O No Ar Coquetel Molotov foi uma maratona para quem é fã de música

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[caption id="attachment_27509" align="aligncenter" width="695"]Coquetel Molotov 2015 Foto por Flora Pimentel[/caption]
No último sábado (31) aconteceu a 12ª edição do festival No Ar Coquetel Molotov, o segundo no novo formato que acontece agora na Coudelaria Souza Leão, no bairro da Várzea no Recife. A experiência começa antes mesmo de chegar ao festival. Explico, você chega na Coudelaria e ainda precisa pegar uma van que leva em torno de cinco minutos de subidas íngremes em meio a uma floresta para chegar até o local onde ocorre realmente o evento. E isto já é parte da vivência, as pessoas já sobem se perguntando para onde estão sendo levadas. Caso você der o azar de não ter van embaixo, ainda rola um tempo de espera num espaço bem bacana com banquinhos legais.

Cheguei realmente ao Coquetel Molotov pouco antes das 16 horas e ao descer da van já ouvi barulho de show. Acontecia no palco Aeso a apresentação da banda Joana, Flor de Maria. De longe, parecia o tal do rock alternativo. Como ainda estava me ambientando, resolvi dar uma volta e já sacar a feirinha e descolar um dos copos personalizados. A estrutura da feirinha melhorou muito do ano passado para este. Além disso, não rolou chuva nos dias pré e durante o evento e isso ajudou. Porém, continuo achando bem distante ir até lá durante o evento e acabei só passando por lá na hora em que cheguei. Vários stands de moda e roupa, poucos de música. Só voltei a olhar para a feirinha quando fui ao palco Aeso, que ficava ao lado, ver alguma das atrações. Se tem algo que saiu perdendo com a mudança de local do festival, foi a feirinha multicultural. Se no teatro da UFPE você saia da sala e já dava de cara com algum stand, agora você precisa realmente querer muito ir lá para ver alguma coisa.



[caption id="attachment_27508" align="aligncenter" width="695"]Mahmed Foto por Hannah Carvalho[/caption]
O primeiro show que realmente assisti do Coquetel Molotov foi o da banda instrumental potiguar Mahmed no palco Sonic. Era pouco mais de 16 horas quando o show teve início e o sol se pondo atrás da banda deu um visual ainda mais instigante e viajado para o som do quarteto. Para quem não conhece, o som da Mahmed lembra o da Hurtmold pós-hardcore, mais ou menos no disco Cozido, com alguns momentos fugazianos durante a apresentação. Alusões a banda do Ian Mackaye são frequentes em shows, camisas e nas guitarras do deles. Se não entendeu, saca esse vídeo da música “Domínio das Águas e dos Céus” que dá nome ao primeiro EP do grupo. A maior parte do show, o grupo tocou canções do disco Sobre a Vida em Comunidade, lançado neste ano pela banda. Ainda tocaram algumas faixas novas que são bem legais. Muita gente curtiu o som e o pôr-do-sol sentado em toalhas na grama ou direto na grama mesmo. Parecia um lual sem lua ou um piquenique sem comida. O público fez barulho e os integrantes da Mahmed pareciam satisfeitos com a apresentação.

Quando terminou o show da Mahmed, aproveitei o intervalo para trocar uma ideia com os amigos do site O Inimigo, além de falar com os integrantes da banda. Como o show da Câmera no palco Aeso ainda não tinha começado, fui até o palco principal, o Velvet, onde já tinha começado o show da The Raulis. O grupo apresenta um surf music poderoso e contou com um naipe de metais na apresentação que só acrescentou encorpando ainda mais as duas músicas que vi. Todo mundo naquela vibe praiana com roupas floridas, óculos escuros.



