vinte e cinco. Ali naquela barraquinha.

- puta, mas só tenho vinte.

- ah, dá uma xavecada na mina, você é bom nisso – responde novato, com uns tapinhas nas minhas costas. Ele pode ter feito com a melhor das intenções, mas sempre fico cabreiro quando alguém enche minha bola. Vou convencido a xavecar a moça do whisky, mas tentar elaborar uma boa tática de persuasão comigo mesmo, naquela brisa, foi a pior que pude fazer enquanto caminhava pela área de fumantes. Falhei miseravelmente.

- oi, eu quero um whisky mas não tenho os cinco reais que faltam. Você pode me fazer por vinte?

Não, obviamente. Voltei para o caixa sem que percebessem, comprei mais uma ficha de cinco reais e, agora sim, acabei com o dinheiro da noite. Talvez seja a hora de considerar maneirar nos entorpecentes.

- Tó, os cinco reais que faltam. Agora capricha nesse chorinho.

Na volta para o grupo, Mac questiona meu copo de whisky:

- O mais pobreta de nois, tomando um drink mais caro que o nosso – e riu.

- posso garantir que um whisky vale mais que duas Skol. – justifiquei. Rafa concordou comigo, Neco também. Contra fatos não há argumentos.



[caption id="attachment_27598" align="aligncenter" width="695"]Mac de Marco Foto do instagram do Anderson Neco - @andersoneco[/caption]
Quando Mac Demarco pisou no palco e o público literalmente vibrou ao avistar aquele branquelo de boné e macacão tocando uma guitarrinha de brinquedo, eu percebi que talvez estivesse no lugar errado. Eu estava ansioso, sim, para o evento, mas aquelas pessoas estavam muito mais que eu. Eles tinham a empolgação de fãs adolescentes que perdem o enem para acampar na porta do show da Ariana Grande. Nada me justificou o excesso de animação das pessoas. Era um show pacato, como são as músicas dele – e nada contra! Mas eu esperava ter um espaço razoável para curtir o som de forma tranquila, e não ter que dividi-lo com um monte de gente pulando e dançando desesperadamente pra arranjos de harpa. Só aplaudi quando ele se jogou na plateia, foi carregado até o mezanino e deu um mosh de lá de cima. Radical. Mas foi o fim do show.

Foi quando ele saiu do palco e as pessoas começaram a deixar a pista, talvez ansiosas para fumar e tuitar, que um cara chegou no palco e falou “se vocês querem mais, é só pedir que ele vem”, e alguns tímidos “mac, mac, mac” começaram a se dissipar pelo salão. Ele voltou e tocou Enter Sandman, do Metallica. O povo foi ao delírio. Quem já tinha gozado, gozou de novo. Eu me lembrei que tinha apetite sexual. Avistei Fernanda, a bela moça com quem me encontrei dias antes, no Explosions in The Sky, beijando outro cara. Quis beber mais. Me senti no colegial. E o baixista da banda em cima das caixas de som, lá do alto, desacelerando o tempo cada vez mais.

Saímos comentando:

- o Luquinhas não gostou do show – Neco me acusou.

- não é que não gostei, só achei superestimado.

- eu também não entendi a reação da galera – ponderou Rafa. Às vezes eu acho que ela parece a Eileen do Apenas um Show.

Encontramos Mavy saindo com outras pessoas e ela foi embora praguejando porque Neco e eu a fizemos lembrar da partida de truco que ela e Mac perderam pra nós. Pelo menos uma vitória sobre o exército de garotas lindas que esnobam caras como nós. Queríamos provar pra Rafa que a Mavy não é boa pessoa, que só aceita ganhar e não mede esforços para isso, mas estávamos muito bêbados e talvez não tenhamos conseguido. Enquanto isso, Mac travava uma batalha para formar uma frase inteira sobre cozinhar a própria comida.

Não tinha mais nada aberto, mas não estava na hora de abrir o metrô. Decidimos ir ao supermercado comprar algum rango, e mais cerveja, por que não? Sinalizei pro neco que precisaria fazer uso da caderneta de pendura, e ele me emprestou uma grana pra passageanm. Entre as gôndolas, rimos e fizemos piadas como se tivéssemos 16 anos, e voltamos pra calçada com pão “semi-italiano”, maionese, uma bandeja de salame, um vidro de picles e duas garrafas de original. Roubei uma colher de pau que me serviu de ukulele. Ficamos ali, comendo, bebendo e falando besteira até mac pegar um táxi e fugir.

Finalmente voltando para casa, Neco despediu-se de Rafa com um beijo longo que eu quis interromper por não estar mais à vontade para permanecer ali.

- cê tá bravo, luquinhas? Deixa a gente se amar, cara! – disse ele, fringindo os dentes como o vídeo daquele reaça que xinga os comunistas enquanto dirige muito puto. Até tentei me justificar mas não consegui. Só queria ir pra casa ouvir Creep e chorarsrsrs.

Acordei no trem, sozinho, duas estações depois de onde eu deveria descer. Eu não tinha mais nenhum dinheiro. Acho que me roubaram enquanto eu dormia, ou os trocados caíram do meu bolso. Só restava uma alternativa: ir andando. Passei debaixo de um viaduto e flagrei uma moradora de rua mijando. Ela se assustou comigo. Já estava claro quando eu atravessei a Rua Figueiras, passei na frente do SESC, da favela do Tamarutaca, cruzei a divisa de Santo André com São Bernardo e adentrei a província do Rudge Ramos. No caminho, fui pensando no quanto a vida pode virar um desfiladeiro quando fazemos meia dúzia de escolhas erradas. Então não, não tá tudo bem.

Texto por Lucas Panoni

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2 comentários

  1. Curti muito essa narrativa não-resenha haha

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  2. HAHAHAHAHA! Muito legal

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