Prólogo: Janela de Cinema 2015

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Arte Janela 2015
Estamos a poucos dias do início do festival mais aguardado pelos entusiastas e amantes do cinema pernambucano: o Janela Internacional de Cinema do Recife. Improvável que não haja sobressalto acerca da espera por essas duas semanas de overdose fílmica, contaminante dos ares provincianos com uma fervorosa espécie de sinergia artística subversiva. Parece-me que durante estes 15 dias a desesperança política e a falta de crença citadina dão lugar a uma pontual sensação de refúgio que só se pode encontrar na completude da sétima arte.

O festival, que marca sua oitava edição, desta vez traz duas novidades. A primeira é que este ano os três cinemas de rua da cidade contemplarão a projeção dos filmes de 6 a 15/ 11: Cinema da Fundação Joaquim Nabuco (Derby), Cinema São Luiz (Boa Vista) e o recente Cinema do Museu do Homem do Nordeste (Casa Forte), alternando entre estreias, sessões especiais, debates e reprises. A segunda boa nova é que a venda de ingressos (rapidamente esgotados) se deu também através de plataforma online, o que facilitou em muito a procura por conta da comodidade. Afinal, no ano anterior a organização do festival sofreu severas críticas do público quanto às intermináveis filas que circundavam o Cinema São Luiz e as muitas horas gastas em pé para garantir as entradas. A polêmica chegou até virar motivo de piada em evento de rede social.

Evento janela
De qualquer forma, é de encher os olhos ver a comoção das pessoas desde a quebra das atividades cotidianas para compra antecipada dos ingressos (mesmo com o advento online este ano, houve grande procura física), até o frenesi das filas momentos antes de cada sessão: é a magia genuína do cinema de rua que só o Janela consegue resgatar.



[caption id="attachment_27529" align="aligncenter" width="695"]Fila Janela 3 Fila no Cinema São Luiz. Foto por Adriano Gomes[/caption]
Acredito, por outro lado, que o público de Festival venha crescendo, porém sofrendo mutação ao longo das edições. O Janela chega com mais popularidade até mesmo do que o Cine PE. Talvez se deva pela valorização legítima das pequenas às grandes produções locais, liberto de certos vínculos governamentais, além de estimular a consciência crítica do público e entusiastas ao preocupar-se com a feitura de oficinas, palestras, debates e programas de incentivo à criação, a exemplo das vinhetas.

As oficinas oferecidas este ano são efeitos visuais (VFX) para filmes de baixo orçamento, gratuita e informativa acerca das ferramentas atuais para propor soluções no processo de criação de um filme; oficina Super 8, que comemora os 50 anos de existência deste formato; e a oficina Janela Crítica, destinada a cinéfilos que tenham interesse em exercitar um olhar crítico para o cinema por meio da escrita ao vivenciar esta prática durante todo o festival.

Em 2015, novamente com os fortes apoio do Funcultura e patrocínio da Petrobras, o Janela exibe 118 filmes de 21 países, dentre competição de curtas e longas, além do diferencial de mostras como a “Ghotic Films”, seleção do gênero Gótico Britânico com os títulos: Os Inocentes, Inverno de Sangue em Veneza, A Noite do Demônio, O Homem de Palha, A Inocente Face do Terror e outros. Uma grata surpresa para os amantes do terror psicológico onírico, que a grosso modo possui todos os elementos característicos de um filme gótico: castelo lúgubre de alas abandonadas ou em ruínas, corredores úmidos, catacumbas, lendas tenebrosas, maldições ancestrais e até rituais pagãos. Além de vilões perversos, da jovem inocente, vítima maior dos horrores, e o herói – contra as forças do mal desencadeadas.

Wicker Man
Imperdível também é a cartela dos clássicos, que contempla diretores consagrados: Quentin Tarantino (Jackie Brown), Ethan e Joel Coen (O Grande Lebowski), Alfred Hitchcok (Intriga Internacional), Charlie Chaplin (Luzes da Cidade), e outros.

Já o programa Cinema de Rua exibirá curtas temáticos sobre aqueles feitos essencialmente na rua e a mostra Filmes de Ação, um apanhado de produções pernambucanas dos últimos cinco anos, criadas por realizadores envolvidos com a causa do Cais José Estelita. A mostra é muito especial porque esses registros foram concebidos como resposta coletiva às decisões de ocupação pública indevida dos espaços da cidade. A proposta é repensar a urbanidade do Recife sem mitigar discurso político, como é recorrente na imprensa. O que carimba mais um vez o comprometimento social dos envolvidos no festival.


Entretanto, acima de qualquer esfera, o Janela carrega enorme natureza nostálgica: desde a exibição dos clássicos até as sessões bossa jovem (ao criar retrospectiva das antigas projeções matinês do Cine São Luiz), além dos primorosos ingressos que ensaiam a simbologia de verdadeiros souvenirs. A Janela se abre e nos é permitida uma eminente viagem no tempo. As vinhetas funcionam como portais para um universo imaginativo, de cores, lembranças e até de saudade antecipada do momento presente. O frívolo e imediato dão lugar ao excecional, emprestando sabor ímpar aos eventos que ali ocorrem. Uma experiência sensorial de expectativas dentro de um pequeno trecho temporal: fazer o público aguardar o ano inteiro por isso é sem dúvidas o conceito do Festival.

Nesta sexta (6), em sessão especial de abertura do Festival, o filme Boi Neon, do cineasta pernambucano Gabriel Mascaro (Doméstica e Ventos de Agosto), será exibido pela primeira vez no Recife e conta com Juliano Cazarré e Maeve Jinkings no elenco. Boi Neon acompanha a história de um vaqueiro que sonha em entrar para o mundo da moda. Há muita expectativa em torno do longa que até então já foi premiado em mais de cinco festivais, entre eles Veneza, Toronto e Rio.
O valor dos ingressos para as sessões do Janela são super acessíveis e vão de R$2 a R$7, a depender do cinema. Se eu fosse tu, eu ia! Para acessar a programação completa, clique aqui.

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