[caption id="attachment_27506" align="aligncenter" width="695"]No ar coquetel molotov 2015 Foto por Hannah Carvalho[/caption]
Como a vida é feita de escolhas, partir para o palco Aeso onde os mineiros da banda Câmera se preparavam para iniciar sua apresentação. Já era escuro quando o show começou, já que no Recife escurece rapidão, como diz o Paulo Marcondes. O som pode soar despretensioso a princípio, mas a banda sabe muito bem o que faz no palco. Uma mistura de indie rock e shoegaze o grupo mineiro fez um show redondinho que atraiu a atenção dos que passavam. Mesmo com um pequeno problema na guitarra do vocalista, mas aí entra a vantagem de ter três guitarras na parada. Em uma apresentação curta, eles tocaram faixa dos três EPs e também do álbum Montain Tops. Fizemos um vídeo para quem não está acreditando como pode ser bom um show de indie rock nos dias de hoje. Veja/ouça a bela canção “Lost Cause, I Surender”. Terminado o show, perguntei ao Faleiro se o cruzeiro ainda tinha chance de cair e me mandei para o palco Sonic onde pude ver a parte final do show do carismático Rico Dalasam.

Por lá, o público já era bem maior. A banda da vez era a pernambucana Cosmo Grão, que nesse ano lançou um EP bem bom e barulhento. Com o quarteto não tem calmaria, riffs altos de guitarra do início ao fim do show. Cabeças batendo, punhos erguidos e chifrinhos foram vistos em cima e em baixo do palco. O público era só diversão com a mistura de rock instrumental, psicodelia e metal. O show foi longo, a esta altura o público já circulava de um palco para o outro tentando escolher/ ver pelo menos um pedaço de cada atração do festival. Porém, boa parte do pessoal no Sonic ficou por lá até o final do show da Cosmo Grão, que dava pra ser ouvida claramente até por quem comia alguma coisa.



[caption id="attachment_27507" align="aligncenter" width="695"]Carne Doce Coquetel Molotov Foto por Hannah Carvalho[/caption]
Levei Paulo para sacar o Sem Peneira Pra Suco Sujo, que mandou bem pacas até onde pude ver e voltei para ver o show dos goianos da Carne Doce no Sonic. A Carne Doce é de Goiás e diferente do clima roqueiro/sertanejo da capital, a banda se apegou a sonoridades mais próximas da MPB com um pezinho na psicodelia dos anos 70. Eles lançaram um disco bem normalzinho, mas a informação que eu tinha era de que ao vivo a banda era incrível. O show foi melhor do que eu imaginava, mesmo tendo a informação acima previamente. A vocalista cresce e aparece ao vivo, usando efeitos na voz em momentos precisos e sendo carismática durante toda a apresentação. Justiça seja feita, a banda toda foi carismática e mandou muito bem. O grupo tocou músicas do primeiro disco, além de uma versão inusitada de Boogarins e algumas novas composições. Uma delas, estão chamande de “Cetapensano” e você pode ouvir/ver aqui.



[caption id="attachment_27504" align="aligncenter" width="695"]Ney Matogrosso Foto por Flora Pimentel[/caption]
A essa altura o Paulo já estava comigo e resolvemos que a melhor opção era adentrar para o palco Velvet e conferir a apresentação da Ava Rocha. Estava cansado, vi o show de longe, quem viu de perto foi o Paulo. Mas posso dizer que a banda que a Ava usa ao vivo faz toda a diferença no seu show e abrilhanta ainda mais as composições do disco. Parte do show apenas ouvi, enquanto descansava na sala de imprensa alvoroçada com a presença do Ney Matogrosso. Por sinal, diferente do ano anterior, em que a sala de imprensa era uma festa, com DJ, bebida liberada e um sofá bacana para descansar. Este ano a estrutura foi bem reduzida. Não que eu ligue para a bebida, mas aquele sofá faz toda a diferença para quem chega cedo para cobrir o evento e vai passar cerca de 12 horas por lá.

Mais uma vez, a vida é feita de escolhas e resolvemos voltar ao palco Sonic para reviver anos que se passaram em um show da Ludovic. Jairzão estava meio rouco antes do show, mas segurou a onda legal no palco. O show foi emocionante como deveria ser, brutal e ele acabou com o joelho machucado. A banda passou anos paradas, mas nem parecia. Enquanto o Paulo chorava revivendo sua adolescência, aproveitei para gravar boa parte do show que você pode assistir em nosso canal do youtube. Voltei a tempo de ver parte da apresentação do Ney Matogrosso com a banda Tono. Um público enorme formado em sua maioria por jovens que nunca tinham visto Ney ao vivo, se espremiam no palco Velvet para ver um dos ícones da música brasileira. O que eu consegui ver de longe, eu gostei.

Passava das onze da noite e resolvemos dar uma pausa para comer alguma coisa. Truck food e gourmet foram lidos a distância em meio as opções da pracinha de alimentação do evento. Ou seja, barato não seria e realmente não foi. A opção mais em conta era um pastel por 10 reais, que me fez repensar na definição de gourmet. Sentando enquanto comia, vi o início da apresentação do CharqueAttack, projeto do Aslan Cabral, que durante boa parte do tempo vi rodando no evento fazendo uma performance. Um tigre gigante dançava no palco e se eu tivesse tomado um doce, teria ficado por lá mesmo. Ainda bem que não fiquei.



[caption id="attachment_27505" align="aligncenter" width="695"]Cidadão Instigado Foto por Flora Pimentel[/caption]
De volta ao Velvet, teve início o melhor show da noite. Deve ser muito difícil ser um integrante da Cidadão Instigado. O show foi basicamente composto pelo último disco lançado pelo grupo, Fortaleza, uma homenagem a cidade natal da banda. Fortaleza é um disco complexo, difícil até para escutar. Eu gosto dele, mas não é o meu favorito da banda. Porém, o show foi impressionante. Até a iluminação estava em seu devido lugar. Catatau cantava forte, um tanto carrancudo, expressando a raiva que algumas canções do disco passam bem. É sempre interessante assistir apresentações do Cidadão Instigado. Todo show acabou prestando atenção em alguma coisa. Desta vez, era surreal a calma de todos os integrantes durante o espetáculo. Regis tranquilão, Dustan idem. Inverteram instrumentos, mas continuam achando bem fácil o que fazem no palco. Ao fim, o grupo presenteou o público com “Homem Velho”, música do disco anterior UHUUU e “Lá Fora Tem”, que terminou mais uma vez de maneira apoteótica o show do grupo. A apoteose foi ainda maior quando Catatau ergueu um cartaz com os dizeres: “Deixe ela em paz”, projeto gráfico e político, que defende os direitos das mulheres contra uma bancada política cada vez mais conservadora e machista.

Patrick Tor4 animava alguns guerreiros quando resolvi tomar um ar do lado de fora, esperando ter início a apresentação do Emicida. Percebi que o festival ser em um dia só é correto, já que o local é distante. Porém também percebi que o número enorme de atrações ao mesmo tempo ou tiram o foco do público, ou simplesmente eram desinteressante para boa parte dele. A Rural do Rogê tocou das 14 horas da tarde até o final do evento e em todos os momentos, o maior público que contei ali foram 20 pessoas neste intervalo entre cidadão e Emicida, ao som de Evandro Sena, patrono do Iraq. A Rural é massa, mas em meio a tanta coisa, passa despercebida a maior parte do tempo.



[caption id="attachment_27511" align="aligncenter" width="695"]Emicida Foto por Flora Pimentel[/caption]
Começou o Emicida, e o público que aguardava grudado na grade desde o final do show do Cidadão Instigado foi ao delírio. A banda dele é bem bacana, mas o som foi morno do início até o momento em que eu não aguentava mais e resolvi que era hora de ir. Resumindo, é interessante desbravar novos sons, mas prefiro ele fazendo rap. Sai do espaço Velvet e enquanto caminhava para o local onde ficavam as vans, pude ver que o Omulu tocava para poucas pessoas no palco Sonic. A megalomania de atrações e o avançar do horário provavelmente são os responsáveis.

Ao fim, o No Ar Coquetel Molotov 2015 foi uma experiência incrível. Podemos ver vários shows bons desta safra da música independente brasileira. Os horários dos shows foram seguidos, a estrutura sonora dos palcos estavam de alto nível. Poucos problemas técnicos notados e estes, não atrapalharam em nada as apresentações dos artistas. A única ressalva que faço a parte estrutural são os banheiros químicos. Fui mimado por 10 anos com banheiros relativamente limpos e com ótima estrutura dos teatros por onde o evento passou e na coudelaria, às 17 horas os banheiros já estavam imundos. E olhe que eu sou homem, ou seja, é bem mais fácil de usar aquilo ali.

Ano que vem a megalomania continua. Até lá!

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